Arranca hoje o Porto/Post/Doc, a grandeza do cinema do real
Evento estende-se por toda a Invicta. Entrevista ao diretor do festival, Dario Oliveira.
De hoje até ao dia 29, decorre o festival de cinema Porto/Post/Doc, uma mostra do melhor cinema documental e ficcional em pouco mais de 100 filmes selecionados. As salas do Passos Manuel e do Batalha são o epicentro da programação, mas o Porto/Post/Doc, como sempre, vai além da sala escura, com um programa de concertos, “Conversas e Masterclasses” e que vai até ao fim da noite, pela boémia portuense, através de festas com DJ sets.
O novo filme de Jim Jarmusch, “Father Mother Sister Brother”, premiado com o Leão de Ouro de Veneza, é um dos maiores aperitivos da programação do Porto/Post/Doc de 2025, com honras de Sessão de Encerramento, no dia 29, na Sala 1 do Batalha.
O entrevistado Dario Oliveira, na qualidade de diretor do Porto/Post/Doc, faz-nos o enquadramento do que os cinéfilos podem esperar no Porto sobre a edição deste ano do reputado festival.
O Porto/Post/Doc é um festival com cada vez mais recantos? É um festival cada vez mais complexo?
Eu acho que não. Eu acho que o Porto Post Doc é um festival que se reorganiza a cada edição e se pensa. Nós, os programadores, pensamo-lo em função daquilo que acontece à nossa volta, em termos da criação do audiovisual, da criação de cinema e daquilo que são os movimentos que vão também alimentando o cinema do real e o documentário. E aqui os movimentos são sociais, políticos, artísticos e, portanto, é um festival que tem que estar atento. E é isso que nós trazemos para estes dez dias de cinema, de sessões, de conversas à volta dos temas dos programas, de encontros, masterclasses, de sessões infantis, de sessões para adolescentes e sessões para adultos. Temos o festival dividido consoante as horas do dia para públicos que são muito diferentes, multigeracionais e que têm de fazer parte deste projeto que é de todos. Pensamos muito nestas coisas quando escolhemos os filmes. Há uma vastidão de produção internacional de documentários e de cinema do real que também nos vão inspirando. Vamos tomando as nossas decisões, tanto para as escolhas que fazemos para as várias competições, para as secções competitivas, como para retrospetivas temáticas ou de autor. Procuramos não ter um excesso de oferta. Temos pouco mais de cem filmes e esse é sempre o número que procuramos atingir desde a primeira edição, uma centena de filmes. Temos uma série de atividades que acontecem fora da sala de cinema, nas escolas. Ocupamos outros espaços, como a Faculdade de Belas Artes. Neste ano, a Escola das Artes da Universidade Católica. Com isso, procuramos também chegar ao pé dos alunos destas escolas, que são o nosso público mais importante. O festival tem que cumprir esta parte de acompanhar os públicos e fazer com que as pessoas acreditem como é bom estar numa sala de cinema com mais pessoas à volta para podermos ver o filme em conjunto. Toda a gente vê filmes em casa, toda a gente vê séries de televisão, toda a gente faz downloads, mas eu acho que nós não podemos perder a prioridade da nossa atividade que é este reencontro numa sala de cinema. Se a minha geração tem recordações de ir ao cinema desde muito cedo com os pais, penso que hoje em dia já não é assim que acontece. Há uma erosão de um público mais jovem do cinema. Eu sei que há muitos filmes de Hollywood para públicos infantis e todos os pais vão com os meninos ao cinema, até aos doze anos. E depois há um vazio. E também há um vazio de compreensão do que pode ser o cinema, desta forma de arte popular, que hoje em dia parece que migrou para os ecrãs mais pequenos, para outras linguagens que não estão assim tão longe, para as redes sociais, mas toda esta amálgama de imagens carece de interpretação, de regulação, de escolhas bem feitas. E o papel do festival de cinema passa por aqui também.
O que vos motivou a dedicar o Foco a Andrei Ujicã e a Lina Soualem?
