Ana Lua Caiano e Amélia Muge em "ensaio superlativo" no Maria Matos
Segunda noite do “Conta-me uma Canção”, com Caiano e Muge juntas pela primeira vez em palco. Entrevistas a ambas.
A música não escolhe idades. A jovem Ana Lua Caiano e a experimentada Amélia Muge têm quase 50 anos de diferença, mas vão estar apenas a menos de cinco metros uma da outra no palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa, nesta quarta-feira, no segundo concerto do festival Conta-me uma Canção.
As duas cantoras reinventam-se no mesmo território musical de raízes tradicionais portuguesas a partir das 21h00 de 5 de fevereiro. Em entrevista à nossa rádio, Amélia Muge recorda que "a primeira vez" que falou do trabalho da Ana Lua Caiano “foi com o pai”, o escritor Gonçalo M. Tavares e “fiquei logo muito interessada. Gosto imenso da abordagem dela”, “gosto muito da forma como ela se posiciona em relação ao pensar e ao fazer as coisas que faz”.
Ana Lua Caiano, também entrevistada por nós, tem um interesse recíproco pela cantora Amélia Muge. “Eu adoro o reportório dela e é incrível como as suas músicas são super-experimentais. Adoro ver isso porque ela no fundo também trabalha com a tecnologia, no sentido das gravações, por exemplo. Tem uma multiplicidade de vozes gigante e eu sinto que o nosso trabalho até se aproxima muito. Uma coisa interessante que fui descobrindo é aquela parte da palavra. Ou seja, ela começa em textos e cria as melodias e, portanto, as melodias acabam por ser guiadas por aquilo que o texto é. Eu faço um bocadinho ao contrário, normalmente parto da melodia e depois escrevo o texto e aqui também com ela houve essa oportunidade de experimentar o contrário a partir de um texto e fazer uma melodia. Sinto que também estou a aprender muitas coisas com ela e a forma como ela utiliza a palavra. Por exemplo, a música ‘Taco a Taco’, que é uma espécie de lenga-lenga e de trava-línguas que tem sílabas que não significam nada mas que significam muitas coisas e é super-interessante ver como ela brinca com a palavra e acho que isso é das principais coisas que me atraiu ao trabalho dela”.
Os ensaios entre Muge e Caiano só começaram há dias, devido à distância geográfica. Amélia Muge vive na Póvoa de Varzim, enquanto Ana Lua Caiano habita a capital. “É sempre muito imprevisível e acredito que a noite [de 5 de fevereiro] também vai trazer muitas coisas novas. O público cria sempre uma intimidade e um tipo de interação que também faz com que o concerto mude e cresça e, portanto, certamente vai ser muito influenciado também pela própria noite”, tenta antever Caiano.
Para Amélia Muge, também não vale a pena fazer grandes prognósticos. "A primeira coisa que eu acho que há de esperar é aquele espetáculo que vai trazer toda a fragilidade de alguém que se vai expor, de duas pessoas que se vão expor, que vão conversar e ao conversar, algumas ideias irão surgir, que de facto poderão até ter uma concretização qualquer musical num momento muito simples. Nós acordámos que o que mais facilmente nos poderia pôr em comum era este aspeto das vozes e da percussão - embora eu vá tocar [viola] braguesa num tema, mas é a exceção que confirma a regra”. No dicionário mental de Amélia Muge para este concerto está a palavra “ensaio”. “Há o ensaio de estarmos juntas. E há o ensaio de estarmos juntas com as pessoas. É um ensaio no seu sentido mais superlativo”.
Ana Lua Caiano reconhece esse lado exploratório e indefinido: “é um encontro entre nós as duas - nós nunca tocámos [juntas] - e, portanto, vamos estar também a explorar muito à medida que vamos tocando. Acaba por ser uma espécie de experimentação e de ensaio, tal como a Amélia descreveu”.
Ana Lua Caiano vai levar para palco a sua mesa multiusos, onde cabem o Vale do Douro e o Silicon Valley, a tradição multiplicada pela eletrónica, a instrumentação de manuseio como o adufe ou o brinquinho da Madeira e o milagre dos loops. “Vou integrar algumas músicas dela também nesta mesa, vou ter mais instrumentos do que o normal, músicas que nunca fiz. Também vai ser uma descoberta para mim perceber como é que faço músicas de outras pessoas com essa maquineta”, com a ajuda de um pedal.
Amélia Muge frisa que “esta é a única hipótese que tenho de me desmultiplicar em vozes. De outra maneira, se não houvesse esta tecnologia, implicaria outras pessoas a cantar aquelas linhas melódicas, o que em termos tímbricos não seria a mesma coisa. Portanto isso faz todo o sentido. Vamos do adufe e do puro canto em silêncio à capela até ao uso das tecnologias. Nós temos esses manuseios todos, que multiplicam o risco”.
Ana Lua Caiano submeterá à repetição os sons que se tocarem, seja adufe ou braguesa: “o loop tem cinco loops independentes, então eu posso fazer loops de voz e de guitarra, de adufe, da braguesa, de teclados, de tudo e mais alguma coisa. Portanto, não precisamos de tocar muito tempo e as coisas ficam a rodar, a loopar. Podemos criar muitas coisas por cima, o que traz muitas possibilidades. Duas pessoas sozinhas não conseguiriam fazer tantas coisas”.
