David Byrne com grande andamento no Cooljazz
Muito se caminhou e dançou em palco, num espetáculo de topo.
David Byrne entra no recinto do Cooljazz não de limousine (o clichê batido do rocker) ou numa carrinha de vidros escuros, mas sim a pedalar de bicicleta, visível a todos. Esta fuga às convenções é também verificável no conceito do seu espetáculo, em que os instrumentos não se fixam no palco. E o modo ecologista como se transporta encaixa nas mensagens em defesa do ambiente que pontuam o concerto dado nesta noite no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais.
O espetáculo atual de David Byrne, “Who Is the Sky?”, assenta num ensemble ambulante de 13 músicos, segundo o mesmo conceito do espetáculo “American Utopia”. E 11 dos 18 temas tocados são músicas dos Talking Heads, que se mantêm hoje como o legado mais magnético da obra de David Byrne.
A poucos minutos do início do espetáculo, David Byrne, em discurso gravado, dá alguns conselhos sobre coisas a não fazer e a fazer. A fazer, Byrne recomenda que se dance. Vai passando o álbum de música contemporânea “Question of Angles” de Angèle David-Guillou, enquanto uma roadie alisa o chão do palco com uma esfregona. A erudição de Angèle David-Guillou liga-se à versão 2026 do clássico dos Talking Heads, 'Heaven', em que David Byrne surge de microfone de lapela, camisa e calças azuis tal como os seus 3 músicos. Esta versão tem um acompanhamento sensível de cordas e uma intimidade mais harmoniosa do que qualquer outra versão jamais ouvida de Heaven. Num espetáculo que se provará tão sincronizado entre os 13 performers, nota-se já uma dessincronização entre o que David Byrne canta - “A place where nothing, nothing ever happens” - e o que está a acontecer. O sítio onde nada acontece é no céu, não na Terra e, muito menos, na terra em que estamos.
À segunda música, 'Everybody Laughs', começa a passeata festiva do seu ensemble ambulante, em que o conjunto se agrega como se fosse um só bicho, uma espécie de centopeia mais humana, e em que música e dança se agilizam como um par de ballet. A interpretação de ‘And She Was’, dos Talking Heads, permite-nos apreciar esta orgânica de andarilhos que não se atropelam e que conhecem muito bem o seu trajeto. Noutro tema dos Talking Heads, 'Houses in Motion', David Byrne e um grupo de cinco dançarinos ocupam o centro do palco e os instrumentistas encostam-se atrás, num momento que se repetirá várias vezes, no meio daquele frenesi. “I'm walking a line, just barely enough to be living”, canta Byrne. Seguem uma linha, sim, mas estão bem mais vivinhos da silva do que a personagem da letra.
No início do concerto, David Byrne tinha apontado para a imagem do Planeta Terra no ecrã - “este é o único que temos”. 20 minutos depois, o músico nova-iorquino levanta a questão ambiental novamente, através da música dos Talking Heads, ‘Nothing but Flowers’. “There was a shopping mall / Now it's all covered with flowers”... É um dos temas mais ecologistas dos Talking Heads, numa paródia irónica que reverte a cronologia da poluição crescente. Agora, as auto-estradas foram sacrificadas em nome da agricultura e o mundo está muito mais verde e com menos betão. Neste aviso irónico sobre o planeta Terra, brota o som da guitarrinha africana, enquanto que os músicos exultam em coro “You Got It”.
Ouvem-se depois os sons de teclados galvanizadores de 'This Must Be the Place (Naive Melody)', Talking Heads. Esta é a forma peculiar de David Byrne escrever uma canção de amor. Mas Byrne já não dança com um candeeiro de sala como acontecia no filme-concerto dos Talking Heads, “Stop Making Sense”. O público, esse, já está todo de pé.
David Byrne cita depois um conhecido seu, que diz que “o amor e a simpatia são hoje as coisas mais punk que se podem fazer”, antes de cantar apropriadamente o seu tema a solo 'What Is the Reason for It?',
em que o cantor continua de arco, a atirar para o coração, embrenhando-se nas contradições do mais nobre sentimento humano: “Love is war, love is peace”.
Nos intervalos entre as músicas, David Byrne gosta de tomar a palavra com o auxílio de imagens, como se fosse um conferencista multimédia. Quando passam no ecrã imagens dos prédios de Itália com vizinhas a cantar durante a pandemia, Byrne enquadra que esse momento foi registado no dia da conquista da liberdade e da derrota do fascismo em Itália, precisamente a 25 de Abril, o nosso dia de liberdade. Foi esse o mote para tocarem ‘When We Are Singing’, com uma grande batucada com um círculo de músicos à volta.
As luzes e as imagens do ecrã impõem-se pela sua simplicidade. E apesar de toda a modernidade à volta deste espetáculo, há também a intemporalidade da folk no concerto de David Byrne, que se evidencia em 'Independence Day', através das voltas e reviravoltas do violino e das passadas rítmicas, como se estivéssemos a ver um rancho folclórico norte-americano.
Na canção dos Talking Heads, 'Slippery People', o lume está cada vez menos brando. É uma interpretação coletiva funkamente boa, com os quatro percussionistas a moverem-se para a frente. O trovejar de batidas continua a rematar o tema. Em ‘Air’, estamos perante um delírio hipocondríaco ou a dura constatação da ameaça crescente à vida humana das alterações ambientais. Esta é outra canção ecologista, mas mais literal e sem ironias, sobre a poluição, de tal forma que respirar provoca dor. Há em Cascais uma camada vocal feminina forte que tenta chegar à fasquia imposta pela baixista Tina Weymouth e as suas duas irmãs na gravação deste tema de 1979.
O público estremece quando reconhece estarmos a ouvir ‘Psycho Killer’, dos Talking Heads. David Byrne parece um tipo do Quebeque a cantar tanto em inglês, como em francês. O cantor coloca-se dentro da mente de um psicopata, no tema que lançou os Talking Heads no meio da revolução da new wave e do pós-punk. A nova variável de 2026 são os coros mais afirmativos, algo que não existia antes, nesta algazarra azulada, com cada músico a fazer o seu brilharete.
Em 'Life During Wartime' - “Heard about Houston? Heard about Detroit? Heard about Pittsburgh, P.A.? You oughta know not to stand by the window” - estamos na distopia. E é isso que Byrne nos mostra no ecrã do palco, com imagens da repressão policial atual nos Estados Unidos. Muito dançavam eles em passo de corrida no documentário “Stop Making Sense”, até à corrida final à volta do palco por Byrne. O tema volta a inspirar nova corrida desenfreada em palco neste espetáculo, a diferença é que os braços agora dançam mais.
Depois de mais um clássico dos Talking Heads, 'Once in a Lifetime', e da interpretação à volta de uma lâmpada de ‘Everybody's Coming to My House’, a casa vai abaixo. Em 'Burning Down the House', as chamas estão descontroladas e David Byrne não pára de lançar acendalhas, já não é só foneticamente que Byrne se confunde com Burn. A metralhadora de batuques do final do concerto é mais pirotecnia rítmica para os nossos ouvidos.
David Byrne entrou no recinto a pedalar. Em palco, caminhou muito, ele e os seus 12 acompanhantes. Foi, e de forma flagrante, um espetáculo de grande andamento, um dos melhores do ano.
