Bonnie Tyler à M80: "fiz um álbum ao estilo dos anos 80"
"The Best Is Yet To Come" é lançado hoje. É o 18º longo de estúdio da cantora.
A consagrada estrela Bonnie Tyler lança hoje o seu novo álbum, o otimista "The Best Is Yet To Come", numa altura em que cumpre um longo confinamento em Portugal, que dura desde há quase um ano.
Alegre e simpática, diz muitas vezes a palavra “fantastic” na entrevista telefónica que teve connosco. Não poupa em elogios a rádio M80, que ouve assiduamente, a partir do seu poiso soalheiro: a casa de férias (e quase primeira residência) em Santa Eulália, em Albufeira.
Bonnie Tyler está mortinha por levar para palco as novas canções, quando tal for possível. Como diria a própria, "The Best Is Yet to Come".
As músicas do seu novo álbum parecem repletas de glória. Concorda?
Sim, é um som muito à anos 80. As canções estão muito poderosas, com refrães fabulosos. É contagioso, não há como não cantar aquelas músicas. É um álbum cheio de alegria, que é algo de que estamos todos a precisar, depois de um ano como este. Mas temos tido a sorte de estar em Portugal. Viemos em março, para umas férias de uma semana. Já passou praticamente um ano. Adoramos Portugal!
Imagino que esteja a ser a estada mais longa em Portugal de toda a sua vida.
São as férias mais longas que alguma vez tive (risos).
Quando gravou o novo álbum "The Best Is Yet To Come", cantou as músicas com aquela fé no rock à antiga?
Não era suposto ser feito dessa maneira. O Steve Womack compôs grande parte das músicas do álbum - 'The Best Is Yet to Come', 'Stuck to My Guns', 'When the Lights Go Down' - que são tão fortes, ao modo dos anos 80. E o Desmond Child, que escreve para o Jon Bon Jovi e que está por trás de uma série de êxitos mundiais, compôs propositadamente para mim 'Stronger Than a Man'. Tinha-lhe pedido uma canção e ele faz esta canção fantástica. Adoro-a. "A woman's place is anywhere a woman wants to be" [é uma das frases da canção que significa: "o lugar de uma mulher é em qualquer sítio onde a mulher queira estar"]. Está poderoso.
Tem referido o Rod Stewart e o Bruce Springsteen como modelos de inspiração para o novo álbum. Tem também em consideração um nome como os Fleetwood Mac?
Adoro os Fleetwood Mac, acho-os incríveis. Para mim, eles têm um dos melhores álbuns de sempre, o "Rumours" [de 1977, que é defendido por muitos como a grande obra-prima do grupo, onde constam canções como 'Go Your Own Way' ou 'Don't Stop'].
O que é que a levou a gravar de novo com o seu primeiro produtor de sempre, David Mackay?
Há dois anos e meio, o meu primeiro baixista de sempre, Kevin Dunn, disse-me: "escrevi-te umas músicas, queres ouvi-las?". E eu pensei: "oh meu Deus, ele não é um compositor de canções, o que é que me espera?". E respondi-lhe: “quero ouvir essas canções, Kevin. Mas vou ser sincera contigo. Se eu não gostar, digo-te". "Claro que sim, só posso esperar isso de ti". Mas quando ouvi as canções, fiquei impressionada. "Meu Deus, Kevin, onde é que estavam estas canções? Porque é que não escreves canções há mais tempo? Estão tão bem escritas". E ele diz-me: "ainda bem que gostaste das canções, não queres aparecer no estúdio com o David Mackay?". "Bem, já não vejo o David há 40 anos”. Foi maravilhoso. Fui ao estúdio dele e soube tão bem reencontrá-lo ao fim de tantos anos. Demo-nos tão bem outra vez [no álbum de 2019, “Between the Earth and the Stars”]. Vou já no meu segundo álbum seguido com ele. Temos já canções suficientes para um novo álbum no próximo ano. Foi óptimo voltar a trabalhar com o Davd Mackay.
Foi desafiante cantar o clássico de 1975, ‘I’m Not in Love’?
Tinha que o fazer ao meu estilo porque foi uma gravação tão importante para os 10cc. Quando o David me sugeriu, eu disse "mmm, não sei". Mas ele insistiu: "nós podemos fazer de uma forma completamente diferente". E eu respondi-lhe: "tem mesmo que ser, não faz sentido tentar fazer uma versão parecida". Acredito que a consegui fazer ao meu modo.
É reconhecida pela sua voz poderosa. Lembra-se da primeira vez na sua vida em que sentiu que poderia fazer sensação com a sua voz?
Lembro-me de acompanhar o [programa da BBC] "Top of the Pops" e de pensar: "eu posso cantar tão bem como aqueles". Mas nunca imaginei que poderia vir a ter a oportunidade de gravar canções. Fui tentando entrar em bandas. Formei a minha própria banda, chamada Imagination, onde interpretava todo o tipo de canções. Fazia noites de blues, ou de pop, ou de bossa nova. Cantava tanto temas de Chaka Khan, como [de artistas da editora] Motown. Adorava interpretar músicas de Janis Joplin e de Tina Turner. Sabia que tinha a voz, mas não me imaginava a gravar. Foi um acaso que me fez cantora. Eu não enviava maquetas a ninguém. Aconteceu-me apenas estar no local certo, no momento certo, no País de Gales. Um caça-talentos veio de Londres para um clube onde eu estava a trabalhar. Ele não fazia ideia que eu iria atuar, tinha ido ao clube para ver uma banda no piso de cima, não a do piso de baixo onde eu ia cantar. Mas viu-me e falou de mim a vários compositores em Londres. Fui depois a Londres gravar algumas maquetas. A terceira canção da maqueta era doce, 'Lost in France'. Mas desenvolvi depois nódulos na garganta que se tornaram benéficos para a minha voz, que se tornou mais forte e rockeira. Foi um acaso feliz.
