DocLisboa: a verdade em grande plano até dia 26

    Festival de cinema arranca nesta quinta-feira.

    Arranca hoje mais uma edição do festival de cinema DocLisboa, dedicado ao cinema documental de todo o mundo. O festival decorre até dia 26 nas salas da Culturgest, São Jorge, Cinema Ideal ou da Cinemateca, no centro da capital.

    Liga-se o radar sobre o que se passa no mundo, com singulares ângulos, evitando as recorrentes superficialidades e as leis de rebanho informativo de muita abundância e pouca diferença que atormentam os canais televisivos noticiosos. E diferença é o que não falta à forte programação do DocLisboa, com banhos de realismo, da rua às gavetas dos arquivos superiormente vasculhados.

    Há ainda uma secção à parte e muito querida pelo público, o Heartbeat, em que chamam a atenção os documentários sobre Jeff Buckley, David Lynch, os Culture Club e Boy George, Luciano Berio, o encenador e dramaturgo Robert Wilson e ainda o cineasta David Lynch.

    Em entrevista, o diretor do DocLisboa, Hélder Beja, faz o resumo dos pontos altos da edição deste ano.
      
    Começo por desafiar-te a falar dos pontos altos desta edição. 
    Desde logo, a presença forte do cinema português na programação.  Temos uma programação portuguesa com 12 filmes, dos quais não vou falar em detalhe porque é uma competição e temos sempre que ter cuidados de não privilegiar um filme em relação a outro. Mas fora de competição, temos imensos filmes importantes. Posso destacar alguns, como o “Pele Nómada” de João Fiadeiro e da Aline Belfort; “Estava Escuro na Barriga do Lobo”, de Joana Botelho; o Diogo Varela da Silva também regressa ao festival com “Soco a Soco”, um filme sobre um boxer retirado, o Orlando Jesus, mas que foi bastante conhecido no seu tempo em Lisboa. Depois há filmes do Pedro Florêncio [“Pescadores de Bubaque”], [“Aurora”] do João Vieira Torres e da Leonor Noivo [“Bulakna”]. Enfim, estamos muito contentes por ter este grupo de cineastas e de filmes no Festival.  

    Há que falar da nossa competição internacional, onde continuamos a fazer um grande esforço para termos o maior número possível de estreias mundiais e internacionais. O DocLisboa é um festival em Portugal que, por tradição, também tem a sua competição internacional com filmes que, pela primeira vez, vão ao encontro do seu público. Este ano isso volta a acontecer e temos nessa secção filmes um pouco de todo o mundo, desde o Líbano ao Brasil, vários países europeus, ou a Argentina. O Heartbeat é uma secção também muito querida do público do festival e onde, este ano, voltamos a ter filmes de grandes nomes, das artes e da música em particular, filmes sobre Madonna, Boy George, Jeff Buckley, filmes sobre David Lynch, que nos deixou há pouco tempo, uma homenagem também ao [encenador e dramaturgo] Robert Wilson. Portanto, eu diria que estes podem ser alguns dos pontos altos da programação. Há também filmes de Werner Herzog [“Ghost Elephants”] e de Lucrecia Martel [“Nuestra Tierra”], na [secção] Da Terra à Lua.  

    Sentes alguma tendência nos documentários em competição de algum tema, de algum assunto?
    Não, eu acho que não há um assunto ou um tema muito particular que se destaque. O DocLisboa há muito tempo que largou o documentário convencional como o único modelo de filme que programa e, portanto, nas próprias competições é possível encontrar filmes que vão bem para lá da forma documental mais habitual. Há muitas ficções do real e documentários híbridos. E, portanto, em termos de temática, não, eu diria que são filmes que tentam pensar o mundo e sobre o mundo e que trazem para a tela questões prementes do nosso quotidiano. Há uma curiosidade na competição, que são filmes que são eles próprios sobre cinema. Na competição internacional, temos dois filmes: um filme que chega da Jordânia chamado “Cinema Kawakeb” [realizado por Mahmoud Massad], de que fala de um cinema que está em crise e que está prestes a fechar e onde estes homens vivem o seu quotidiano.  E há outro filme que se liga muito a esse, que é o filme "La noche está marchándose ya” [realizado por Ezequiel Salinas e Ramiro Sonzini], é argentino, e que é a história também de um cinema em Buenos Aires, uma questão também ligada ao momento atual da Argentina, que acaba por servir de abrigo a pessoas que vivem nas ruas depois de fechar. Não quero dizer que é a crise do cinema que está espelhada na competição mas acho que é mais a crise dos nossos dias. Mas também [há] a solidariedade e esperança.   

