Capicua: "não é com conformismo que nos vamos salvar"

    Entrevista à rainha do hip hop tuga, que lança nesta sexta-feira o álbum "Um Gelado Antes do Fim do Mundo".

    A rapper Capicua começa esta entrevista com uma confidência. “Eu não gosto nem de vinho, nem de café, nem de cerveja, que são as três coisas que os portugueses gostam muito. Só faço fila mesmo por um gelado. Se for uma gelataria italiana das boas eu aguento muito tempo na fila. Acho que vale a pena”. O álbum novo que sai esta sexta-feira chama-se “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”. Capicua já nos tinha revelado a todos nós o seu vício dos gelados em ‘Vayorken’, em que “acabava com a arca do café ao pé do prédio” quando menina e que ainda comia os gelados do seu primo Pedro.

    A Maria Capaz da guerrilha cor-de-rosa tem pouco tempo para sorver o gelado de pauzinho da sua cor predileta, a julgar pela capa do disco. Mas Capicua quer alargar esse tempo de vida, contra a “civilização suicida”, sorvendo o “verde de verdade”, como no tema ‘Apartamento’. A sua gula pela natureza é bem maior do que pelos ‘pastéis do além’ que se vendem como ‘Souvenir’, o nome do seu tema contra a desertificação das grandes cidades. 

    Positiva e lutadora, Capicua quer continuar a nadar com os peixes prateados e a erguer o punho contra o grunho e contra o patriarcado. O seu fétiche não são os homens de farda, mas sim as emoções humanas e o campo.  

    O novo álbum desabrocha como a primavera. O dia de lançamento a 21 de março não é Ao Acaso?
    Não é ao acaso, é também um dia simbólico que vem no início da primavera, mas também o dia da poesia. E que simbolicamente representa também uma das intenções do disco, que era celebrar essa força poética das palavras e da música, enquanto um resgate da nossa humanidade, da nossa capacidade de imaginar novos futuros, de empatizarmos uns com os outros, de certa forma de renovarmos os votos com a esperança, que é uma coisa que está muito difícil nesta sensação de fim do mundo.  E o disco fala um bocadinho sobre essas duas coisas. Fala sobre o nosso tempo e essa sensação de apocalipse, de tensão, de agravar problemas. Mas também é essa tal proposta para reforçar o olhar poético sobre as coisas e para que o encantamento nos dê a vontade de lutar pelo mundo. Porque se mantivermos este cinismo, este adormecimento, este conformismo com o estado das coisas, não temos vontade de ir à luta e de salvar aquilo que vale a pena salvar. 

    Capicua
    Capicua

    Sinto hoje que mesmo pessoas que defendem a democracia estão muito conformadas com uma coisa horrível que está para acontecer. Parece que há uma aceitação geral.
    Sim, uma espécie de profecia autorrealizada que a gente se habituou a acreditar que é inevitável e então caminhamos para essa profecia autorrealizada. Caminhamos para o cumprimento dessa profecia autorrealizada como se não houvesse outra alternativa. Não só, fazemos isso de forma resignada e conformista como também temos uma grande incapacidade coletiva de nos sentarmos à volta de uma mesa e imaginar como é que poderia ser diferente.  Ao contrário das gerações anteriores, nós não temos capacidade de criar utopias, de imaginar o futuro como podendo ser uma coisa boa. Nós imaginamos o futuro sempre como se fosse uma coisa distópica, uma coisa orwelliana versão ficção científica com ou então com uma grande catástrofe natural. Mas nunca conseguimos imaginar o fim do capitalismo, imaginamos sempre o fim do mundo. Vejo os miúdos muito mais capazes de imaginar alternativas do que as gerações mais velhas e isso também diz muito sobre o estado em que esta geração que supostamente foi forjada naquela ideia do fim da história e de que haveria prosperidade e paz na Europa e que ia tudo correr bem. Quando percebemos que isso tudo era uma grande falácia, parece ficámos paralisados e que não conseguimos pensar fora dessa falsa expectativa. Simultaneamente, também temos uma voz tecnocrata, sempre aqui no nosso ouvido, a dizer que não há alternativa. E cada vez que há uma pessoa, um puto que vem com uma ideia diferente ou a falar sobre alternativas ao nosso modelo de organização social e económica, há sempre quem franza logo o sobreolho geracional, o sobreolho tecnocrata, o sobreolho do resignado. E ficamos sempre com esta ideia de que as pessoas sensatas e os adultos na sala sabem que não há alternativa. E eu acho isso uma coisa mesmo triste porque é como se nós fizéssemos parte de uma civilização de suicídio que não tem capacidade de imaginar outro futuro. Está conformada com a sua extinção. E isso é assustador porque acho que é um dos piores sintomas da doença da nossa civilização.

