Anne Carson “é talvez uma das poetas vivas mais originais que existem”

    Tatiana Faia compara Anne Carson a uma espécie de cruzamento entre Samuel Beckett e um tragediógrafo grego do século V antes de Cristo.

    A escritora canadiana Anne Carson foi distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, uma escolha que está a ser recebida com entusiasmo por leitores, críticos e tradutores de todo o mundo. Para a poeta e tradutora Tatiana Faia, responsável pela tradução de várias obras da autora para português, trata-se de um reconhecimento há muito esperado para uma das vozes mais singulares da literatura contemporânea.

    “É talvez uma das poetas vivas mais originais que existem”, afirma Tatiana Faia, sublinhando que Anne Carson construiu uma obra única ao aproximar a contemporaneidade da tradição clássica greco-romana. A tradutora confessa mesmo surpresa por a distinção não ter chegado mais cedo. “Só me impressiona que não tenha acontecido antes.”

    Nascida em Toronto, em 1950, Anne Carson tornou-se uma figura difícil de enquadrar nas categorias literárias tradicionais. A sua obra atravessa poesia, ensaio, tradução, teatro e narrativa, recusando fronteiras rígidas entre géneros. Questionada sobre como explicar a autora a quem nunca a leu, Tatiana Faia diz que é “uma espécie de cruzamento entre Samuel Beckett e um tragediógrafo grego do século V”.

    Mais do que a diversidade formal, a tradutora destaca a originalidade do pensamento de Anne Carson. Segundo Tatiana Faia, a escritora "cria associações inesperadas entre temas e épocas, cruzando o desejo, a escrita, a economia, a antiguidade clássica e a experiência contemporânea. É precisamente essa capacidade de estabelecer relações improváveis que faz dela uma autora tão marcante".

    Uma das dimensões mais reconhecidas da sua obra é a reinvenção dos clássicos. Especialista em grego antigo, Anne Carson traduziu autores como Safo e reinterpretou várias tragédias gregas, aproximando textos com mais de dois mil anos dos leitores atuais. Em português, é possível encontrar a sua versão de *Antígona*, entre outras obras.

    Apesar da relevância internacional, Anne Carson continua a ser uma autora exigente e relativamente pouco conhecida fora dos círculos literários. Tatiana Faia acredita que essa dificuldade de acesso resulta, em parte, da natureza profundamente poética da sua escrita. “É uma autora exigente, que é difícil de ler”, admite, descrevendo o processo de tradução como um trabalho complexo, marcado pela consciência de que algo se perde inevitavelmente na passagem entre línguas. Ainda assim, considera um privilégio traduzir uma escritora que define como “muito certeira” e “feroz”.

    Em Portugal, Anne Carson conta já com várias obras traduzidas, mas permanece longe da popularidade de muitos romancistas contemporâneos. Para a tradutora, o Nobel poderá alterar esse cenário e levar novos leitores à descoberta da sua escrita. “Vai ser uma descoberta extraordinária”, afirma. “É uma autora extraordinária para descobrir.”