Alive: Yeah yeah yeah, Nick Cave!

    Alabama Shakes enchem as medidas no Palco Heineken, com a sua 'americana'.

    Quase ao fim de vinte anos do Alive em Algés, é com convicção que se afirma que o concerto de Nick Cave & The Bad Seeds desta noite foi um dos melhores de sempre da história do festival. Mas isso não significa que tenha sido um dos melhores concertos do cantor por cá. Nick Cave é sempre Nick Cave: grandioso, humano, inteligente, intenso, talentoso. Por onde atue, deixa marca inesquecível na história de qualquer festival ou de qualquer sala de espetáculos: Paredes de Coura, Primavera Sound, Coliseu dos Recreios, Coliseu do Porto, Centro Cultural de Belém, e por aí fora. Chegou agora a vez de atuar no palco maior do Alive. E o palco do Alive tornou-se ainda maior.  

    O olhar de Nick Cave é tanto felino (pronto para atacar), como doce (de uma humidade lacrimejante que não pára de brilhar). O sorriso torna-se muitas vezes largo, sobretudo quando está próximo do seu público. O que vemos aqui é um homem que superou tudo - a morte inesperada do pai, a heroína, os desgostos amorosos, os conflitos de banda e, já fora da escala do suportável, a morte do filho próximo e querido, Arthur. Em vez de ficar numa posição passiva de recetor de compaixão, é ele mesmo o atuante dessa empatia e do empolgamento a uma multidão que cada vez é maior. No dar & receber da vida, Nick Cave dá-nos muito. 

    O cantor entra de fato e colete para o impulso enérgico de ‘Get Ready for Love’, como se a música fosse um motor de combustão. O cantor parece um boneco de pernas finas, aos saltos e a tornar-se logo tocável junto à multidão, naquela plataforma avançada. Os Bad Seeds que o acompanham não são poucos, dez ao todo, incluindo o multi-instrumentista barbudo e incontornável Warren Ellis. ‘From Her to Eternity’ é a segunda música, um relato da vizinha em despedida da vida a si imposta. Se a letra é pesada, a música não é menos. É com o estímulo instrumental que Nick Cave fica possuído, atirando-se à multidão, saltando para o piano, rosnando. O homem já está no domínio. “Fucking Lisboa”, exalta Cave repetidamente. “Yeah yeah yeah” é o acordo verbal entre ele e o público.

    A digressão atual vem artilhada com boas surpresas. O cantor australiano recupera uma música que estava esquecida nos alinhamentos dos concertos dos anos 80, 'Train Long-Suffering', a carrilar a vapor pela alma dos blues e do gospel de uma forma muito pura e vivida. “Uh uh uh“ é a onomatopeia ferroviária servida pelo cantor, que bem poderia ser também um chamamento dos índios.

    O alinhamento do concerto de mais de duas horas espalha-se por 14 álbuns diferentes de Nick Cave, de 1984 aos dias de hoje, num meio-termo, em que valoriza tanto a obra recente, como se recusa a esquecer o passado. 'Wild God' é o primeiro tema do concerto das recentes fornadas, em que o coro irrompe e a luminosidade de Cave continua a brilhar. ‘O Children’ é um pedido de desculpa à geração seguinte. O druida do violino Warren Elvis arqueja com assertividade, o coro mostra o seu poderio e Nick Cave cerra os dentes e indica o dedo para a multidão. “Beautiful”, repete, sempre simpático. De repente, acontece o trovão de ‘Tupelo’. Um baixo pesadão soa a um céu escuro e prenuncia uma tempestade grotesca, ao mesmo tempo que se forma uma fumarada nebulosa no palco. O tempo efabulado é inóspito, tal como canta Cave: “Where no bird can fly, no fish can swim”. A mãe está estatelada num chão de betão e o único gémeo vivo é deitado num berço de palha, numa casa onde cai água do teto. Mas nasce o rei, Elvis Presley. 'Tupelo' é uma tempestade performativa de monumentalidade. Carly Paradis desliza os dedos pelos teclados, uma fã assalta o microfone de Cave com mais um “yeah yeah yeah” e Warren Ellis dedilha ferozmente as cordas do violino, como se fosse um mandolim. Estamos todos metidos numa tempestade emocional, público incluído. 

