EDP Vilar de Mouros: há um homem da noite e é Brett Anderson dos Suede
O festival minhoto acontece até sábado em Caminha. Amanhã os Simple Minds são os cabeças de cartaz.
Erga-se um brinde à primeira noite do histórico EDP Vilar de Mouros, que, no ano passado, celebrou um honroso marco existencial - o meio século. Aliás, que sejam dois brindes. Um brinde ao 50º aniversário do festival mais antigo da Península Ibérica e outro ao retorno da vida ao recinto minhoto depois da pausa forçada em 2020 e 2021. A organização espera 60 mil pessoas ao longo dos três dias. A primeira noite esteve composta, sendo que a maior enchente, à frente do palco, foi para os britânicos Placebo. Os também britânicos Suede, que subiram ao palco à uma da manhã, ficaram a braços com os resistentes (que ainda eram muitos). O batalhão da resistência foi compensado com um concertão da banda inglesa.
As portas do festival abriram às 17h00, ainda debaixo do sol quente minhoto. Do campismo e das sossegadas margens do Rio Coura ao recinto é um pulo. As pessoas fazem a curta viagem com vagar de férias, muitas delas com as bandas preferidas ao peito, exibidas, com orgulho, nas t-shirts - um clássico de Vilar de Mouros. Desde Black Sabbath a Pearl Jam ou Pink Floyd, são evocadas uma série de bandas nas fardas festivaleiras.
Com os Placebo e os Suede lado a lado no cartaz, o mergulho sónico foi profundo nas águas revivalistas da britpop, mesclada com o glam ou o rock alternativo, andrógeno, que palpitava na Grã-Bretanha quando, do outro lado do Atlântico, o grunge ainda lidava com a morte do homem que o iconizava, Kurt Cobain. O rock experimental dos norte-americanos Battles ou o industrial do mais solitário Gary Numan aqueceram o público.
Os algarvios The Black Teddys inauguraram o palco para os primeiros que chegaram ao recinto.
Os Placebo já conhecem uma data de salas e recintos portugueses. Estão acostumados a passar por cá e nós habituados a vê-los - desde a passagem pelo poeirento Sudoeste, em 98, à bem mais recente celebração dos 20 anos da edição do primeiro disco, o que aconteceu em 2017. Os anos passam e a eletricidade fica. A vontade de palmilhar a estrada também, embora esta digressão esteja a ser uma um tanto ou quanto intermitente, com alguns cancelamentos pelo meio. Em Vilar de Mouros houve concerto e começou pouco depois das onze da noite.
A banda britânica picou alguns discos mais old school, mas o recente Never Let Me Go - editado em março de 2022 - foi o que sobressaiu no alinhamento - opção arriscadada em ambiente de festival e que acabou por esmorecer o público - à exceção do core da linha da frente, os fãs, que claramente tem ouvido o álbum. O novo disco, que meteu a banda londrina outra vez no estúdio quase dez anos depois do lançamento de Loud Like Love, ainda fervilha na bagagem de Brian Molko e Stefan Olsdal - a dupla sobrevivente - e hoje era importante mostrá-lo. Never Let Me Go é também o registo que foi gravado sem o baterista Steve Forrest, que saiu da banda em 2015.
O instrumental de Forever Chemicals - a primeira a representar o disco mais recente - abriu o concerto e evidenciou a robustez de Never Let Me Go. Beautiful James - mais uma do novo trabalho - soltou-se a seguir, com Stefan Olsdal a puxar pelas palmas e Brian Molko, de cabelo pelos ombros e bigode, a soltar o primeiro "obrigado" e a bater palminhas como o companheiro de estrada.
Scene of the Crime - passagem por Loud Like Love - e Happy Birthday in the Sky - outra vez de de Never Let Me Go - antecederam Bionic, que foi resgatada do disco de estreia homónimo de 1996. A malha, que nos sugou para os primórdios da banda, foi-se desenrolando à nossa frente, ao mesmo tempo que Brian Molko ora se chegava mais à frente para saudar, à sua maneira, o público, ora esbracejava para dar indicações aos técnicos para melhorarem o som que, por vezes, parecia desequilibrado.
Surrounded by Spies, One of a Kind, Sad White Reggae, Try Better Next Time, Too Many Friends ou Went Missing ouviram-se depois e, lá pelo meio, uma estreia ao vivo: o tema Chemtrails.
A pulsação acelerada de For What It's Worth - do disco Battle for the Sun - arrebitou quem estava mais longe do núcleo de fãs. O mesmo efeito teve The Bitter End. Slave to the Wage e Infra-red antecederam o final.
