Um português na Gronelândia: onde o próximo barco com comida só chega em junho
O próximo navio com mercadorias só chega à ilha daqui a cinco meses.
A cerca de dois meses de partir para a Gronelândia, em mais uma aventura, Tiago Costa falou com a nossa redação sobre o território autónomo dinamarquês, que os Estados Unidos querem anexar. O guia de montanha, que leva pequenos grupos a conhecer os fiordes da Gronelândia, explica a ligação dos habitantes com a natureza, da qual necessitam para sobreviver. Tiago Costa descreve um lugar remoto onde o que consideramos básico é um vislumbre em apenas algumas alturas do ano – o último barco com produtos frescos chegou à Gronelândia em novembro do ano passado, o próximo só chega em junho.
Tem viajado muito para a Gronelândia?
Tenho viajado para a Gronelândia aproximadamente nos últimos sete ou oito anos, dentro do meu trabalho como guia de montanha na NOMAD. Primeiro viajei pela costa oeste (onde está a capital), que é a zona mais povoada, e atualmente nós operamos exclusivamente na costa este (a menos povoada).
Ao conhecer as duas costas vê-se que há uma grande diferença entre a capital e depois todo o país. A capital é uma pequena cidade onde está centralizado tudo o que são os serviços mais importantes. No resto do país, estamos a falar de vilas de mil habitantes, no máximo - e depois muitas aldeias com cinquenta, cem, duzentas pessoas. E isso também explica muito a cultura e a forma de vida da Gronelândia, que anda muito à volta da subsistência, da resiliência e da dependência muito direta com o meio natural e com os recursos.
Algo que lhe tenha chamado mais à atenção?
Já tive a oportunidade de viajar um bocado por todo o mundo e de levar grupos desde a Patagónia, aos Himalaias, ao Alasca, e a Gronelândia é verdadeiramente aquilo que nós imaginamos como um local remoto. É aquele sítio onde o ser humano vive completamente isolado e de uma forma totalmente autossuficiente, e com uma dinâmica ambiental e climatérica muito acentuada. Nesta altura, todos os fiordes estão congelados e as pessoas deslocam-se, em trenós de cães e motos de neve, por cima dos fiordes. No verão, voltam a estar abertos e as pessoas navegam pelos fiordes. A relação com a natureza é muito real. E isto molda muito a forma como se vive o território, como se habita o território, e que eu acho que é chave para a relação da Gronelândia com a Dinamarca e agora nesta situação com os Estados Unidos.
Como é que se vive no território?
O abastecimento da ilha é feito essencialmente por via marítima. Há uma comparação meia esquisita que nós podemos fazer em Portugal, que é comparar com os Açores.
Quando o barco chega ao Corvo, ou a São Jorge, existem nos supermercados vegetais, frutas e iogurtes e, se o barco não chega, não há nada disto. Na Gronelândia, durante o verão, quando o barco consegue ir mensalmente à ilha, podemos ir ao supermercado e encontrar alguns legumes, iogurtes e fruta que vem de fora - a um preço exorbitante.
Na costa este, há uma grande aldeia, que tem mil habitantes (em tudo o resto são povoações de 200 ou 300 pessoas), à qual o último barco vai aproximadamente em novembro. Depois, até junho, não há barcos a entrar. Então aqui entra muito a visão de subsistência, não há agricultura - por causa do terreno, e pratica-se muito a caça, às focas, baleias e ursos polares.
Qual é a sua próxima viagem à Gronelândia?
Temos uma viagem de inverno em abril que já está esgotada e em que acompanhamos ao longo de uma semana quatro caçadores inuit. Vamos viver com eles durante uma semana, vamos de aldeia em aldeia, caçar para o meio dos fiordes.
O que é que poderá acontecer se os Estados Unidos conseguirem a anexação do território?
Durante a Segunda Guerra Mundial a Gronelândia teve muitas bases militares norte-americanas porque, tal como os Açores, era um ponto de passagem do Atlântico. A ocupação militar da Gronelândia não é um tema, porque sempre existiu ocupação militar e existem acordos com a Dinamarca. Já se estiver em causa a utilização de recursos naturais, aí tudo será muito mais complexo e aí eu antevejo que não seja visto com muitos bons olhos alguém chegar lá e usurpar aquilo que para eles é o maior tesouro.