    Pegaste no clássico do nosso cancioneiro ‘Estrela da Tarde’. Será a canção de amor mais abrilista de sempre? Como sempre, fizeste as tuas adendas.
    Eu associo [‘Estrela da Tarde’] a essa urgência de abril, mas também a associo ao amor da adolescência, que é também muito abrilista, no sentido em que parece que é o tudo ou nada. É aquela coisa passional, épica quase, que é dos amores da adolescência, mas que está muito bem retratada nessa letra, que é uma das minhas letras favoritas da música portuguesa e que eu senti sempre que podia ser uma letra de rap. O Ary [dos Santos] pôs muitas palavras, mas tem uma sofisticação métrica, uma força poética e ao mesmo tempo uma repetição de sons, com aliterações muito ricas. Então, eu sempre achei que aquela letra além de estar escrita de forma exímia, podia ser um rap. Então também o atrevimento de fazer esta versão com o Luís Montenegro – atenção, o Luís Montenegro que interessa – e cantá-la como se fosse um rap, como se tivesse sido sempre um rap, samplando a voz do Carlos do Carmo, cuja interpretação é inigualável.  E a versão desemboca num poema meu, sobre essa ideia dos amores de adolescência, desses amores que parecem aquela ideia muito exagerada de que não é possível haver nada depois daquele grande amor.  Eu acho que essa canção remete muito para essa ideia e para essa urgência dos amores da adolescência. Acho que fica bonita assim, a desembocar naquele poema, apesar de todo o atrevimento que constitui fazer não só uma versão de ‘Estrela da Tarde’, como uma versão em rap, e ainda uma adenda no fim.  

    É uma homenagem a essa grande canção. 
    É muito na lógica também do hip hop e do meu trabalho em particular, de estar permanentemente a citar aquelas que são as minhas referências, de muitas formas diferentes. O hip hop faz isso, muitas vezes, através do sampling, mas eu faço também através da citação, da alusão, da releitura de alguns temas, quer quando escrevia a letra da ‘Casa no Campo’ da Elis Regina, mas na minha versão, quer quando fiz as versões do ‘Parto Sem Dor’ e do ‘Que Força É Essa Amiga’ do Sérgio Godinho, e muitas outras formas, quando citei a Sophia de Mello Breyner [no espetáculo conceptual "Água e Sal"], o Zeca [Afonso], o Jorge Amado, o José Gomes Ferreira, estou permanentemente a fazer isso, porque acho que é bonito quando nós homenageamos as pessoas que nos inspiram e quando o nosso trabalho quase que revela uma espécie de árvore genealógica de referências e de bons contágios. É como nos trabalhos académicos, em que há a bibliografia no fim e as citações no meio do texto, mas em formato de poema e de música.

    Capicua

    Como vem sendo hábito nas faixas de abertura dos teus álbuns, entras mesmo a abrir. Em ‘Chiaroscuro’ vai tudo a eito e termina no leito… do Mediterrâneo, por exemplo. Fazes um jogo curioso de claro e escuro em faz um scroll. “Faz um scroll/Praia ao rubro/30 graus em outubro/uau que sorte! | Faz um scroll/A seca é grave, mas no Algarve há piscinas, golfe e abacate”. A humanidade está a merecer este ralhete.
    Eu não quero estar com essa ideia de superioridade moral.  

