Crentes no rock para sempre. A MEO Arena voltou a ser a casa dos Scorpions

    Casa cheia para receber o grupo veterano mais uma vez. O desígnio da banda é honroso e ainda incendeia arenas.

    “Coming Home” é o nome da digressão que trouxe de volta os históricos Scorpions a Portugal agora para a celebração dos estoicos 60 anos de carreira que ostentam com orgulho e invejável resistência. 

    O desígnio do grupo de Klaus Meine (voz, guitarra) Rudolf Schenker (guitarra), Matthias Jabs (guitarra), Pawel Maciwoda (baixo) e Mikkey Dee (bateria) é honroso e ainda incendeia arenas: continuar na estrada, enquanto a correria à volta do mundo estiver a dar gozo. 

    Sabido é que nessas “intermináveis” voltas ao mundo tem havido paragens frequentes em solo português, várias na MEO Arena. Banda residente por cá? Fazendo as contas, são merecedores desse estatuto e os próprios gostam de “fazer parte da mobília” cá de casa. Tamanha dedicação ao público português só fortalece a lealdade dos fãs que os seguem. Esta noite não foi diferente. 

    À porta da sala lisboeta, vimos o habitual desfile de t-shirts em série com o nome "Scorpions" orgulhosamente estampado no tecido. Avistamos também pessoas com t-shirts que provavelmente levaram ontem ao concerto que os veteranos Iron Maiden deram no Estádio da Luz e tantas outras a representar bandas como os Nirvana, Guns N’ Roses ou AC/DC. Representadas também estiveram várias gerações e nações. Pais, filhos, grupo de amigos de diferentes idades e um número significativo de fãs estrangeiros iam entrando na arena para o que os esperava lá dentro: uma bela e quente noite de rock da velha guarda.

    Ventos indomáveis, a soprar de Hanôver, Alemanha, voltaram a soprar na MEO Arena. A sala voltou a testemunhar longevidade, respeito e a personificação da crença absoluta no rock n' roll suado, adornado a cabedal e bem amadurecido.   

    O concerto tinha acabado de começar e o arrepio do bom velho rock ‘n' roll já começava a trepar pela espinha. E por lá ficou ao longo de quase duas horas. As pulseiras pretas que seguram o rock a latejar nas veias, a fúria dos instrumentos e a entrega respeitável ao concerto de Klaus Meine, hoje em dia com os movimentos mais aprisionados e com a voz a denunciar menos força, permaneceram no pico até à demorada saída da banda do palco. 

    'Coming Home' foi a primeira a ser servida. Sem fôlego ou tempo a perder a banda continua com as garras de fora para atacar depois 'Gas in the Tank', agora com a bandeira portuguesa a esvoaçar no grande ecrã. Klaus Meine, com a típica boina e óculos de sol, interage com os milhares na frente do palco, apontando o microfone à multidão. As idas à frente de palco foram, aliás, recorrentes e sempre celebradas pela plateia. Rudolf Schenker, Matthias Jabs e Pawel Maciwoda pareciam miúdos irrequietos com vontade genuína de chegar a todos, vontade essa igualmente vincada pelo vocalista Meine em diversos momentos. Mikkey Dee acompanhava a inquietude dos companheiros, voraz pelo ritmo e brilhantemente selvagem no domínio das baquetas, no posto que lhe compete e que o define, a bateria. 

    Segue-se 'Make It Real' e no final ouvem-se as palavras de Klaus Meine sobre os 60 anos de história que os Scorpions estão a partilhar com os fãs. Ao longo do concerto, o frontman alemão não se cansou de elogiar o público português, sorrindo e levando a mão ao peito em sinal de gratidão.

    'The Zoo', com a sala agora avermelhada, antecipa a instrumental e estonteante 'Coast To Coast' com Meine a segurar a guitarra nos braços e Schenker, a dada altura, de braços abertos a suster a posição gloriosa, enquanto, lá mais atrás, labaredas fictícias ilustravam a temperatura da sala. Ovação na arena com Klaus, Rudolf, Matthias e Pawel alinhados à frente. Enquanto isso, Mikkey continuava a ser incrível no seu posto.


    Tempo para um apontamento nostálgico de Meine que lembrou o início da história longa do grupo. O músico recordou o sonho que, naquela época, viajava com a banda numa carrinha modesta algures na Alemanha. O sonho era o de pisar um palco como o desta noite, contou-nos. A partilha deu o mote para um medley de temas da década de setenta a começar com 'Top of the Bill'.  

    'Bad Boys Running Wild' e 'Delicate Dance', com Ingo Powitzer agora incluído no elenco, seguem-se depois no alinhamento que inevitavelmente acalmou com as baladas absolutamente indispensáveis num concerto de Scorpions. Serenaram as guitarras para ouvirmos 'Send Me an Angel', clássico que pediu o natural ajuntamento no ar das luzes de telemóveis, com as vozes na arena a acompanhar a melodia suave e etérea. 

    Passagem depois para 'Wind of Change' e para uma mensagem de apelo à paz e à união em tempos conturbados. Os Scorpions não foram os inventores das power ballads mas estão, claramente, entre os que souberam exaltá-las, implantando-as de forma implacável na memória coletiva de várias gerações. 

    O concerto volta a ganhar velocidade com 'Loving You Sunday Morning' e 'I'm Leaving You'. O instrumental 'New Vision' entrega protagonismo a Pawel Maciwoda e a Mikkey Dee que, às tantas, ficou sozinho no palco.

    Tempo então para apreciar a relação visceral que Dee, lendário baterista dos Motorhead, tem com a bateria – no fundo uma extensão de quem é. O solo triunfante e aguerrido que protagonizou foi dos momentos mais aclamados da noite. Gritos e batimentos acelerados de milhares de corações acompanharam a proeza.

    A arena estava bem suada por esta altura e Dee nem conseguiu descansar os braços. Logo a seguir os Scorpions atacaram 'Big City Nights' e só voltaram a acalmar com 'Still Loving You' do álbum que os consagrou em meados dos anos oitenta, "Love at First Sting". "Continuamos a amar-te, Lisboa", disse Klaus. A última balada da noite foi uma autêntica ferroada (em bom) nos corações de quem estava no amplo espaço lisboeta. Debaixo de uma chuvada de palmas e depois de um final acústico da canção, Klaus gaba o público que, como disse, nunca desapontou nas muitas vindas do grupo a Portugal. 

    O vocalista histórico ergue o punho, bate palmas e sorri. Antes de sair do palco o grupo segura uma bandeira com uma inscrição que foi buscar à plateia. Lê-se no pano: "Scorpions, obrigado por estes 60 anos". Entretanto, enquanto todos se preparam para sair, Dee vai preparando o encore, puxando pelas vozes do público antes de "abandoná-lo".

    Momentos depois, um escorpião gigante ergue-se no palco com os olhos trancados na plateia. A banda retorna ao palco em passo de corrida para o alto calibre de 'Blackout' e para o final com a ventania de 'Rock You Like a Hurricane'.

    A despedida, como já dissemos, foi demorada (contámos pelo menos três minutos) com a tradicional distribuição de palhetas e baquetas, gestos de franco agradecimento por parte de todos os músicos e um aplauso quase interminável vindo da gratidão dos fãs.