    Na conversa com o público, o cavalheiro Nick Cave mantém a graciosidade. “Eu não falar português”, lamenta o australiano ex-paulista. E depois pergunta: “Como se diz bonito em português? Nick Cave?”. E ri-se. O palco é o seu alpendre, é onde é feliz. E gosta da vista. São humanos à sua frente, muitos. “Beautiful”, exclama. 'Carnage' é a única música do concerto criada fora do eixo dos Bad Seeds, nominalmente no ninho de Nick Cave & Warren Ellis, de onde, na prática, são criadas todas as restantes canções destes últimos 20 anos. A grandiloquência dos coros comove, enquanto Nick Cave canta ao piano mirando acima, para o céu, onde esta música já está. É esse o seu patamar. Em 'Joy', Warren Ellis abana-se sentado com os seus mini-sintetizadores sobre os joelhos, enquanto puxa pelos seus lúgubres agudos. Tão solene é o tema que o silêncio se instala milagrosamente num recinto com mais de 40 mil pessoas. 'Rings of Saturn' é outra enorme canção que Nick Cave volta a agarrar para os alinhamentos dos concertos. O cantor está em muitos versos na função de diseur, em mais um tema a mostrar a vivacidade e saúde da sua obra recente. Segue-se 'Henry Lee', com a poderosa cantora dos coros Janet Ramus no lugar de PJ Harvey. 

    Vêm aí agora canções só recomendáveis para maiores de 18 anos. Toca-se 'The Mercy Seat', uma caminhada angustiante para a pena de morte, como uma marcha, sempre em crescendo. “And the mercy seat is waiting, and I think my head is burning”. Segue-se outro peso histórico, 'Papa Won't Leave You, Henry'. O crime de que era “quase inocente” de The Mercy Seat bem que podia ser este, um homicídio e depois outro em ‘Papa Won't Leave You, Henry’. Há aqui mais vermelhão que escuridão. Se Jorge Palma canta “Enquanto houver estrada pra andar, a gente vai continuar”, Nick Cave interpreta “the road is long and the road is hard”. A estrada de Nick Cave, diga-se, não é bem a mesma de Palma, está com rasto de sangue e na próxima paragem pode estar a próxima vítima. Mas como Cave diz, a estrada segue, “he went on down the road”. Continua a estrada, acumula-se o cadastro. O tema propriamente dito dá muito trabalho à guitarra acústica de George Vjestica. Já Nick Cave empoleira-se em cima da multidão como se fosse um messias. Vendo-o hoje em Algés, talvez o seja mesmo, só pode. 

    Lembram-se do guitarrista berlinense Blixa Bargeld? Já não está nos Bad Seeds para cantar ‘The Weeping Song’. Não há problema, Nick Cave assume o exclusivo vocal do diálogo. Não seria preciso dizer isto mas há nova catarse coletiva. Também, o que esperavam de 'The Weeping Song'? Warren Ellis está num frenesi no violino, Jim Sclavunos brilha no vibrafone, e Nick Cave assume-se como um maestro de palmas. Palmas para Nick Cave. Palma, o Jorge, escreve-se com maiúscula. Mas a palma da mão das personagens de Cave escreve-se com minúscula e está outra vez ensanguentada. A malandra da ‘Red Right Hand’. Sim, a estrada vai continuar, neste caso, para este homem misterioso de casaco preto e empoeirado da letra. E que letra! Entretanto, a mão direita de Nick Cave pega num pacote de sumo Capri-Sonne - “isto está mesmo quente” - num momento de humor hilariante ao seu estilo, em pleno palco. Entretanto, Cave volta a ser maestro da multidão, desta vez um coro, manobrando com os braços as indicações de la la las aos seus fãs. Próxima paragem sanguinária, ‘Jubilee Street’. A vítima? Uma prostituta grávida do próprio personagem, outro ser pouco recomendável. Nick Cave rejubila, ou o homicida. O tema aquece, Nick Cave também, e tira o casaco, saltitando entre a frente do palco e o piano, sempre de forma fogosa.

