A noite dos Counting Crows no Coliseu de Lisboa
A banda norte-americana regressou ontem a Portugal para um concerto de proximidade com a base fiel de fãs que tem por cá.
"Butter Miracle, The Complete Sweets!" (editado em maio) é o álbum que trouxe os Counting Crows de volta a Portugal. Passaram por cá com a digressão "The Complete Sweets!".
Dez anos após o concerto no festival NOS Alive, o coletivo de São Francisco subiu ao palco do emblemático Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para uma experiência mais recatada e exclusiva com os fãs. O espetáculo, que cruzou momentos mais íntimos e serenos com outros mais espevitados, serviu, sobretudo, para mostrar as novidades criativas do grupo sem, porém, deixar de lado os temas que edificaram a carreira da banda.
O novo disco - que é uma extensão do EP "Butter Miracle, Suite One" (2021) - aborda uma série de convulsões reflexivas de Adam Duritz que, segundo conta, precisavam de ser materializadas em canções ao abrigo de uma certa urgência na criação como uma forma de catarse.
Numa entrevista recente dada à "Rolling Stone", Duritz confessou que continua a correr atrás daquilo que ainda pode fascinar criativamente o grupo. O resguardo confortável nas glórias do passado não parece, por isso, ser uma opção para o coletivo que, em 1993, furou, olimpicamente, os tops com 'Mr. Jones' - o single de estreia que na altura se transformou num autêntico diamante radiofónico.
Importa, por isso, aos Counting Crows que nesta digressão a primeira canção do alinhamento salte do novo álbum. E assim foi.
Por volta das nove da noite, os sete magníficos - Adam Duritz, David Bryson, Charlie Gillingham, Dan Vickrey, David Immerglück, Millard Powers e Jim Bogios - subiram ao palco para ocupar as devidas posições. O cenário minimalista e sóbrio evidencia o foco do grupo: as canções e o virtuosismo de cada um dos músicos.
A banda, coesa e empiricamente oleada pelos anos de estrada, alinha-se à frente do público. Um flash repentino de luz ilumina-a para o arranque do energético 'Spaceman in Tulsa' - o single de avanço do novo registo.
Num concerto de Counting Crows, o foco muda consoante aquilo que a canção pede. Ora brilham as guitarras, ora é enaltecido o som das teclas, do acordeão, da bateria, da harmónica ou do baixo. Nesta história, com mais de 30 anos, todos são protagonistas.
Embora uma breve falha no microfone tenha calado por segundos Adam Duritz, um percalço que aconteceu logo no primeiro tema, a voz do frontman - viva e de boa saúde - encheu as medidas e todos os cantos do coliseu.
Os Counting Crows fincam os pés no presente mas não varrem o passado para debaixo do tapete. Também o celebram. O alinhamento da noite de ontem foi, por isso, um périplo pelos vários momentos discográficos - intenção que ficou logo vincada ao segundo tema. Sem demoras, Duritz agarrou-se à pandeireta para 'Hard Candy', tema do álbum com o mesmo nome que editaram em 2002.
Se 'Hard Candy' mereceu uma grande ovação, o infalível 'Mr Jones' espevitou ainda mais o público que não se conteve a cantar o hit dos anos noventa a plenos pulmões. Adam Duritz aproveitou o momento de comunhão para se chegar à frente de modo a ficar mais perto da euforia revivalista da plateia. Abriu os braços, sorriu e entregou-se à festa da pequena multidão que tinha aos pés.
Em poucos segundos, o ambiente muda e a euforia arrefece. A balada 'Virginia Through the Rain' - um dos temas do novo álbum - expõe, com profundidade, as lutas internas e a procura por conexão humana de Duritz, homem que nunca escondeu sofrer de transtorno dissociativo. Adam canta-a de olhos fechados, deixando que a voz flua com os instrumentos.
Nos momentos em que interage com o público, Duritz fala como se estivesse numa roda de bons amigos. Conta histórias e contextualiza as canções. Antes de 'Omaha', tema que deu o protagonismo ao acordeão de Charlie Gillingham, o vocalista gabou a sala lisboeta e recordou a última passagem dos Counting Crows por Portugal no festival de Algés.
A banda acelera depois com 'Mrs. Potter's Lullaby', do disco "This Desert Life', e mostra a seguir 'With Love, From A-Z' - mais um tema do novo álbum que Duritz quis explicar, começando por falar das viagens que fazia pela América quando era criança. Lembrou as pessoas e os lugares “diferentes” que encontrou até à última paragem, a Califórnia. Sublinhou o impacto dessas experiências na composição de canções e contou que compôs quase todas as faixas de "Butter Miracle, The Complete Sweets!" na quinta de um amigo em Inglaterra. Quase todas as faixas porque 'With Love, From A-Z' foi escrita já com os pés em nos Estados Unidos. Além de ser uma carta de amor para a namorada Zoe Mintz, é também uma missiva para todas as pessoas que impactaram o músico ao longo da sua experiência existencial. "Agora posso dizer que esta é a história da minha vida", disse-nos antes de entregar a voz ao tema.
Adam Duritz enceta depois a introspetiva 'Colorblind' amparado pelo piano e debaixo de um delicado feixe de luz. Os instrumentos vão entrando, aos poucos, com a mesma delicadeza. Segue-se 'Washington Square' e 'Start Again' - canção que nem sempre faz parte dos alinhamentos dos concertos mas que nunca falha no soundcheck. De volta ao tom confessional, foi precisamente isso que nos contou o frontman do grupo, lembrando ainda como 'Start Again' consegue transportá-lo para a beleza crua das harmonias vocais.
Por falar em harmonias vocais, 'Big Yellow Taxi', versão da lendária Joni Mitchell que o grupo gravou em 2002, voltou a puxar pelas vozes dos que estavam no coliseu.
Passagem depois por 'Round Here' até chegar a 'Raining in Baltimore' que foi ganhando corpo e a atenção do público que acompanhou o desabafo do vocalista. Duritz expõe, sem pudor, a substância emocional de que é feito. Abre os braços no pico do desabafo e termina com os braços fechados como se estivesse a querer proteger-se de algo.
Transição para a pujante 'Boxcars', mais uma extraída do novo disco, e espaço no alinhamento para outra versão - talvez um pouco mais inusitada... ou nem por isso. É que nem os Counting Crows escapam ao "movimento" global à volta do fenómeno “Taylor Swift”. Ao piano, Adam Duritz cantou 'The 1' que a norte-americana editou em 2020 com o disco "folklore". Embalado pela carga emotiva do tema de Swift, foi fluindo, com as mãos nas teclas, para a bela 'Long December'.
A balada mandatória na revisão do catálogo dos norte-americanos é fortemente aplaudida, mas os Counting Crows nem deixam o aplauso respirar. Jim Bogios ataca a bateria para a festiva 'Rain King', a última antes do encore.
'Under the Aurora', 'Hangingaround', 'Holiday in Spain' e uma promessa ficaram para o final. "Vamos voltar", disse, convicto, Adam Duritz não sem antes agradecer a todos os que estavam na sala.