    Não, és mais como a Mafalda [a famosa personagem de banda desenhada de Quino que fazia muito crítica política]
    Sim, sou mais uma Mafalda. Não pairo sobre a realidade como um alecrim dourado que está imune ao estilo de vida e às suas consequências, porque faço parte do nosso tempo e da nossa sociedade. Não tenho essa pretensão. Mas sim, o ‘Chiaroscuro’ é um retrato de luz e sombra, dos contrastes que fazem com que as redes sociais sejam essa montanha russa absurda e sinistra, em que coabitam as coisas mais frívolas, supérfluas e consumistas, com as coisas mais preocupantes, injustas e escabrosas da atualidade. 
    E como grande caldeirão de contrastes do nosso tempo e de questões, de comportamentos e de estilos de vida do nosso tempo, as redes sociais acabam também de ser um retrato do espírito da época.  E essa canção é um bocadinho uma forma de concretizar, nesse contraste tão óbvio e tão desbragado, coisas que coabitam diariamente e que nós já nem damos por elas porque estamos imunes, aquilo banalizou-se e já não nos sentimos impactados por isso. Mas posto assim de forma tão desbragada, eu espero que as pessoas voltem a sentir-se impactadas pelo absurdo que é pôr no mesmo patamar de importância coisas tão dispares e que têm valores profundamente antagónicos. E sim, acaba por ser um retrato, não só das redes sociais e dessa tal montanha-russa de mau gosto, mas também dos nossos tempos e daquilo que vai minando a nossa saúde mental enquanto indivíduos, mas também a saúde das nossas democracias do ponto de vista mais coletivo. Infelizmente, é um retrato que parece hiperbólico, mas é que nem sequer é. Eu acho que nem sequer estou a exagerar.  A realidade supera bastante a letra da canção.  

    O ‘Chiaroscuro’ é uma razia geral ao modo do ‘Medo do Medo’, não é?
    Eu acho que quando nós fazemos estas canções-lista, como se faz uma enumeração de coisas e as pões de forma muito crua e desbragada, elas têm impacto não só porque estão ali preto no branco, mas também porque fora do contexto do seu habitat natural acabam por ter mais impacto.  Aquilo que está nesta letra do ‘Chiaroscuro’ é o que está no nosso feed de Instagram ou Facebook ou TikTok todos os dias. Só que assim escrito e declamado, sai fora do ecrã e parece que ganhou uma outra dimensão em que o impacto é potenciado não só pela música, como pela força poética das palavras. E eu acho que muitas vezes esse exercício de transformar em poesia e música aquilo que nós damos por habitual, banal e temos completamente interiorizado faz com que nós nos vejamos ao espelho. Isso às vezes é assustador.  Porque a arte no geral tem essa capacidade de refletir aquilo que existe no mundo, mas de uma forma que não nos deixa indiferente, que nos convoca, que nos incita, que nos incomoda, que nos mobiliza. Isso aqui às vezes é só uma fotografia, é um retrato do que existe, mas ali naquela moldura tem um outro potencial de impacto.  Isso é feito também através das canções.  E acho que tanto o ‘Medo do Medo’ como o ‘Chiaroscuro’ fazem esse exercício de emoldurar aquilo que os nossos olhos já dão como normal, mas que naquele contexto, com a força da arte, da música, da poesia, se tornam impossíveis de ignorar.


