Eros Ramazzotti na MEO Arena: uma história feliz em que todos foram protagonistas

    Todos protagonistas. Eros, os músicos, a equipa do músico e os fãs.

    Eros Ramazzotti regressou esta noite para os braços dos fãs que tem em Portugal, sendo que a última passagem do italiano pela ampla sala lisboeta foi em 2023. 

    Desta vez, o músico visitou-nos com a "Una Storia Importante Tour", a digressão que "abriga" o álbum que editou em 2025 e no qual reconstruiu uma série de canções que marcaram o percurso discográfico que o distingue, algumas das quais com convidados de alto gabarito, desde Alicia  Keys a Andrea Bocelli. 

    'Una Storia Importante' foi também a canção que Eros Ramazzotti cantou quando, em meados dos anos oitenta, pisou pela segunda vez o palco do histórico Festival italiano de Sanremo. A preciosidade dos arquivos artísticos do artista, agora com 62 anos, dá também nome à digressão que, por uma noite, “devolveu” o músico ao público português. O circuito, que fez escala em Lisboa, passa por 30 países da Europa, América do Norte e América Latina. A noite em Lisboa fechou a fatia europeia. 

    A motivação para cantar, sem que a voz lhe doa, permanece em Eros. E a alegria juvenil quando dá a voz às canções também. A MEO Arena encheu para ouvi-lo cantar sobre a nobreza de amar, mas houve mais do que isso. Escutámos canções românticas, é certo e inevitável, mas também testemunhámos momentos pontuais de reflexão sobre, por exemplo, o exercício de viver, o de recordar ou o de sonhar. 

    Ao longo do concerto, Ramazzotti foi saltitando de disco em disco, como se cada canção fosse um capítulo da história artística que nos veio contar. Deu, claro, espaço natural às pérolas radiofónicas que se acomodaram, com lugar cativo, na memória coletiva de gente do mundo inteiro, gente essa que esta noite esteve representada por uma amostra de milhares que ocuparam a sala lisboeta. Não faltaram as canções que todos na arena sabiam de cor. Em muitos momentos, as vozes alinharam-se na perfeição mesmo com o italiano, por vezes deliciosamente desalinhado.  

    Às nove da noite em ponto, as movimentações na sala indicavam que o concerto estava prestes a começar. 
    O palco, que formava metade de um círculo com as extremidades próximas das cadeiras da frente, já fazia antever que a palavra "proximidade" seria uma das que poderiam, com toda a certeza, entrar neste relato do concerto. 

    Antes de Eros Ramazzotti entrar no palco para, inevitavelmente, se posicionar no centro das atenções, os músicos e os quatro elementos dos coros já tinham assumido as respetivas posições. No palco contámos dois postos de percussão, um posto de teclas, uma secção de sopros, um belo naipe de guitarras, baixo, três vozes femininas e uma outra masculina nos coros. Silêncio depois para escutar uma voz que sobressaiu na atmosfera da arena para oferecer bons conselhos sobre a experiência de viver.

    É então que, depois deste momento, o aguardado artista italiano entra em palco. Chega vestido de preto e de óculos de sol, para, de imediato, entregar a voz - ainda firme e que lhe é tão própria - às canções.

    Ainda com um look clássico, do qual se foi desfazendo ao longo do concerto, a genica invadiu, sem pedir licença, o corpo de Eros em ‘Taxi Story’, a primeira do alinhamento. Em 'Quanto Amore Sei', saudou Lisboa pela primeira vez, pedindo palmas, enquanto passeava pelo palco ou arriscava nos movimentos de dança. 

    Poucos segundos depois do som do saxofone se evidenciar no início de ‘Un cuore con le ali’, Eros mergulhou nos braços dos sortudos que conseguiram as posições nas filas da frente. O músico gosta de nadar nas águas do afeto dos fãs. Energético e vivaço, sorri, canta para eles, saúda-os.

    Já de volta ao palco, momento de pausa para lhes dirigir algumas palavras. O cantor italiano agradece a todos em português e recomenda a quem ali está: “boa música e uma boa vida”. 

    Mais à frente, desata-se do alinhamento o clássico ‘Un'Emozione Per Sempre’. Eros aponta para o público, escuta-o e aponta o microfone para a ampla arena, como se quisesse dividir o protagonismo com todos. E dividir o protagonismo é característica que lhe parece estar no sangue. Fá-lo constantemente com os músicos que o acompanham. Nota-se que os admira e sempre que pode dá-lhes espaço e foco, com uma atitude vincada de respeito.

