Bia Caboz: "canto para que pessoas mais novas descubram o fado"
Entrevista à cantora de 28 anos, que se prepara para lançar o seu álbum de estreia em 2025.
A fadista Bia Caboz lançou nesta sexta-feira o seu novo single, ‘Vai Vaguear’, que inspira um vídeo em que a cantora é uma sereia do Atlântico, como se fizesse da sua ilha da Madeira uma jangada rochosa que flutua entre as casas de fado de Lisboa e as escolas de samba do Rio de Janeiro. O oceano Atlântico é o mundo azul em que Bia Caboz deriva livremente e onde os seus sonhos quase que cabem.
‘Vai Vaguear’ é mais uma achega para o álbum de estreia que aí vem em 2025, “Espiral”, onde entram em rotação outros temas de avanço já conhecidos, como ‘Sentir Saudade’ e ‘Fala-Me A Verdade’.
Bia Caboz é a fadista que, ao sair da casa de fados, se metamorfoseia e larga as formalidades, num rumo veloz para a pista de dança da discoteca ou para um cortejo carnavalesco do Funchal ou do Rio de Janeiro. Pelos vários cantos, um permanece, mesmo que debaixo da luminescência de uma bola de espelhos ou de um sol senhorial de praia: o canto do fado. Em cada colorido, há sempre uma sombra vultuosa e um sentimento predominante de saudade na voz quente de Bia Caboz. De sandálias ou de fato de motard, a cantora madeirense será sempre fadista.
Nasceste na Madeira? E quando?
Nasci no dia 1 de Julho de 1996, na Ilha da Madeira, no Funchal.
Quando é que surgiu o fado na tua vida?
Isso é muito engraçado. Eu não fui uma criança que começou logo a cantar. Aos 7 anos, comecei a tocar viola e só descobri a minha voz aos 12. Descobri a minha voz a imitar a Amy Winehouse. Eu queria muito repetir o que ela fazia, menos a parte da droga - essa parte eu não queria. E ao tentar imitá-la, percebi que era afinada e foi aí que percebi que podia cantar e tocar ao mesmo tempo. Sempre que cantava alguma coisa dela, havia sempre dois fados que eu interpretava, que era o ‘Oiça Lá, Ò Senhor Vinho’ e a ‘Casa da Mariquinhas’. No fundo, eram fados mais alegres. Eu adorava cantar sempre esses dois fados.
Sinceramente, eu não me lembro como é que o fado veio parar a minha vida. A partir dos 12 comecei a cantar e o fado foi entrando. Quando eu cantava fado, as pessoas sentiam que era diferente e então me pediam para eu repetir o fado e não as outras músicas. E eu percebi que, afinal, no fado havia ali qualquer coisa de único quando eu cantava.
E quando e como enveredaste pelo fado de uma forma mais profissional?
Aos 18 anos, comecei a fazer concertos na Madeira, logo de fado. Cantava também música tradicional portuguesa e alguma música regional da Madeira. Eu produzi por inteiro o primeiro concerto que fiz. E tempos depois, conheci a Ana Moura. Na primeira conversa, ela disse-me: “tu devias cantar numa casa de fado. Ia ser bom para ti passar por esse universo. Eu vou falar com a Maria de Fé para ver se tu começas a cantar no Sr. Vinho”. Eu disse “’tá bem”. Passaram alguns dias, ela falou com a Maria e quando cheguei ao Sr. Vinho, a Maria da Fé recebeu-me de uma maneira muito engraçada, na realidade. Quando cheguei lá, ela disse: “desculpe, quem é?” Eu disse, “ah sou a Beatriz”. “Ah sim sim, mas eu não tenho tempo para ti hoje”. Foi logo assim. Respondi-lhe “não, mas eu fiz uma reserva para conhecer a casa”. “Ah, se fez uma reserva, então entre. Bem, eu não estava à espera que tivesse feito uma reserva”. Ela estava à espera que eu fosse só lá conhecê-la. Ela pediu-me para cantar no final da noite e ela disse assim: “vem quando quiseres, nem que seja para aprenderes e para ouvires as outras pessoas a cantar. Vem quando quiseres, tens uma voz linda”. Basicamente, comecei a cantar no Sr. Vinho, foi a primeira casa de fado que comecei a cantar aqui em Lisboa”. Para mim, foi o lugar que me fez ser a fadista que sou hoje, porque uma coisa é cantarmos fado fora desse mundo, outra coisa é entrarmos nele e percebermos que é preciso ouvir várias pessoas por dentro, para entender aquele universo. No fundo, o que eu queria fazer era concertos de fado sem sequer ter entrando nesse mundo e aí não era possível. Depois, estive lá dentro e conheci o mundo e fadistas incríveis como a Cidália Moreira, a Lenita Gentil, a Maria da Fé, claro. Conheci o marido da Maria da Fé, José Luís Gordo, que me ofereceu vários poemas para eu começar a cantar e aprender a dividir as coisas. Foi assim que eu me tornei fadista.