     
    No tema ‘Making Teenage Ana Proud’, fazes um elogio ao poder feiticeiro de Rita Lee: “Com a caneta mais certeira que a do Ary, no combate é punho forte como Ali”. Admiraste a coragem com que a Rita Lee escreveu as autobiografias? Imagino que estejas a falar da Rita Lee escritora.
    Sim, é já a Rita Lee da terceira idade, ela dizia muitas vezes que nós devíamos envelhecer todas como feiticeiras. Ou seja, pondo o tempo a nosso favor e não tentando lutar contra o tempo e a permanecer naquela ilusão de que podemos ser jovens para sempre. O grande segredo do envelhecimento é essa feitiçaria de transformar o tempo num aliado.  E ela fê-lo com uma juventude de espírito ímpar, sempre foi uma mulher de vanguarda, até na velhice. E, portanto, eu acho que esse espírito de insubmissa e da feiticeira Rita Lee é uma coisa que eu aspiro como exemplo para quando eu for amadurecendo.  E essa canção, a ‘Making Teenage Ana Proud’, fala sobre manter o espírito insubmisso da Ana adolescente, não só agora, mas sempre. E eu acho que isso foi o que fez a Rita Lee, que manteve a sua adolescente interior sempre muito orgulhosa, porque nunca se instalou e sempre foi muito fiel a si própria e à sua vontade artística e à sua opinião. Até ao final da vida, honrou essa feitiçaria de pôr o tempo e a arte a seu favor.  Acho que ela é um dos exemplos de como envelhecer a fazer música na cultura pop, na indústria do entretenimento, sem cair nas armadilhas do patriarcado, de ter que desaparecer ao primeiro sinal de envelhecimento, ou de tentar lutar contra o tempo desesperadamente, um bocadinho como o filme da Demi Moore, “A Substância”.  E a Rita Lee não se vergou a nenhuma das versões, nem desapareceu na juventude, nem tentou encontrar o elixir da eterna juventude. Antes pelo contrário, soube ser para sempre jovem, precisamente porque deixou o tempo aparecer como uma coisa boa na sua obra não só musical como literária.  E é por isso, também, que ‘Making Teenage Ana Proud’ é uma canção que sobre esse exercício de mantermos o espírito inconformista dos anos de adolescência. Pelo menos, eu era essa adolescente inconformista e de causas, aliás que ainda hoje mantenho, e de paixões como a cultura hip hop e de convicções como o feminismo. Portanto, desde essa adolescência que eu tento manter o meu espírito insubmisso e acho que hoje grande parte daquilo que sou profissionalmente e também como cidadã e como pessoa se deve a essa Ana adolescente que mantenho, que quero manter orgulhosa.

    Na música ‘Brava’, és uma autêntica riot grrrl contra a monocultura, num modo mais punk.
    Sim, sem dúvida. É a minha canção mais punk de sempre. É do Pedro Geraldes o instrumental.  E é uma versão mais punk e mais spoken word.  É uma espécie de homenagem também a esse tipo de canções como por exemplo ‘The Revolution Will Not Be Televised’, do Gil Scott-Heron, ou até ‘A Revolução Não Vai Ser Um Tweet’, do Xulaji. Esse tipo de canção reclamada, mas que tem muito power, porque as pessoas às vezes têm aquela ideia de que a palavra dita tem que ser aquela coisa como se estivéssemos no lounge do hotel, a ouvir alguém a fumar cigarros, a dizer uns poemas e com uma pianada por trás. Eu acho que a palavra dita pode ser profundamente punk e pode agitar muitas águas e é palavra sem artifício, com o seu impacto total e esta canção, Brava, é sem dúvida uma canção muito riot grrrl. É engraçado, porque o meu rap sempre teve esse espírito. Então esta canção parece que sou eu a condizer com o espírito que o meu rap sempre teve, que é uma cena meio riot grrrl, meio punk, meio insubmissa.  

