Angola: vidas quebradas, "um livro por amor a Angola"

    António Mateus dá a conhecer a história de 10 famílias na maior caravana de fuga de Angola.

    Angola celebra 50 anos de independência, foi a 11 de novembro de 1975, mais de um ano e meio depois do 25 de Abril. Nesse período, Angola viveu o caos enquanto ainda estava sob a responsabilidade de Portugal.

    No livro 'Angola: vidas quebradas', o autor António Mateus conta como várias famílias fugiram de carro, em 1975, na maior caravana de fuga:

    "Achei que aquilo que eu lia e via aqui em Portugal, reproduzidos nos media e em termos de livros do que teria acontecido desde 1975 para a frente, era uma visão muito tunelar daquilo que aconteceu. Isto por quê? Porque há dois períodos que eu achei importante diferenciar. Um era aquele que decorreu entre o 25 de Abril e a independência de Angola, que foi mais de ano e meio depois. E depois a guerra, a guerra propriamente dita, que sequenciou a independência de Angola, que se assinala agora a 11 de novembro, quinquagésimo aniversário.

    A responsabilidade de garantir a ordem e a segurança em Angola, antes da independência, era portuguesa, era do Estado Português, e o colapso da lei e da ordem em Angola pouco depois do 25 de Abril e até à independência, seria responsabilidade do Estado Português garantir a segurança dos civis que ali residiam. E isso não aconteceu.

    Para ser mais preciso na descrição do que aconteceu, eu tentei confinar não só no tempo, como acabei de descrever, mas no espaço, o que é que estava a acontecer. Porque é que quase meio milhão de pessoas fugiu das suas terras, de onde vivia, de onde tinham os seus investimentos, de onde sonhava ficar. Porque é que eles fugiram? O que é que estava a acontecer? E eu fiz o percurso inverso àquela que foi a maior caravana de fuga da então Nova Lisboa, hoje Huambo, com o líder dessa caravana. A caravana chegou a certa altura a ter dois mil e quinhentos carros, mais de oito mil pessoas que fugiram para as terras do fim do mundo, que era o vértice interior de Angola, junto à faixa de Caprivi. Como é que eu cheguei a eles? Eu conheci em Joanesburgo um dos principais organizadores dessa caravana, que era o senhor Carlos Serra e ainda em tempo de guerra, há vinte e cinco anos, convidei ou desafiei, eu a ele e ao Carlos Oliveira, que era repórter de imagem da RTP, a fazermos o percurso em sentido contrário. E foi a fazer esse percurso em sentido contrário que eu fui conhecendo, por esse caminho, pessoas que ainda viviam nessa rota. Agora, passados mais de vinte e cinco anos quase todas as pessoas que eu entrevistei para esse documentário já morreram. Mas através dos contactos que eu mantinha, consegui recuperar [alguns elementos da mesma família]. Grande parte deles já tinham nascido em Angola e eles não quiseram vir para Portugal, até porque não cabiam no termo "retornados". Retornado é quem retorna, não é? É quem volta a um ponto de origem. E para eles o ponto de origem é Angola, não é Portugal. E essa é outra linha firme deste livro, é mostrar que quando nós olhamos para quem fugiu de Angola e chamamos retornados a quem veio para Portugal, é uma segunda violência no termo para elas. E é justo que se reponha esse olhar como ele é. Estas pessoas pertencem no coração e no espírito a Angola, tal como qualquer pessoa doutra raça qualquer que nasce em Portugal, ela pertence a Portugal, ela sente-se portuguesa e é tão legítimo ela ser portuguesa e sentir-se portuguesa, como todos os angolanos de todas as raças que nasceram em Angola sentirem-se angolanos e, portanto, são refugiados. Tiveram que fugir da guerra". 

    O autor e especialista em assuntos africanos diz que este é um livro escrito com amor e por amor a Angola. António Mateus considera que Angola tem potencial para "ser um país deslumbrante" e que "o futuro de Angola está nos angolanos", no entanto, considera que o país tem de acordar

    "A guerra já acabou ali em 2002, há quase um quarto século. Porque é que se continua a culpar o colonialismo por continuarem milhares de angolanos a virem para Portugal e a saírem daquele que é um dos países mais ricos do continente? São essas perguntas que exigem respostas, às quais devem responder os atuais líderes angolanos, em vez de continuarem a dizer: "Ah! O colonialismo. E esse é o ponto deste livro"

    Sobre o futuro de Angola, o especialista "esperaria que já estivesse num caminho de acordar, em vez de estar a procurar desculpas para continuar na cama. É importantíssimo que Angola deixe de ter uma monoprodução. É importantíssimo que Angola acorde para aproveitamento dos seus próprios recursos naturais. É importantíssimo que Angola deixe de exportar a juventude para países à volta. A grande riqueza de Angola e o futuro de Angola está naqueles que estão a sair de Angola. E é importantíssimo, é urgente inverter esta tendência".

    Leia a entrevista na íntegra:

    António Mateus