    Nick Cave faz um aviso: “vamos tocar um tema longo”. 'Hollywood' é a odisseia dramática, onde Warren Ellis faz valer a sua panóplia de programações e os seus sintetizadores, num tema de uma dimensão transcendente, que nos deixa sem fôlego para mais. A continuidade torna-se impossível, o concerto tinha que terminar em ‘Hollywood’. As letras são projetadas na cortina, o público só contempla, porque a vida está toda no palco. Nick Cave mostra falsetes que lhe desconhecíamos. O tema é tão infinito quanto a dor da perda do filho, escarrapachada na letra, com mais ou menos figuras de estilo.

    Mudam-se as cortinas mas não se mexe na numerosa instrumentação. Vem aí encore. Nick Cave pega numa harmónica e Jim Sclavunos toma a bateria por uma só canção, 'City of Refuge'. De forma personificada na letra, Nick Cave retoma a estrada, com as mãos a escorrer sangue, com mais uma prostituta como baixa. A música tem o frenesi da fuga. Mas tudo muda drasticamente da ficção para a realidade, com 'Wide Lovely Eyes', dedicada por Nick Cave à sua mulher, Susie Bick, que está escondida, na lateral do palco. “É a sua música preferida dos Bad Seeds... porque é sobre ela”, desabafa Nick Cave, enquanto nós nos rimos. Nick Cave tem esta coisa fantástica: faz rir e chorar, às vezes quase ao mesmo tempo.

    Já é tarde, os Bad Seeds vão para o merecido repouso, Nick Cave fica sozinho em palco. Ele despede-se com amor, em ‘Into My Arms’, uma carta à amada tão bonita que nem o Deus Cupido conseguiria escrever. A crença é no amor, nem que seja necessária a conversão ao “Deus intervencionista”. Num mundo sem rei, nem roque, sem Cohen ou Bowie, há ainda umas luzes por onde nos podemos guiar para nos salvarmos. E uma dessas luzes é Nick Cave. Essa luz esteve bem viva em Algés. "Beautiful".

    Houve mais vida no Alive além de Nick Cave. Antes do seu concerto, houve uma belíssima atuação dos Alabama Shakes, que encheram por completo o hangar do Palco Heineken. Também não são poucos os músicos em palco, nove ao todo, para nos darem um maravilhoso cheiro de um refogado bem americano de soul, com blues, gospel, country e rock & rock, feito em chama alta pela voz portentosa de Brittany Howard.

    A banda não precisa de grande espalhafato para evidenciar a sua qualidade orgânica de banda, pincelada pelo som do órgão e dos teclados... Sempre como um pináculo de tudo e mais alguma coisa, Brittany Howard porta-se como uma solista de guitarra elétrica exímia. E os seus falsetes vão longe e carregam algumas músicas.

    A dado momento, Brittany Howard vira-se diretamente para os outros dois membros efetivos dos Alabama Shakes, Zac Cockrell e Heath Fogg: “conhecemo-nos no liceu e começámos a tocar. E agora podemos tocar em países como Portugal. Depois de fazermos uma digressão mundial, eu percebi que podia fazer da música o modo de vida. E fiz esta música”, ‘This Feeling’, canção a merecer uma grande ovação no final.

    Brittany Howard anunciou ainda um novo álbum dos Alabama Shakes para agosto e tocou uma das músicas novas, que se encontra no habitat de suavidade da banda. Já a cantoria coletiva de ‘Hold On’ provocou um sorriso largo em Brittany Howard.

    Antes tinham tocado os Dogstar. Raramente as atenções estiveram tão focadas num baixista que não canta, como o ator Keanu Reeves, de cara mais magra do que nos filmes. O trio mostrou alguma fibra, musculatura sónica e boas canções. Mas o impacto foi morno para o público, que foi desmobilizado, sem mostrar grande afinidade com os temas. Dito de outra forma, Keanu Reeves foi mais visto do que os Dogstar ouvidos.