    Capicua

    Em ‘Flamingo’, voltas às metamorfoses biológicas que tanto gostas de falar.
    Os flamingos vão perdendo o seu cor-de-rosa habitual na altura em que têm que alimentar os filhos pequenos, por causa do esforço de os alimentar e porque a sua cor rosada vem da sua alimentação, dos crustáceos. E eles fazem um grande esforço para alimentar as crias. Durante aqueles anos em que as crias ainda não conseguem comer sozinhas, começam a desbotar, esbranquiçados, cinzentos. Eu achei que essa metáfora era ótima para descrever o hiato entre um disco e outro, entre o Madrepérola e este “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”. Porque entre a experiência de ter um bebé muito pequenino e depois a pandemia e estarmos todos sozinhos em casa e toda aquela experiência muito intensa, ser mãe a tempo inteiro, dona de casa, em circuito fechado e fechada dentro de uma casa, eu senti as minhas penugens também muito desbotadas, no sentido em que perdi um bocadinho o ímpeto criativo e essa capacidade de projetar a vontade e alguma coisa para o futuro em termos daquilo que é o meu trabalho criativo. E houve ali um momento de pousio e em que não consegui olhar para a frente e não consegui ainda ter vontade de voltar a compor.  E, portanto, achei que essa metáfora dos flamingos era muito útil e essa canção fala um bocadinho sobre esse hiato entre um disco e outro, acabando com aquele pequeno poema a dizer que “o flamingo não é cor-de-rosa, torna-se; assim como o poema não nasce da prosa, forma-se; se o cisne não nasce elegante, adorna-se; a lua não é minguante, transforma-se”… Para dar a entender que nada é só uma coisa e que as coisas vão passando, são fases e que da mesma forma que estamos às vezes minguantes, depois podemos estar crescentes e se o flamingo às vezes também fica cinzento pode voltar a pôr-se cor-de-rosa.  

    Sentes-te um fantasma na cidade do Porto - ou mesmo em Lisboa?
    Não, eu não me sinto um fantasma, mas sinto que facto as cidades sem a sua memória ficam um bocado terra de ninguém, ficam naquele limbo entre uma cidade e um cenário, em que ninguém se sente em casa e ninguém é propriamente bem-vindo a não ser os visitantes. E essa é a canção, ‘Souvenir’, fala sobre a perda da memória nas cidades. E por memória não estou a falar daquela coisa meio celebratória de uma ideia de passado. Estou a falar da memória dos lugares, das rotinas, das relações, das pessoas que se conhecem, que vão à mercearia, o senhor do café que sabe o nome dos clientes, as pessoas que se encontram, que se cruzam, os sedimentos que se acumulam. E eu acho que isso é o que faz uma cidade, é esse tecido social. A cidade não é só os edifícios, é esse cruzamento, esse tecido, essa malha de relações, de rotinas, de memórias, de sedimentos que depois, quando se deslaçam, quando são destruídos porque as pessoas têm que ir embora, porque as lojas fecham, porque tudo se transforma em hotel e em cenário, é irreparavelmente perdido. Essa canção é um grito de alerta para esse processo de deslaçamento e de destruição em curso. Os estendais perdem a roupa a secar. Os bancos de jardim deixam de existir e só passa a haver esplanadas.  As mercearias vão fechando,  depois fecha o sapateiro, depois vão fechando os pequenos comércios e fica só uma quantidade de lojas de cadeias multinacionais, com pessoas que não se conhecem de lado nenhum, com visitantes que passam 2, 3 dias e vão embora, e já ninguém se lembra do que é que estava ali antes, porque também já as pessoas foram indo embora, e quebra-se essa tal malha de relações e de rotinas e de memórias que de facto são completamente irrecuperáveis, mesmo que isto tudo passasse. Demoraria muito tempo a reconstruir uma malha nova. Acho que aquilo que está a acontecer no Porto e em Lisboa é um bocadinho isso. Há essa descaracterização, esse deslaçamento, que vai acontecendo à medida que as pessoas vão sendo expulsas para cada vez mais longe.

