Iron Maiden: míticas sombras no Inferno da Luz

    Exercício de história sobre guerras, lendas, literatura, cinema e, claro, sobre a própria banda fundada por Steve Harris

    Uma mancha negra de fãs de Iron Maiden toma as carruagens de metro e basicamente todas as vias públicas em direção à catedral da Luz, o centro de peregrinação. Parecia o ambiente de um grande jogo do Benfica, mas a cor dominante era o preto. Os cânticos de ‘Fear of the Dark’ vão sendo ensaiados, enquanto se comem bifanas e se bebem cervejas juntos às roulottes. Há grupos gigantes de amigos, alguns núcleos de motards. Sente-se uma alegria juvenil que se renova, por mais concertos dos Iron Maiden se vejam, por mais quilos que a idade acumule no corpo. A sede renova-se dia-a-dia, torna-se insaciável, sobretudo quando se tratam de lendas da música que se veneram quase uma vida inteira. Enquanto houver mais um concerto, haverá mais uma invasão de gente de várias parte do país, de várias comunidades de imigrantes e de várias partes do mundo. O ambiente à volta do concerto dos Iron Maiden parece o de um grande evento internacional, uma espécie de jornadas mundiais de metaleiros.

    Mal passava das 19h00 e já se notava algum nervoso miudinho e uma certa pressa para se entrar no Estádio da Luz. O motivo não era para menos: o concerto de abertura pelos históricos Anthrax. Mas a banda toca a uma hora vespertina em que o público é ainda uma entidade em formação e em que as muitas escadarias do estádio são impressionantes formigueiros humanos em tráfego, sempre na direção do relvado coberto por uma superfície artificial. Há mais clareiras de luz onde o sol consegue penetrar do que “clareiras” na multidão. O motor sonoro dos Anthrax está ligado e mais parece um íman, a atrair mais e mais multidão a si. O vocalista Joey Belladona, guiado pelo apelido artístico de cantor lírico, tem ímpetos vocais operáticos que inflamam ainda mais o som do rolo compressor

    Tocam o tema novo ‘Keep It to the Family’ - do próximo álbum “Cursum Perficio”, que sai em setembro - como um brinde para a malta. Depois de mais uma varridela, com ‘Anti-social’, chegou o momento mais esperado, ‘Indians’, mais um tema do álbum “Among The Living”, que os tornou gigantes do thrash..Apesar da densidade asfixiante no meio da multidão, o tema tem força para abrir uma pequena cratera, um comboio humano descontrolado, como uma broca de um berbequim a rodar freneticamente. Não se livraram de uma grande ovação, antes de saírem, depois de 50 minutos de atuação. 

    Já quando passava das 21h00, ei-los, os desejados Iron Maiden, que arrancam o concerto de mais de duas horas com a música ‘Murders in the Rue Morgue’, do álbum “Killers”, sobre uma aventura a monte, por causa de um assassinato, baseado no conto de Edgar Allan Poe. Paris surge no ecrã e no crime da letra. O pé dos Maiden está a fundo no acelerador da máquina do tempo, com travagem brusca em 1981. Por lá continuam em ‘Wrathchild’. Tocam este tema desde quase que se conhecem. Os Iron Maiden não sabem dar um concerto sem o tocarem. A música é sobre filhos da ira, num tema irado, num frenesi da personagem contra si mesma: “I'm never gonna stop searching/I'm gonna find my man, gonna travel around”. Tanta ira sobra para o som, uma nova ensaboadela com uma resistência ao tempo de salubridade vampiresca. ‘Wrathchild’ é o primeiro grito de guerra em uníssono do público. Bruce Dickinson, de rabo de cavalo, mostra uma voz impecável, parece dotado de vitaminas contra o envelhecimento, ou sob as graças de algum curandeiro.

    Terceiro tema, ‘Killers’: a descrição do homicídio sanguinário é mais gráfica que ‘Murders in the Rue Morgue’. “The glimmer of metal/My moment is ready to strike/The death call arises”. A malha transparece as garras de uma banda a fazer história no heavy metal, nos tempos de Paul Di'Anno [o vocalista antecessor de Bruce Dickinson]. Abre-se depois a cortina virtual e surge uma sala de ópera no ecrã. Entra em cena ‘Phantom of the Opera’, do disco de estreia homónimo de 1980, fundamental para a definição da New wave of British heavy metal. A música está outra vez no encalço do horrífico: “I know that you're gonna
    Scratch me and maim me and maul”. O tema não se verga a nenhum fim e vai-se metamorfoseando em várias fases, com o rufar pesadão da bateria e a armada de solos de guitarra. Épico é talvez a palavra mais ajustada. Se forem duas palavras, essência metaleira, pronto.

