Ainda o Alive: a ordem St. Vincentina, ou um concerto à parte

    Cocktail de supermulher, num combinado explosivo de guitarrista fenomenal, performer e atriz.

    A meio do NOS Alive, fora do meio do NOS Alive, na madrugada do segundo dia, o concerto de St. Vincent no Palco Heineken aterra como que um OVNI no festival de Algés, com um conceito de espetáculo com desenvoltura estética e com direito a 80 minutos (um bocadinho acima da média da duração das atuações do festival naquele hangar).

    St. Vincent é apoderada por uma persona, num cocktail de supermulher, enquanto muita coisa ao mesmo tempo: vocalista, guitarrista fenomenal, performer e atriz. É enfática nos múltiplos gestos que faz para a multidão, no papel de outra pessoa dentro dela que exige ginástica de pernas na forma como se agacha mecanicamente como um ascensor que sobe e desce. Nunca se percebe se as indicações que dá ao técnico de som fazem parte da teatralidade da personagem caprichosa ou se é mesmo um pequeno recado. Talvez as duas coisas, porque tudo em St. Vincent é simultâneo. Não nos esqueçamos que St. Vincent é mulher e “que as mulheres conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo”, como se diz por aí.

    Como vocalista, St. Vincent entretém-se com a sua elasticidade entre o canto meigo e pop até ao modo gutural e proto-metaleiro, em 15 músicas que fazem o apanhado da carreira toda, com uma predileção controlada pelo último álbum “All Born Screaming”. A guitarra elétrica é como a continuação do seu corpo, partilhando as tarefas solistas com o seu camarada do instrumento de seis cordas Jason Falkner. St. Vincent tem os seus momentos de show-off, deitada no chão com a guitarra ou em coreografia com Falkner e com o baixista, mas dá sobretudo um show, alternando as funções melódicas com os remates de estridência e de distorção.

    St. Vincent sabe ser brincalhona, quando em modo de diva pede um pouco de jazz à teclista Rachel Eckroth e não se contenta com o som dado – “isso não é jazz”. Ou quando se empoleira atrevidamente nos ombros de um segurança (reduzido ao seu papel de mera rocha), antes do seu habitual crowdsurf. Mas naqueles surrealismos todos, St. Vincent aproxima-se da sua vertente real de Anne Clark (o seu verdadeiro nome) quando tem a sua comunicação mais politizada e com a esperança de que o facto de estarmos ali todo juntos é um bom ponto de partida para um mundo melhor. 

    Madrugada de 12 de julho, Algés, mais um concerto de St. Vincent para memória futura.