Qual foi a maior lição que esses veteranos do fado te deram?
Acho que a forma como eu divido os poemas que canto e que escrevo também. Então, basicamente, o [mundo do] fado ensinou-me isso, que nós devemos dividir aquilo que nós cantamos como se estivéssemos a conversar, com a mesma entoação. E para mim hoje isso é o que é mais importante para produzir, para criar música nova, é isso que eu trago e é isso que eu sinto que me faz diferenciar de uma artista pop. É essa forma de dividir as frases. Quando tu imitas uma outra fadista, tu vais imitar as voltas dessa fadista. Se tu olhares para a frase que foi escrita que tens de cantar e olhares para a métrica, tu vais tentar desencaixar a frase na métrica da música. Tu vais ter de dar naturalmente a tua volta. E se a frase disser alguma coisa triste, tu vais cantá-la de uma forma triste. Chama-se estilar à tua maneira. E é isso, basicamente, que faço com a música pop agora. Então levo sempre essa escola. Acho que foi a melhor coisa que aprendi no fado.
O que é que ouvias além do fado, ao longo do teu crescimento?
A Amy [Winehouse] foi a minha primeira referência musical e depois comecei a entrar no universo brasileiro porque lá na Madeira nós temos um Carnaval muito forte. Então, eu desfilava no Carnaval, comecei a ficar muito ligada ao samba em rede, às escolas de samba, e comecei a descobrir artistas brasileiros que cantavam samba. Eu acho que antes de eu cantar nas casas de fado, essa já era a minha paixão. Há uma artista que amo e que é uma grande referência para mim, que é a Mariene de Castro. Ela canta muito músicas da Clara Nunes, tal como uma fadista canta hoje a Amália. Ela, como sambista canta Clara Nunes, foi assim que descobri a Clara Nunes. E é isso que eu pretendo: que pessoas mais jovens que me encontram descubram quem foi a Amália, quem foi Maria Teresa de Noronha, quem foi a Beatriz da Conceição, trazendo a sonoridade um pouco mais moderna e trazendo algumas referências dessas pessoas à minha música.
O Brasil é a tua segunda nação?
Eu acho que o Brasil é a minha antiga nação. Noutra vida, acho que já fui brasileira. Quando conheci o Brasil, foi para desfilar no Carnaval, a primeira vez que fui ao Brasil. Nós e os brasileiros temos uma ligação forte. Os brasileiros sentem exatamente a mesma coisa quando vêm a Portugal. Fui viver uma temporada de dois anos lá, estive a fazer uma imersão musical no Brasil, a viver à brasileira mesmo. E foi uma experiência incrível. Realmente nós somos muito parecidos. Quando digo “nós somos”, acho que também tem um bocado a ver com os madeirenses. Porque eu acho que o madeirense está mais perto do Brasil. Somos povos parecidos. A alegria é a mesma, o facto das pessoas se meterem contigo na brincadeira, é a mesma coisa. Não tanto aqui em Lisboa, mas na Madeira isso acontece muito e eu sinto que temos muitas, muitas similaridades.
O que a Ana Moura tem feito com o fado e o que a Rosalía tem feito com o flamenco foram um alento a música que fazes?