    A balada ‘I Belong to You (Il ritmo della passione)’ veio depois com uma das vozes femininas do coro a substituir a cantora Anastacia com quem Eros Ramazzotti gravou a canção em 2005 para o álbum “Calma Apparente”. Um interlúdio com o som de cordas antecipou 'Stella Gemella'. Foi durante esse instante clássico que os quatro elementos dos coros se sentaram alinhados no palco. Eros cantou a canção de guitarra nos braços sem, mais uma vez, tirar o protagonismo às proezas dos músicos que manuseavam os restantes instrumentos no palco. 

    ‘Adesso Tu’, canção em que o músico lembra o exercício de superação tendo em conta a infância que viveu nos subúrbios menos privilegiados de Roma, veio a seguir, com uma reflexão inicial exposta no ecrã. Eros lembra como a periferia, as raízes e o passado mais longínquo o edificaram. Canta depois ‘Una storia importante’ em cima da língua de palco, por esta altura bordada com uma luz dourada, vindo o brilho final da secção de sopros. 

    A emotiva 'Più che puoi', a canção que outrora Eros Ramazzotti partilhou com Cher, foi esta noite cantada em dueto com uma das vozes femininas. A dupla acabou a canção, de mão dada, numa das pontas do palco, com o público a aplaudir a ternura do momento.

    A atmosfera adensou-se depois com a intenção dos instrumentos para criar o momento que a veio a seguir. 'Dove C'è Musica' devolveu Eros aos braços do público para mais um “banho” de afeto e troca de cumplicidades. Em ‘La luce buona delle stelle’ o músico voltou a dar a mão a uma das cantoras para mais um dueto. 

    Com uma espécie de "via láctea" dourada atrás no ecrã a balada 'Se Bastasse una Canzone', do disco "In ogni senso", transportou-nos, por momentos, para um mundo melhor, bem mais unido e empático. "Se bastasse uma bela canção para falar de paz", canta Ramazzotti desde o final dos anos 80. Hoje voltou a fazê-lo, décadas depois, agora com as luzes dos telemóveis a substituir os velhos isqueiros que, noutros tempos, se levantavam nestas ocasiões. Mudam os pontos de luz, mantém-se o clássico e a pertinência de cantá-lo em nome da paz.

    ‘Musica è’ começa ao piano com Eros no centro do palco entre feixes de luz cruzados. Foi o momento mais dramatizado da noite. O resto dos instrumentos foram-se juntando, enquanto o cantor avançava para a frente de palco “debaixo” de uma trovoada de impor respeito lá atrás que depois foi substituída por explosões efervescente de lava. Eros concentra toda a força na voz que se entrelaça com a intensidade dos coros. No final, o homem da noite abre os braços para agradecer a todos e retira-se do palco, dando o espaço ao brilho dos restantes músicos.  

    Do alinhamento saltaram cerca de vinte canções, entre as quais a muito aguardada 'Un'Altra Te' que o italiano cantou com a guitarra acústica nos braços, fazendo uma reprise imediata com um twist que recordou Bob Marley, ao fazer uma versão acústica de ‘No Woman No Cry’.

    Mais um grito por Lisboa e energia no pico no arranque de 'Un attimo di pace'. Às tantas, Eros grita, “levanta-te, Lisboa”, volta a trocar cumplicidades com os músicos e em 'Terra promessa' salta para o posto da percussão, disputando, de improviso, brilharetes com o homem do saxofone. 'Fuego en el fuego' ferve a arena. A plateia dança, como Eros pediu, e a alegria solta-se, sem vergonhas, pela sala.  

    A absolutamente incontornável 'Cosas de la vida' foi cantada em uníssono por todos na arena, com a bandeira portuguesa no final a esvoaçar no grande ecrã.  

    'Un angelo disteso al sole', já no momento do encore, foi escutado Eros Ramazzotti sozinho no palco. Agora bem mais informal, com uma t-shirt jovial e um boné, o músico ofereceu a preciosidade acústica antes de "se atirar" para o grande final..

    “Obrigado, Lisboa!”, exclamou, agradecendo e apresentando todos os músicos que por esta altura já tinham voltado ao palco. 

    A ode romântica 'Più Bella Cosa', extraída dos anos 90, arrebatou a arena e acelerou ainda mais os corações. O final foi com o batimento cardíaco saudável da música, do amor e da vida que Eros Ramazzotti veio celebrar, mais uma vez, connosco.