    Por que razão escolheram para sessões de abertura e de encerramento “With Hasan in Gaza”, de Kamal Aljafari e “A Árvore do Conhecimento”, de Eugene Green?
    Quando surgiu a possibilidade de abrir o festival com o “With Hasan in Gaza”, de Kamal Aljafari, foi bastante evidente que fazia sentido, desde logo porque, cinematograficamente, gostámos bastante do filme. É um filme que é uma espécie de road movie do começo deste século, com imagens de arquivos feitas por Kamal quando regressou a Gaza para tentar reencontrar um homem com que havia estado preso, mas que se transforma noutra coisa, se transforma numa viagem por esses territórios com este condutor, este motorista que o leva por Gaza. É um filme - num momento em que vemos uma Gaza destruída e o povo a ser dizimado - que está cheio de vida, não de morte, e tinha essa mensagem também que, além dos méritos cinematográficos, nos parecia importante. Portanto, abrir o festival com o Kamal Aljafari, é abrir o festival com um bom filme, mas também abrir o festival com um filme que não de uma Gaza destroçada, mas de uma Gaza onde a vida existe de uma forma plena, embora difícil. Portanto, foi por aí que fomos e acreditamos que a 16 de outubro, o São Jorge possa estar cheio com mais de 800 pessoas a celebrar o cinema e também a celebrar a luta do povo palestiniano e de todos os povos que lutam pela sua existência. 

    Depois, a fechar, temos um filme completamente diferente. Não queríamos também que o filme de encerramento fosse um filme com uma carga tão pesada quanto o filme que escolhemos para abertura. E fomos surpreendidos por este gesto de efabulação, da Eugene Green, que regressa a Portugal, depois de também já ter feito cá alguns filmes, com a “Árvore do Conhecimento”, com um leque de atores portugueses muito importante, para contar uma história que também é bastante crítica sobre uma Lisboa assolada pelo turismo, onde os turistas começam a ser transformados em animais por este homem que tem este poder especial. Portanto, é um filme muito surpreendente, achamos que também tem esse tom e energia certas para encerrar o festival.  

    Hélder Beja

    Marca muito a programação a retrospetiva muito grande da obra do William Greaves. Porquê esta aposta?
    Todos os anos o festival tenta sempre dar a descobrir um cineasta ou uma cineasta pouco conhecido do público português e até do ponto de vista internacional também tem essa relevância de apresentar um programa diferente e único e foi isso que conseguimos fazer este ano.  O William Greaves é um cineasta afro-americano bastante desconhecido não só em Portugal mas na Europa. Esta é a maior retrospetiva alguma vez feita da sua obra fora dos Estados Unidos e mesmo nos Estados Unidos da América nunca houve grandes programas que juntassem todos os seus filmes. Sabemos que no próximo ano celebrar-se-á o centenário do nascimento do William Greaves e haverá uma série de atividades, mas a verdade é que ainda não tinham acontecido e nós nem sabíamos dessa programação para outros festivais e outras casas de cultura. Para a homenagem à obra de Greaves, começámos a pensar e a preparar esta possibilidade. Tivemos um grande apoio também da família. A filha e a neta de William Greaves estarão também aqui no festival connosco. E, obviamente, contamos com a Cinemateca Portuguesa, sempre nossa terceira, ao longo destes últimos anos, nas retrospetivas. O trabalho de Greaves é um trabalho marcado pelas lutas raciais, por toda a questão social, que atravessou várias décadas da história dos Estados Unidos e movimentos dos quais ele fez parte. Mas, além disso, é também um cineasta da vanguarda, que se notabilizou pelo cinema experimental, pelo metacinema, por trabalhar muito com as suas equipas para fazer filmes dentro dos filmes. E é também, por isso, uma obra muito surpreendente e muito contemporânea. Achamos que vai ser uma bela descoberta e mostramos um bocadinho de todas estas facetas dele. Ele também foi ator e também vamos mostrar alguns filmes dele enquanto ator. Ele também foi compositor de música, escreveu muitas letras para canções nos seus primeiros anos de trabalho. É um homem da Renascença, com imensos talentos. E estando cá também a filha e a neta para falar dele, acho que vai ser um momento especial. 

