Apocalyptica atuam hoje em Lisboa

    A banda finlandesa regressa a Portugal para mostrar "Plays Metallica Vol.2". Entrevista a Paavo Lötjönen.

    Os Apocalyptica atuam hoje (17 de novembro) no LAV - Lisboa ao Vivo, sala que já está esgotada. Os finlandeses passam por Portugal para mostrar "Plays Metallica Vol.2" - álbum que editaram em junho deste ano e que é também um regresso às origens. 

    Eicca Toppinen, Paavo Lötjönen e Perttu Kivilaakso voltaram a pegar em canções dos Metallica, dando-lhes a textura própria dos Apocalyptica, tal como já tinha acontecido em 1996 com o álbum “Plays Metallica by Four Cellos”, registo que os colocou no caminho do sucesso e até no trilho dos próprios Metallica. "Plays Metallica Vol.2" é um exemplo. O álbum conta com as colaborações de membros da banda veterana de São Francisco, como James Hetfield - vocalista, guitarrista e letrista do grupo e Robert Trujillo, o homem do baixo. 

    "Plays Metallica Vol.2" é também um regresso às vossas raízes. Por que razão decidiram revistar os Metallica e porquê agora?

    Lançámos o nosso primeiro álbum há 27 anos. É muito tempo. Sempre existiu a vontade de fazer versões de canções dos Metallica que não tínhamos incluído no primeiro disco, mas acho que agora foi a altura certa.    

    Mas com uma abordagem diferente...
     
    Sim. Acho que o primeiro álbum teve tanto sucesso porque foi feito com paixão e amor pela música. Éramos estudantes de música clássica. E nessa altura simplesmente gostávamos de tocar. Era divertido estarmos juntos, a "brincar" com música. Enquanto Apocalyptica, o nosso objetivo não era atingir o sucesso nem ter uma carreira. Era suposto sermos apenas um projeto. Pensámos que íamos gravar um álbum, dar alguns concertos e depois voltávamos a tocar música clássica. Só que, de repente, [o disco] tornou-se um sucesso. E um sucesso no mundo inteiro. Foi o álbum finlandês com mais sucesso de todos os tempos. Vendeu milhões de cópias. Foi uma grande surpresa para nós. Não estávamos à espera dessa glória, desse sucesso todo. Isso deu-nos a possibilidade de criar música diferente. E também criou um novo estilo musical. Deu-nos a possibilidade de seguir esse caminho. Agora, que já temos 10 álbuns, sentimos que em cada um deles demos passos em frente. Aprendemos algo novo com cada um dos discos que fizemos. Aprendemos como gravar os violoncelos, como fazer com que o som dos violoncelos soasse melhor, como compôr as músicas ou como fazer os arranjos. Esse tipo de coisas. 

    O que é que aprenderam com o novo disco?
    Acho que neste álbum podemos ouvir tudo aquilo que aprendemos ao longo dos anos. Basta comparar o primeiro disco que lançámos com este e ouvir como é que o som dos violoncelos está a soar maravilhosamente. Quisemos manter a interpretação e as músicas reais. Nos dias de hoje, a música é muito editada. Tudo é editado e ajustado para que fique perfeito. Mas conseguir essa perfeição com recurso ao computador mata a alma da música. Nós quisemos manter a alma da música na gravação. Não tem de ser 100 por cento perfeita. Tem de haver um toque humano. Não quisemos fazer apenas versões dos Metallica. Quisemos criar versões que soassem aos Apocalyptica, mas com ângulos e pontos de vista diferentes.     

    Têm duas versões do tema One, sendo que numa das versões têm o próprio James Hetfield a fazer spoken word e em ambas contam com o Robert Trujillo. Como é que aconteceu terem os Metallica neste disco?
    Conhecemos os Metallica desde 1996. Já abrimos concertos para eles. Mas nunca tivemos o atrevimento de lhes pedir para participarem num álbum nosso. Até que houve um dia em que o Eicca [Toppinen] estava a almoçar com eles contou-lhes os planos que tínhamos para o disco. Disse-lhes que queríamos fazer um álbum novo com canções dos Metallica e explicou-lhes as ideias que tínhamos. Ficaram muito entusiasmados. Mostraram muito interesse nas nossas ideias e quiseram participar. Como disse, não queríamos fazer uma cópia das canções originais. No tema 'One', por exemplo, quisemos criar um ambiente de orquestra com um toque cinematográfico, como se fosse a banda sonora de um filme. Era a nossa visão do tema. Originalmente até pensámos em contratar um ator para a letra, mas, surpreendentemente, o James quis fazer essa parte. É incrível. Na canção original ouvimos um James ainda jovem e zangado a cantar e agora já é a voz de um homem com mais experiência e que já viu muita coisa durante a vida. Além disso, a letra está mais atual.  



    Eles apoiaram-vos desde o início. A vossa relação é de longa data. Gostaria de saber o que é que os Metallica vos ensinaram e o que é que vocês ensinaram aos Metallica?
    É uma pergunta matreira. Eles deram-nos a música pela qual nos apaixonámos. Deram-nos a música que amamos. Gostávamos tanto do som deles que tentámos recriá-lo com os nossos humildes instrumentos, os violoncelos. (risos) Basicamente é algo que não se deve fazer. É difícil tocar aquele som com os violoncelos. Mas eles deram-nos coragem para tentar. Por outro lado, já nos disseram que nós os inspirámos a gravar o primeiro S&M [com a Orquestra Sinfónica de São Francisco], no final dos anos noventa. Fomos nós que os encorajámos a fazer versões sinfónicas das canções. Talvez tenha sido isso o que lhes demos. São a maior banda de metal do mundo. 

    Após quase 30 anos de carreira voltam às origens, mas quero saber se esta viagem ao passado também pode funcionar como combustível para o futuro... 
    A música é uma máquina do tempo. Quando ouvimos as canções que ouvíamos quando tínhamos 16, 18 ou 20 anos, sentimos o que sentíamos na altura. Essas canções transportam-nos para esses tempos. É por isso que dizemos que o rock ‘n’ roll nos mantém jovens. Tenho a certeza que é a música e o rock que nos fazem permanecer “jovens”. Já temos alguma idade, mas eu, pelo menos, não sinto a idade que tenho. E isso deve-se à música e ao rock ‘n’ roll.    

    E fazer este álbum também acabou por ser uma viagem emocional, certo?
    Claro. Foi incrível. Por exemplo, poder tocar em cima da linha de baixo do Cliff Burton (falecido em 1986), no tema Call of Ktulu. Foi surreal. E dá para perceber como o tempo passa rápido. O Cliff já morreu nos anos oitenta. Foi uma sensação arrepiante tocar com a música que ele deixou. Talvez estivesse connosco no estúdio. Histórias de fantasmas. (risos) Tivemos a sensação que estava connosco, a existir algures entre nós.   

    E em relação ao concerto que vão dar no domingo em Portugal, quais são as expectativas?
    Portugal foi um dos primeiros países que visitámos em digressão fora da Finlândia. O primeiro país foi a Alemanha. Portugal deve ter sido o provavelmente o terceiro. Temos de agradecer ao [radialista] António Freitas por isso. É um homem da rádio em Portugal. Fizemos uma entrevista com ele na altura. Se calhar foi por causa disso que tivemos sucesso em Portugal. (risos) Temos memórias calorosas e simpáticas dos primeiros tempos dos Apocalyptica em Portugal. Sempre que voltamos somos bem recebidos.