    Com ‘The Number of the Beast’, o espetáculo entra finalmente na era histórica de Bruce Dickinson. Os Iron Maiden são possuídos pelo demónio, invocando o código ritual do tal 666. Soltam-se as primeiras labaredas em palco. “6 6 6 The Number of the Beast” é mais um grito de guerra que sintoniza dezenas de milhares de vozes na Luz, enquanto a cinemateca dos Iron Maiden prossegue a projeção de filmes a preto-e-branco apropriados a cada canção. As coisas não acalmam, com ‘Infinite Dreams’. As noites de insónias nunca conduzem a nada de bom. Lá está o raio do inferno para atormentar consciências. Quanto à interpretação, os Iron Maiden são incansáveis na sua exuberância de grandeza sonora. Solos à grande, ribombar de bateria à grande e projeção vocal à grande. Repita-se então a tal palavra: épico.

    Os Iron Maiden não desprendem dos seus ciclos dourados. Os fãs agradecem. A banda inglesa investe agora em ‘Powerslave’. A mitologia é agora do Antigo Egito, mas o calor vem do mesmo sítio, aquele caldeirão gigante para onde os grandes pecadores são atirados, com pena perpétua. “But open the gates of my hell/I'll strike from the grave”. É o inferno da Luz. A máscara de Bruce está em forma de chama. No ecrã surge a geometria das pirâmides, sempre com umas caveiras lá pelo meio e umas tochas abaixo a velar. Mas a chama está com a banda, vivinha da silva. Segue-se ‘2 Minutes to Midnight’. Agora os demónios são os senhores da guerra, e mesmo da guerra nuclear: ““Two minutes to midnight/To kill the unborn in the womb”. Os fãs erguem os braços sempre que surge o refrão que dá o título. Há quem arrisque o equilíbrio precário de um copo de cerveja ao alto, enquanto os guitarristas correm o palco, como nos melhores clichês do metal. A coisa está viva.

    Bruce Dickinson faz menção ao vinho do Porto e depois ao navegador Vasco da Gama, como quem está a tirar as amarras para lançar 
    ‘Rime of the Ancient Mariner’. Baseado no escrito de Coleridge, os Iron Maiden recriam um épico marítimo numa odisseia instrumental quase da duração das epopeias - vá, um pouco menos.. E lá foram eles por este rio acima com muito fausto. Poderia ser Colerige ou, quem sabe, Fernão Mendes Pinto (se Dickinson o conhecesse), ao fim e ao cabo das tormentas. O rock progressivo faz ainda uns chamamentos, o Adamastor também, e Bruce Dickinson está um anjo de asas negras, na sua capa. Run to the Hills versa sobre sobre homens ruins e bárbaros a violarem e violentarem em território novo. O público canta o tema calorosamente, com o baterista Simon Dawson a puxar por todos os seus canhões de guerra, como quem levanta pesos. ‘Seventh Son of a Seventh Son’ é uma visão bíblica sobre o homem eleito de poderes milagrosos. Um tom mais celeste surge nos ecrãs, numa canção que termina quase num canto xamânico. Não é, mas anda lá perto.

    The Trooper incide nos horrores da guerra e na paranóia da Guerra Fria, hoje novamente atual. Cuidado com os russos. Hasteia-se a bandeira da Grã-Bretanha e depois a de Portugal. Não a da Rússia, claro. Russos, não. Eles são os vilões em ‘The Trooper’.

    Com as luzes baixas, a arena do estádio parece coberta de velas como no parque mariano de Fátima em Hallowed Be Thy Name, mas são só telemóveis erguidos. Bruce canta dentro de uma jaula numa das elevações do palco. Já o piso 0 do palco é dos homens das guitarras e do baixo, enquanto o baterista está isolado numa caixa acrílica. Um bonito efeito visual forma-se no ecrã: uma subida iluminada por tochas. Para o fecho, é tocado ‘Iron Maiden’, com o monstro por cima da banda a ganhar uma força tridimensional no ecrã.

    No encore, vêm mais memórias de guerra, desta vez na II Guerra Mundial, em ‘Aces High’, com discurso de Churchill à nação britânica. Em Fear of the Dark, Bruce Dickinson começa a interpretação junto à lua cheia do ecrã, com a sombra da silhueta da sua figura e com uma lamparina e um chapéu de cartola. Parece um cenário de um musical. Mais o tema progride, mais crescem os coros do público do Estádio da Luz, que podiam dar os mais longos cânticos futebolísticos. ‘Wasted Years’ simboliza a última apoteose para a conclusão eloquente.