Mais do que um alento, foram uma inspiração para mim. Eu sou muito próxima da Ana, eu vi o processo da Ana e para mim foi tipo, “uau”, “é incrível”. E nem sinto que é incrível pela coragem. Sinto que é incrível porque a Ana é uma pessoa incrível a misturar várias coisas. E na altura, quando estava com ela, dizia-me: “tu tens de misturar o Brasil, quando tu cantas brasileiro, quando tu falas do Brasil, os teus olhos brilham”. E sinto-me muito orgulhosa pelo que estou a fazer e pelo que estou a produzir. Sinto que a Ana basicamente capinou um campo que ainda não estava aberto, abriu o caminho para o resto passar. Eu sinto que vou logo atrás. Mas também sinto que ainda há coisas para fazer que não foram feitas e que há públicos que não são o foco nem da Ana, nem da Carminho, nem da Mariza. Eu tenho um público-alvo. Tenho uma irmã em casa que tem 18 anos. Esse é o meu público-alvo. Não só esse, mas esse também. Daí ter feito a música com o Piruka [‘Fala-me a Verdade’], ter feito o tecno que são lugares que ainda não tinham sido muito explorados. Depois, é isso que dá a sensação que tu vais mais a fundo nas eletrónicas e até te envolves muito mais nesse mundo. Como fadista, claro. Não necessariamente na música eletrónica. Eu acho que há muita coisa para fazer que não foi feita ainda. Só de pensar no que não foi feito. O tecno, por acaso, é uma música que faz parte da vida das pessoas que me rodeiam. Nem era propriamente da minha, é mais das pessoas que me rodeiam. E era por cansaço de ouvir, que eu disse: um dia tenho que fazer um tecno que eu queira ouvir, porque assim, instrumental para mim não dá, é cansativo. Sempre que algum dos meus amigos punha tecno, sentia falta de qualquer coisa nesse set de eletrónica. Quando fiz o ‘Senti Saudade’, gravei-o a pensar num set de eletrónica, em que, quando entra a voz, tinha que ser à capela. Eu imaginava um festival de eletrónica, em que entrava a voz de fadista a meio do set.
E assim fizeste. Subiste até a mesa do DJ e cantaste diante de um público imenso.
Exatamente. Aquela foi a primeira atuação ao vivo e as pessoas já conheciam a música. Foi incrível. A sensação foi: “era isto que eu imaginava e é isto que está a acontecer”. Eu estou muito feliz com isso.
Esta fusão entre fado e tecno vai caracterizar o teu primeiro álbum? O que é que vai ter mais?
Eu acho que o que vai caracterizar o meu álbum, a única ligação que as músicas terão, sou eu, a minha melodia e a minha forma de cantar. Este álbum chama-se “Espiral”. Cada música tem a sua história, cada música tem o seu estilo e o seu ritmo. Foram todas produzidas e escritas por mim, algumas com outras pessoas. Essa é a cola de todas as músicas do álbum. O único [tema] tecno que vai haver no álbum é o ‘Sentir Saudade’. No álbum, acho que há sempre coisas novas para explorar. O meu objetivo é que ninguém espere nada de mim.
Vamos ter, por exemplo, sons da Madeira? Do Brasil?
Vamos, vamos. Uma das músicas tem o brinquinho da Madeira. Não tem o ritmo normal, mas tem o brinquinho. Eu sei que está lá, portanto eu já sinto que tenho um bocado de Madeira comigo. Eu gravei agora um videoclipe no Rio de Janeiro e decidi levar aquilo que é uma mistura da minha identidade com o samba, com música brasileira, uma batucada bem específica. E decidi levar um colar de doces madeirense, que é um colar que em todos os arraiais da Madeira eles vendem. Então é quase nostálgico para todos os adultos. Quando éramos crianças, os nossos pais compravam aqueles colares. E eu decidi levá-los para o Brasil. Estou sempre a fazer uma mistura de tudo o que tenho na bagagem. Vamos ter, por exemplo uma mistura de fado com o sertanejo.
Com quem é que tu gostarias um dia de colaborar? Já vi que és uma pessoa que gosta de colaborações.
Eu acho que as colaborações fazem todo o sentido. Acho que misturar influências, misturar personalidades artísticas é sempre incrível. Eu tenho uma paixão enorme pela Alcione. Eu amava fazer uma música com a Alcione, é uma pessoa que admiro imenso.
És uma mulher corajosa?
Eu acho que no caso da Ana [Moura], ela é bastante corajosa porque a Ana já estava posicionada há muitos anos no fado. Já tinha um público supostamente fiel. É muito corajoso tomar essa decisão e talvez pela Ana ter tomado essa decisão, eu fiz questão de não me posicionar no fado da mesma maneira, para não ter de levar com certas coisas que eu acho desnecessárias. Nem todas as fadistas são artistas de palco. Muitas fadistas são fadistas só de casa de fados. E isso é muito comum no mundo do fado. E o que eu sinto é que quando tu vais para o palco, não podes ser a fadista da casa de fados. E eu comecei no palco. Então o que eu acho é que ser só fadista é muito redutor, se tu podes ser mais coisas também, se tu podes fazer mais coisas. Eu, por exemplo, produzo música. Tirei um curso de produção. Eu não tirei um curso de fado. Eu sou fadista. Nas casas de fado, se nós estivermos lá todas, todas seremos fadistas. Só que fora da casa de fado, eu posso ser fadista e mais alguma coisa. Porque se eu for só fadista, eu não posso produzir, não posso fazer nada. Sou só fadista.