Franz Ferdinand: Alexander, o Grande

    Coolrock no Cooljazz, com os arquiduques do indie-rock a imprimirem energia espevitada no recinto de Cascais. Alex Kapranos foi um showman.

    A realeza estrangeira voltou a Cascais, à Riviera portuguesa onde viveram em tempos o Rei Humberto II de Itália, a família espanhola Bourbon ou a Grã-Duquesa Carlota do Luxemburgo. Mas esta é outra realeza e estes são outros arquiduques, os Franz Ferdinand, da realeza do indie-rock, no Cooljazz, que hoje foi mais Coolrock, como se perceberá já nas próximas linhas.

    Os Franz Ferdinand quebram logo as ortodoxias da corte, instigando uma imediata invasão popular no tema de abertura ‘The Dark of the Matinée’. Aquele rock desfaz uma sociedade de classes aos primeiros acordes e todos ficam de pé. As cadeiras passam a estar a mais. Começam logo sem cerimónias os riffs contagiantes. Alex Kapranos fala em bom português: “nós somos os Franz Ferdinand”. E foi logo direito ao assunto: “pensávamos que íamos tocar para um público cordial e sentado de jazz, foi ótimo ter sentido logo toda esta energia a vir na nossa direção”. 

    A seguir, ‘No You Girls’ é rock com o pé na pista de dança, mas sem beats, só batidas das mãos humanas de Audrey Tait. ‘Build It Up’ é liricamente uma tentativa de superação de um bloqueio conjugal, os tais silêncios incómodos. A canção é um pouco mais comedida, mas o público está irreversivelmente de pé, já não há forma de o sentar. A superação agora é bater palmas. É o que o público fez. Não há silêncios no Cooljazz nesta noite, só na letra de ‘Build It Up’.

    Os Franz Ferdinand estão por sua conta, num concerto em nome próprio, sem pressas festivaleiras. Em gestão de corrida, de passada mais leve, e a resguardarem-se para um futuro ataque veloz final, tocam 40', com Alex novamente em bom português a pedir “mais alto” ao público português, num momento de lalala’’s

    A noite está fria em Cascais, mas não no palco do Hipódromo Manuel Possolo, onde as temperaturas sobem com ‘Walk Away’, com Kapranos na pele de um orgulhoso cônjuge que vê a sua amada afastar-se, fingindo que celebra a saída lacrimosa dela: “I cannot stand to see those eyes/As apologies may rise/I must be strong, stay an unbeliever”. Alex dá um dos saltos característicos, Julian Corrie desliza os dedos pelos teclados com exuberância e o público está cada vez mais empolgado. ‘Do You Want To’ é mais uma explosão de riffs, o que é mesmo que dizer no caso dos Franz Ferdinand, uma explosão de alegria. “Do do do do do do”, repetem todos, num gaguejo bem musical, apanhando a boleia do verbo “do”.

    Em ‘Night or Day’, Alex larga a guitarra e é toda uma largada dele próprio ao palco, a ajoelhar-se, aos saltos ou a fazer a coreografia de palmas com o público. Em ‘Evil Eye’, os pés insistem em dançar, enquanto que dos teclados de Julian Corrie saem uns efeitos de filmes de sci-fi, num rock arrebitado de boa disposição, mesmo que os versos que saem da boca de Kapranos sejam sarcásticos. Já na canção ‘Ulysses’, a coordenada está na letra: “let's get high, high". O pico é, cá está, o refrão, um fogo-de-artifício de boas vibrações.

    Chegados a ‘Hooked’, o mundo digital vem ao de cima, enquanto que o Hôtel du Nord é uma referência geográfica desta aventura romântica dos Arquiduques escoceses. Alex continua solto da guitarra, tão solto que quase que faz um moondance, enquanto a banda se converte numa discoteca e o festival corre o risco de se tornar no coolrave. Dancemos, então. Quando Alex Kapranos salta para para a plataforma da bateria, já se sabe que vai preparar das boas. A música ‘Michael’ é das boas, com uma virilidade muito punk. Os Franz Ferdinand fazem então uma pose estática, uma espécie de Mannequin Challenge, e esticam todos os braços no ar, mas os fotógrafos já não estão lá e é uma pena. Naquele pára-arranca que prova a salubridade da engrenagem sonora do quinteto de Glasgow, aquela guitarra do Alex está mesmo dinamitada para a festa.

    Alex volta a subir à plataforma da bateria e coloca o sapato em cima do bombo em ‘Love Illumination’, o teclista Julian Corrie faz outro brilharete e a definição de synth-punk impõe-se, caros amigos. Na imagem, há um pouco de iconografia de hard-rock na forma como Alex Kapranos e o guitarrista Dino Bardot se encostam um ao outro como bons camaradas. Surge então ‘Take Me Out’, um dos temas carismáticos da cruzada de renascimento do rock & roll do início do milénio. Os amigos de Alex dão saltos sincronizados, um batalhão de guitarras é convocado e as vozes do público alistam-se para o refrão. ‘Outsiders’ é o tema final. Alex estica os braços como um homem da hipnose, enquanto que o cientista dos teclados continua na loucura varrida do sci-fi. É a primeira vez que os velozes Franz Ferdinand se alongam nalguma coisa e o tema ganha a duração de uma música de Dire Straits. Nada contra!

    A paragem é curta. Vem aí o esperado encore, com ‘Audacious’, num rock clássico que nos faz parecer que, de repente e por absurdo, estamos num concerto de Queen. Nem sequer falta um condutor de massas ao estilo de Freddie Mercury, Alex Kapranos é o homem, a coordenar a ondulação de braços no ar. Alexandre, o Grande, tomou parte do mundo, de Atenas à Pérsia; Alexander, o Grande, tomou o palco de Cascais de uma ponta a outra.

    Fora do alinhamento e tocado para satisfazer um pedido de alguém nas filas da frente, os Franz Ferdinand tocam impecavelmente ‘Stand on the Horizon’. Em ‘Darts of Pleasure’, Alex faz o gesto da ventoinha a tocar guitarra ao estilo de Pete Townshend dos Who.

    Alex Kapranos faz depois a apresentação da banda, no momento de lançamento da célebre música ‘This Fire’. “This fire is out of control/I'm going to burn this city”... a letra é levada a sério pelo público ao rubro. Em palco, as coisas não estão muito mais calmas. Há algumas deambulações instrumentais e alguns passeios em palco para dar ainda mais magia ao momento. “Para baixo”, Alex manda baixar toda a gente em bom português. O truque é um lança-chamas gigante para a explosão de emoções da multidão. Alex dá três saltos e eleva a guitarra no ar. Se o imperador Nero mandou incendiar Roma, os arquiduques Franz Ferdinand deixam a vila de Cascais em labaredas, mas num fogo que só arde nas nossas almas. O concerto foi real…mente bom. Que imperadores!

    Os Bombazine fizeram a primeira parte. Declararam-se fãs dos Franz Ferdinand e agradeceram a honra de poderem tocar naquele palco três anos depois de terem lançado o EP de estreia. Os Bombazine tinham muito para dar a nível de argumentos musicais. Com um equilíbrio instrumental muito similar aos Franz Ferdinand, um quinteto de guitarras, teclas e bateria, os Bombazine apostavam mais na elegância e na subtileza, pincelando com numerosos detalhes instrumentais as suas canções. Os sons dos teclados são cósmicos, as dedadas de baixo deixam rasto pesado, as guitarras dançam funk e a bateria a tudo responde. Já a forma de cantar, lembra o estilo de Luís Gravato dos Radar Kadafi.