    Usas em ‘Danúbio’ uma expressão forte cantada pela Gisela João: ‘A embrulhar-nos no presente nas folhas do jornal de ontem’. A corrente deste revivalismo despótico não está a atravessar apenas a Hungria, pois não? 
    É verdade. Eu digo, aliás, no fim “eis o cais, eis o caos, sente o passado todo pela frente” e, no refrão, também digo “não há quem não sinta um cheiro a anos trinta”. E eu acho que é essa ideia de que o passado se repete, que estamos prestes a cumprir novamente o outro ciclo, de repetição e que o crescimento da extrema-direita é inevitável. Tudo isso me parece muito assustador, sobretudo porque é vendido como se fosse uma coisa mesmo dada como adquirida. É um bocadinho uma anedota das loiras, que havia antigamente - felizmente que passou esse tempo - em que havia uma anedota que dizia que a loira encontrava uma casca de banana no passeio da rua e dizia: “lá vou eu cair outra vez”. E eu acho que é um bocadinho essa situação em que nós estamos. E essa canção ‘Danúbio’ chama-se assim porque em 2023, acho que em agosto, eu vi uma notícia de que a seca, por causa das alterações climáticas, lá está, tinha baixado tantas águas do Danúbio que tinham vindo à tona os navios nazis afundados durante a Segunda Guerra Mundial. Esses navios tinham sido afundados propositalmente para tornar o rio inavegável e estavam ainda cheios de explosivos, por isso nem sequer os podiam retirar.  E eu achei aquela notícia a metáfora perfeita para o que vivemos hoje. É quase como se os monstros do passado tivessem estado ocultos, mas estivessem estado sempre lá. E agora num momento de escassez, de alterações climáticas, crise, voltam à tona, ainda armadilhados, prontos para cumprir a ordem. A qualquer momento.  E isso é mesmo uma imagem fortíssima. E eu sabia naquele momento que ia ter que fazer uma canção sobre isso. Depois a Gisela fez um refrão divinalmente, tem uma guitarra meia-fado do Pedro Geraldes e ela encaixa ali com aquela voz grave. Ainda gravou também um assobiozinho western spaghetti que ficou incrível.  A Gisela era mesmo a pessoa certa para aquele refrão.  

    Capicua

    O teu álbum é, como sempre, muito interventivo, mas há um caso ou outro em que parece que sinto canções mais introspectivas de amor. Estou a pensar mais no 'Natureza Morta'. Será só uma impressão minha?
    A 'Natureza Morta' parece uma canção de amor, mas é sobre a situação de nós nos habituarmos a coisas que nos são incómodas, mas depois de passar muito tempo deixamos de as ir sentido, quase como se em muitos momentos da nossa vida nós nos fôssemos acomodando a coisas que de facto nos entristecem. Mas com o passar do tempo e do hábito, vamos domesticando aquele incómodo e ele passa a fazer parte da decoração da casa. É um bocadinho essa metáfora que eu exploro na canção. E ela, de facto, pode ser aplicada a relações de amor, mas também pode ser aplicada a muitas outras situações da nossa vida. E acho que tem muito a ver também com o espírito da época, se extrapolarmos para o ponto de vista coletivo. Estamos habituados a muitas coisas que não gostamos e que achamos que deviam ser diferentes, mas como não fizemos nada para mudar e achamos que foi sempre assim, agora já estamos demasiado habituados e convivemos com todas essas questões como se fossem parte da decoração. Mas, sim, acho que a maior parte das pessoas, quando ouvir, vai achar que é uma questão mais emocional. 

    Capicua atua nesta quinta-feira, dia 20, no Teatro Tivoli, em Lisboa; e na quinta-feira seguinte, dia 27, na Sala Suggia da Casa da Música, no Porto. Luís Montenegro, Virtus, D-One, Inês Malheiro e Joana Raque acompanham a rapper. Gisela João é a convidada especial do concerto em Lisboa. O grupo coral portuense Sopa de Pedra participa no espetáculo na Invicta.