Dos grandes êxitos que teve - 'It's a Heartache', 'Total Eclipse of the Heart' ou 'Holding Out for a Hero' -, tem algum que lhe mereça mais estima?
Tenho um fraquinho pelo 'It's a Heartache'. O 'Total Eclipse of the Heart' “bateu forte” nas tabelas de vendas. Isso nunca teria acontecido se não tivesse ouvido o Meat Loaf a cantar o 'Bat Out of Hell'. Estava a caminho da editora discográfica pela qual eu tinha acabado de assinar, a Sony. Tinha saído da RCA e iria cumprir um contrato de cinco anos com a Sony. Na ida de táxi para a editora, oiço na rádio o 'Bat Out of Hell' e pensei: "meu Deus, adoro esta canção". Quando cheguei à editora, o A&R pergunta-me: "com quem gostarias de trabalhar?”. “Ainda bem que me pergunta isso, porque vinha no táxi a ouvir o Meat Loaf a cantar o Bat Out of Hell. Eu quero trabalhar com quem escreveu essa canção e com quem a produziu”. E ele responde-me: "pede-lhe primeiro [ao compositor Jim Steiman]. Se lhe disser não, tudo bem". “Pois bem, eu quero trabalhar com o Jim Steinman”. Eles fizeram-lhe uma proposta, à espera de um claro não. Mas o Jim disse-me que gostaria de me conhecer. Por isso, fui a Nova Iorque conhecê-lo, com o meu manager da altura. Demo-nos muito bem e três semanas mais tarde mostrou-me uma canção que tinha escrito há alguns anos e que seria para o Meat Loaf. Mas resolveu dar-me a mim.
Quando gravou o videoclipe de 'Holding Out for a Hero', sentiu vertigens quando foi filmada junto a um precipício do Grand Canyon?
Um helicóptero sobrevoava-me e um tipo empoleirava-se com um megafone. A corrente de vento que soprava do hélice empurrou-me para trás e não para a frente, se não eu tinha ido pelo Canyon abaixo. O tipo [de megafone] dizia-me: “desculpa, Bonnie, da próxima vez não nos abeiramos tanto”. Eu queixava-me: “estou a derrapar para trás”. Tivemos que mudar as colunas sonoras do precipício de volta para cima das árvores. Devo dizer que era um sítio deslumbrante para se filmar um vídeo, mas era também muito assustador.
Uma carreira como a sua deve estar cheia de grandes momentos mas também deve ter tido alguns erros. Qual foi o seu maior arrependimento?
Não sinto grandes arrependimentos. Costumam perguntar-me pelo tema do James Bond que rejeitei. Foi-me proposta uma canção do James Bond ['Never Say Never Again', de 1983]. "Isto é incrível". Mas quando ouvi a canção, foi a maior desilusão. Tentei gostar daquela canção, mas não conseguia. Por isso, tive que lhes dizer não. Porque havemos de fazer uma coisa na qual não acreditamos? Teria adorado ter cantado uma música do James Bond, mas nunca aquela, que achei horrível.
Planeia ficar a viver no Algarve para o resto da sua vida?
Também vivo no País de Gales. Adoro Portugal! Adoro as pessoas e a comida que é pena não conseguirmos tê-la [referindo-se ao fecho dos restaurantes ditado pelo confinamento]. Agora tenho que cozinhar (risos). Vocês são uns abençoados por terem nascido em Portugal, espero que se apercebam o quão abençoados são por terem nascido num país tão bonito.
O Algarve foi amor à primeira vista?
Apaixonei-me por Vale do Lobo logo na primeira vez viemos para cá, em 1976, para gravar em estúdio. Nós - a nossa banda e o nosso staff - estivemos num aldeamento. À noite íamos beber e comer para a praia. Foi fantástico. Começámos a procurar uma casa que encontrámos em Santa Eulália [em Albufeira]. Fabuloso!
Que diferenças encontra entre o Portugal dos anos 70 que conheceu e o Portugal de hoje?
Ui, Deus! Não tem nada a ver. As estradas eram muito rústicas, andávamos sempre aos altos e baixos. Não havia luzes. E viam-se carroças puxadas a cavalos. Os bares de praia foram todos mudados por causa da União Europeia. Havia velhos barracões e churrasqueiras... Ai meu Deus, que tempos maravilhosos. Portugal continua maravilhoso, mas sinto-me feliz de ter conhecido o país como era antigamente, tão bonito e rústico.
Conhece bem a música portuguesa?
Ah, o fado! De vez em quando, fico a ver fado. Já estive em vários concertos de fado. Gosto especialmente de duas fadistas, uma delas é loira. Pode dar-me alguns nomes que eu digo-lhe quais são? [Começo a dizer vários nomes, Bonnie Tyler só confirma Mariza, e mesmo assim sem grandes certezas].
Qual a nova estrela musical que mais admira?
Gosto muito do Lewis Capaldi, a sua voz é linda.