O fim foi com o hipnótico, e nas mãos dos Placebo algo fantasmagórico Running Up That Hill (A Deal With God) - de Kate Bush - que foi ganhando asas na voz particular de Molko e atenção que os Placebo reavivaram o tema de 84 muito antes da série Stranger Things, da Netflix. É o tema que os Placebo guardam para as despedidas e hoje a tradição manteve-se.
Se o disco mais recente dos Placebo fervilha nas mãos dos fãs e anda a ser experimentado no palco, o dos Suede - Autofiction - está a apurar. Só o vamos saborear a 16 de setembro, mas soa a promissor. O frontman Brett Anderson diz que é o mais pessoal até agora.
Cerca de 30 anos depois da génese dos Suede, Autofiction parece que vai chegar com a "pica" e "energia natural" do começo - quando eram putos no estúdio. Como afiançou Anderson em comunicado sobre o álbum, é o "disco punk" da banda, que chega "sem apitos ou sinos. Só os cinco, numa sala, com as falhas e confusões destapadas. É a banda exposta, na confusão típica do início. Autofiction tem uma frescura natural. É o lugar onde queremos estar". Excelente catarse que, na intenção, hoje foi transposta para o palco.
She Still Leads Me On foi a amostra do ainda misterioso álbum e a primeira do alinhamento que os Suede quiseram levar para o recinto minhoto. A partir daí, ouviu-se uma sucessão de canções reclamadas dos discos mais antigos, que o esguio Brett Anderson continua a interpretar em estado de graça. Sobe para cima dos monitores, rodopia o fio do microfone, mistura-se com o público, canta ouvido de quem encontra pelo caminho e "rouba" telemóveis alheios para captar os momentos. Foi o showman da noite. Teve o público na mão do início ao fim do concerto.
Jovial, conversador, elegante nos movimentos, Anderson mantém a forma e a vitalidade artística na forma como entrega o corpo às canções. Energético, frenético e glamouroso, soltou a voz como ninguém neste primeiro dia de festival. "Pica" foi o que não lhe faltou. Nem aos Suede no geral. Trash, She e Animal Nitrate, por esta altura Brett Anderson já suava em bica, foram servidas a seguir. We Are Pigs meteu o frontman inglês de joelhos, como que a exorcizar algo. Filmstar, Tides, The Drowners, It Starts and Ends With You, Can't Get Enough, Everything Will Flow foram distribuídas a seguir, com a mesma energia, e o hit radiofónico She's in Fashion foi desmontado e transformado numa simples beleza acústica que fez do amplo recinto uma sala intimista e acolhedora. Metal Mickey e o muito saudado Beautiful Ones antecederam o encore. New Generation, do disco Dog Man Star, fechou o alinhamento. "Vamos voltar. Podemos voltar?", perguntou Anderson que teve um rasgado "yeahhh" como resposta imediata.
Nestes tempos estranhos, em que a realidade e a distopia parecem cruzar-se com frequência, o inglês Gary Numan subiu ao palco de Vilar de Mouros e transformou-o. Acompanhado por quatro músicos, ladeado por dois homens esguios e vestidos com longas saias escuras, o músico, cujo olhar parecia querer trespassar o público, entrou em cena com Intruder, uma das faixas do disco que editou em 2021. A negritude da canção, que encetou o alinhamento, adensou a atmosfera do recinto, depois dos norte-americanos Battles.
O "androide" Numan, vestido de tons acinzentados e com traços vermelhos carregados na face, chegou com o álbum mais recente, que também se chama Intruder, para "amaldiçoar" os humanos que insistem em destruir o planeta. Disserta liricamente do ponto de vista da Terra. O músico, tido como um dos pioneiros da eletrónica e homem cujas deambulações criativas influenciaram bandas como os Nine Inch Nails ou artistas como Lady Gaga, entregou-se ao papel de figura mitológica de um submundo mais negro que emergiu por momentos no verde Minho, desfazendo por vezes a figura com sorrisos breves.
Aos temas mais recentes, como Is This World Not Enough, The Gift ou The Chosen, Numan adicionou ao set uma boa dose de canções que construíram a narrativa de 45 anos de carreira: Halo, Love Hurt Bleed, Metal, Cars, Pure, A Prayer for the Unborn e My Name Is Ruin.
O final foi ao som de Are Friends Electric, resgatado do disco Replicas - o segundo e último álbum dos Tubeway Army que Gary Numan liderou no final da década de setenta. A reminiscência pós-punk fechou o concerto.




















































