São duas gerações de cineastas dedicados ao documentário e, no caso da Lina Soualem, com uma grande mudança agora para a ficção. Mas continua a ser o cinema do real. O Ujicã faz parte assim do nosso património cultural, da história da Europa. Ele fez filmes sobre a Europa Central, sobre a União Soviética, sobre a passagem da União Soviética para a Rússia. Há um filme aqui que marca essa passagem de uma forma memorável, o “Out of the Present”, quanto à história de um astronauta que quando vai para a estação lunar, ainda sai da União Soviética e, passado muitos meses, quando regressa, o mundo muda e já não existe a União Soviética. É um filme a que chamo a atenção em particular, é um filme muito curioso, de 1991. É revisitar a história como nós não a conhecemos ainda. E esse é o papel dos nossos focos de autor. A Lina Soualem é uma jovem cineasta que já teve o seu último filme na nossa competição e essa é uma linha de programação que nós seguimos, e descobrindo e acompanhando a carreira de cineastas que nos interessam. Ela também tem um particular interesse na história recente. Em particular aqui a história da sua família de exilados, de migrantes. O pai argelino, a mãe palestina e atriz, bastante mais conhecida que ela, porque trabalha em séries de televisão. Eu gostava que a programação da Lina Soualem fosse entendida como uma forma de nós nos afirmarmos, como para apontar para aquilo que, de facto, mais interessante se passa neste momento no cinema europeu. Escolhemos os dois por serem europeus, por terem dois pontos de vista muito diferentes e muito complementares, ao mesmo tempo, da História recente da Europa. É para isso que serve o documentário. É para voltarmos a olhar pela História, para sabermos mais, para nos interrogarmos. E o papel deste festival e o papel destes dois cineastas que estarão presentes no festival para masterclasses, para conversas com o público, para apresentarem os seus filmes, para apresentarem as suas escolhas pessoais de filmes de outros cineastas. Por exemplo, no caso do Ujicã, ele escolheu um filme maravilhoso que é mais ou menos desconhecido. É um filme que se chama “My Home Is Copacabana”. É um filme do meio da década de sessenta, que conta a história de quatro amigos sem abrigo que vivem em Copacabana. E isto é o início de uma fase da História do Brasil, ainda em plena ditadura, com as favelas a começarem a aparecer um pouco por todo o lado, nas encostas do Rio de Janeiro. É uma oportunidade única de vermos este filme perdido na história, com um olhar mais incisivo, mais crítico. São a nossa forma de lançar perguntas sobre o que é o papel das memórias pessoais, das memórias coletivas, e apontar um pouco para o futuro e evitar os erros do passado. Acima de tudo, nós só pedimos ao nosso público um voto de confiança, que acreditem no papel de divulgador, de programadores que nós temos há doze anos com este festival e queremos continuar a ter esta relação próxima com o nosso público, que acaba por ser participante.
Há nesta edição um olhar aos direitos humanos, através de 12 filmes pescados a outras secções.
O Human Rights in Motion é um prémio que nos foi proposto pelo Conselho de Europa e selecionamos as várias temáticas, uma dúzia de filmes que falam explicitamente sobre direitos humanos e concorrem para um prémio. Esse prémio é um dos mais importantes do festival. Portanto, é uma nova secção dentro do festival. É um prémio que chama a atenção para um dos flagelos da nossa época, que é o não-cumprimento por parte dos governos, dos patrões, dos bilionários, dos direitos que assistem a todo e qualquer ser humano. São filmes muito diversos, que vêm de muitos países diferentes. Contam histórias únicas, histórias impressionantes. São filmes muito poéticos ao mesmo tempo.
Mais uma vez, temos que falar da secção de documentários de música Transmission. Temos as cenas de hip hop da Margem Sul, das raves de Roterdão e até de uma rua dominicana, e documentários sobre gente tão diferente como Madonna, Butthole Surfers, os Residents ou Orlando Pantera. É difícil ser mais eclético, não é?
Nós dependemos da colheita de filmes bons que são feitos um pouco por todo o mundo, ano após ano. Seria muito pouco prevenido da parte da programação do festival termos uma secção só dedicada ao rock, independentemente de eu gostar mais dos sintetizadores ou das guitarras ou de spoken word. É óbvio que isto é um pouco daquilo que se passa pelo mundo. Temos filmes americanos, da República Dominicana, filmes holandeses, espanhóis, portugueses e sobre África e a música de Cabo Verde, como o caso do filme da Catarina Alves Costa, o “Orlando Pantera”. Portanto, este ecletismo é uma forma de nós nos guiarmos e ajudarmos a que estes filmes ganhem vida e comecem aqui um percurso. Embora o filme Orlando Pantera já tenha estado noutros festivais em Lisboa, é uma estreia no Porto. Os outros filmes também. Podia dar aqui o exemplo do filme espanhol, que é um filme extraordinário de guitarra flamenca do Yerai Cortés, que é um novo Paco de Lucía. É um jovem guitarrista e um poeta do flamenco dos nossos anos. E esse filme é realizado pelo Antón Alvarez, que se estreia aqui como documentarista, que muitos conhecem com outro nome artístico, que é o C. Tangana, que ainda há bem pouco tempo pisou palcos portugueses e era um congregador da nova cultura em que misturou o flamenco e a eletrónica. E aparece aqui com um filme sobre um amigo, sobre uma história muito pessoal, uma história de família.
Podem ver neste link a programação completa do Porto/Post/Doc.