    Hélder Beja

    Temos aqui um regresso de um documentarista que também é conhecido pela ficção, o Werner Herzog. Já esteve na programação do DocLisboa várias vezes. E agora está de volta com o “Ghost Elephants”. 
    Temos sempre tentado mostrar os filmes de Herzog há alguns anos, é um cineasta bastante querido, não só do festival, mas do público português e um dos grandes artistas do nosso tempo, na minha opinião. Aqui, basicamente, Herzog segue um pouco as pegadas deste explorador chamado Steve Boyes, que parte com três mestres rastreadores da Namíbia em busca destes raros elefantes fantasmas de Angola. É quase uma aventura à “Moby Dick” na procura da grande baleia. E, portanto, acompanhamos esta missão por territórios africanos em que se vai também refletindo sobre questões ambientais, culturais, sobre a presença europeia naquele continente. Acho que é um filme que vai encher as salas do festival e espero que sim porque eu acho que o Werner Herzog está na sua melhor forma.  

    Hélder Beja

    Aprofundando mais a secção do Heartbeat, há aqui documentários que já eram muito esperados há algum tempo e vocês vão tê-los aqui em estreia nacional, como o caso do Jeff Buckley. Temos ainda um curioso documentário sobre a Madonna. Mas o Heartbeat não é só sobre música.
    É uma secção dedicada às artes e nós vamos a todo o lado, mesmo na música. Por exemplo, temos um programa bastante especial de homenagem ao Luciano Berio, que é um compositor italiano, sobre quem vão ser assinalados os 100 anos do seu nascimento.  E, portanto, até nesse aspeto da música vamos também à clássica, não nos ficamos apenas pela pop e pela música indie. Todos os anos, tentamos ir à procura desses filmes para o Heartbeat, é muito estimulante. A verdade é que se produzem tantas obras a cada ano sobre as gentes da cultura que andar de festival em festival, de distribuidor em distribuidor, de produtor em produtor, é perceber o que se fez e aquilo que vale a pena trazer para o público português é sempre muito excitante. Este ano acho que é uma grande colheita. Conseguimos trazer não só filmes que retratam a obra de grandes nomes, mas também outras coisas mais de nicho, mais pequenas, que eu acho que vão surpreender as pessoas.  O Heartbeat nos últimos anos transformou-se de facto numa das secções mais queridas do público do DocLisboa. 

    Hélder Beja

    Nos últimos dias, antes mesmo de fecharmos a programação,  conseguimos confirmar o “Megadoc”, sobre o [filme] “Megalopolis” de Francis Ford Coppola. É um documentário em que acompanhamos o trabalho do grande mestre a fazer o seu último filme. É um documentário da autoria do Mike Figgis, também um bom realizador, Temos um filme muito especial, que chega de Itália chamado “Bobò”,  de Pippo Delbono, sobre um ator muito particular com quem este grande cineasta italiano trabalhou muitos anos.  
    Temos também o “Cast of Shadows”, um documentário sobre o [documentarista] Flaherty. Portanto, estamos aqui a viajar aos primórdios do cinema, com um descendente do Flaherty, [o bisneto] Sami van Ingen, a assinar este filme.
    Ainda também temos, por exemplo, o “Strange Journey: The Story of Rocky Horror”, do Linus O'Brien. É para um público muito particular também, mas eu acho que ainda no Heartbeat há de facto coisas para todos os gostos.  

    Hélder, dos muitos filmes que estiveste a ver, qual é aquele que me recomendarias a mim, por exemplo, ou a outra pessoa? Um filme que não está tão óbvio e que sabes que é muito bom.
    Eu vou recomendar um filme português, do qual ainda não falei e recomendo pelo momento particular que vivemos. Vou recomendar “As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura”. É um filme do Luís Goberno Lopes, um documento que vale muito mais por aquilo que nos traz do ponto de vista histórico e informativo, a memória, do que pelas suas pretensões artísticas, que tem muito poucas. É um filme que vamos passar em estreia mundial, que foi mostrado uma ou duas vezes, em sessões privadas mas que não tinha tido qualquer projeção pública. É um filme que nos relembra e leva de volta a um lugar duro da nossa história, às últimas décadas da ditadura portuguesa e ao modo como um grupo de homens e mulheres arriscaram a sua vida e puseram tudo em causa para poder defender uma sociedade mais justa, mais humanista, mais equalitária e, acima de tudo, nunca esquecendo essa coisa que parece um pouco esquecida nos dias de hoje que é a empatia e a capacidade de olhar para o outro e de nos pormos no lugar dele. Portanto, este filme vai passar no cinema São Jorge, vai ser uma grande sessão e uma grande celebração da luta contra os regimes opressores.  

    Hélder Beja

    Podem consultar neste link a programação completa do DocLisboa. Os bilhetes custam 5 euros.