John Watts à m80: "atuar em Portugal é um pouco como voltar a casa, vai ser caloroso e espontâneo"

    As entrevistas que o homem do leme dos Fischer-Z deu às locutoras Ana Moreira e Vanda Miranda. A banda atua a 4 e 5 de setembro em Portugal.

    Os ingleses Fischer-Z regressam esta semana a Portugal para a celebração dos 50 anos de carreira. A banda de John Watts atua a 4 de setembro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e a 5 de setembro na Casa da Música, no Porto. 

    Além da festa do 50º aniversário, o projeto com John Watts ao leme traz "X-Ray Serenade" - o álbum que vai editar a 4 de setembro precisamente no dia do concerto em Lisboa. O regresso à capital tem um cariz simbólico uma vez que foi precisamente no Coliseu dos Recreios, em novembro de 1980, que os Fischer-Z atuaram pela primeira vez em Portugal. 

    ENTREVISTA QUE JOHN WATTS DEU A ANA MOREIRA EM MARÇO 

    Entrevista completa a Ana Moreira

    50 anos de Fischer-Z

    Sinto-me ótimo. Para mim isto não é apenas sobre rock ‘n’ roll. Sempre fui visto como um artista. Também escrevo peças, por exemplo. Quero fazer coisas com as quais posso expressar-me. E 50 anos é muito tempo. Mas lá está. É o que faço. Criar canções é algo que faz parte de mim.

    Aprendi muito. A situação mundial atual é tão estranha. Estou realmente interessado em História. Diria que, se não estivesse a fazer o que faço, estaria a ensinar História. É absolutamente fascinante. Apesar de o mundo poder ser um lugar terrível, ao mesmo tempo, acho que é incrivelmente fascinante. Creio que para sermos artistas temos de achar tudo fascinante: o bom, o mau e o que está entre os dois. 

    A experiência de vida no caminho de John Watts

    Acho que, no âmago, as pessoas não mudam. Apenas aprendem sobre elas próprias. O facto de haver um maior autoconhecimento não significa propriamente que tenhamos mudado, mas pode mudar a interação que temos com o mundo. Eu era muito energético, andava sempre "a voar". Toda a gente achava que quando eu tinha 25 anos usava constantemente drogas, mas não era nada disso que acontecia. O que mais valorizo é o meu entusiasmo e a minha energia. Tenho 71 anos e ainda sinto o mesmo entusiasmo que sentia antes. Tenho amigos, muito mais ricos que eu, que gostam de continuar a tradição dos anos 80, com público dessa época. Eu gosto da ideia continuarmos com o público que tínhamos, mas também apelando [a outras idades]. A idade média do nosso público é de cerca de 47 anos. Alguns ainda nem tinham nascido quando estava a gravar discos. 

    Primeiro concerto em Portugal (em 1980 no Coliseu dos Recreios)

    Foi incrível ver o entusiasmo, o tipo de pessoas e todas as emoções. Foi maravilhoso. De todos os países que visitámos na Europa, o entusiasmo em Portugal foi o mais empolgante. Amei.

    Sente-se em casa em Portugal?

    Sim. Definitivamente. Fiz muitos bons amigos em Portugal. E também tive um grande acidente em Portugal, o que teve um forte impacto em mim. Quase me afoguei em Portugal. Fui arrastado pelo mar. Vieram helicópteros e tudo. Amo Portugal. E uma das minhas filhas vive no Porto.


    O que gosta mais em Portugal 

    Acho que é a atitude em relação à vida, especialmente em Lisboa que é uma cidade metropolitana muito movimentada. É um pouco diferente. O que me surpreende é a capacidade que o povo português tem para manter a sua cultura. Quando vou ao Porto sinto que há uma identidade muito forte que não se difunde para o federalismo europeu.

    Os concertos nos Coliseus 

    Este ano, temos pessoas novas. Há elementos novos na banda. É muito entusiasmante. O que andamos a fazer é tocar os clássicos dos anos 80, claro, mas os Fischer-Z não são apenas um projeto dos anos 80. Fiz 25 álbuns e há muitas coisas diferentes. Tocamos os clássicos que todos conhecem e fazemos isso do coração. Ainda toco as canções nas quais acredito. Mas há muitos outros capítulos. Por isso, acho que os concertos são empolgantes. Tocamos o que as pessoas querem ouvir mas também mostramos o que foi acontecendo nos últimos 50 anos. (…)

    A nossa atuação é espontânea. Os concertos de hoje em dia são muito computorizados e organizados. O que fazemos é algo muito espontâneo. Os meus heróis são pessoas como o Andy Warhol e os poetas da geração Beat. Não é rock ‘n’ roll fixo. É a ideia de um artista que é espontâneo. Tenho heróis do movimento Dadá. É daí que venho. Nós funcionamos como uma banda de jazz. Numa banda de jazz, o homem do piano toca e o resto da banda segue-o. Na minha banda, eu faço o que tenho a fazer e a banda acompanha-me. E depois depende do público. Cada concerto é único. Adoro isso. Nós reagimos à forma como o público reage e temos em conta onde estamos a atuar. 

    Atuar em Portugal será um pouco como voltar a casa. Vai ser um concerto caloroso e espontâneo. Será uma mistura de várias partes para chegar ao público. (…) Tentamos interagir com o público de forma que o público faça parte do concerto. (…) Os concertos são para interagir com as pessoas e falar sobre música, amor, política. É uma grande interação pessoal. É um privilégio. 

    EM AGOSTO JOHN WATTS VISITOU A M80 E CONVERSOU COM A VANDA MIRANDA 

    Já mais perto do regresso a Portugal, John Watts esteve no estúdio da M80 à conversa com a Vanda Miranda. Pelo meio, o músico ainda tocou dois temas: 'Perfect' (canção do álbum mais recente) e 'So Long' (êxito dos anos 80 indispensável nos alinhamentos dos Fischer-Z).


    A conversa passou por diversos tópicos: os concertos agendados para esta semana em Portugal, gastronomia portuguesa, o balanço dos 50 anos de vida artística e, claro, o novo álbum – intitulado "X-Ray Serenade" – com edição agendada para 4 de setembro, o dia em que o projeto de John Watts regressa ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

    Entrevista completa

    Sobre o novo álbum, "X-Ray Serenade" 

    O disco está dividido em duas partes. A primeira parte é composta por sete canções originais, as quais toco a maior parte. São canções sobre a observação de pessoas e também há algum conteúdo político. Coisas sobre as quais costumo escrever. A segunda parte do álbum, o outro lado de um vinil se quisermos pensar assim, são quatro canções reimaginadas. Como estamos a celebrar o 50º aniversário, as canções foram recriadas de formas diferentes. Não fazia sentido tocá-las como nas gravações originais. E depois existe uma faixa extra. É um “maxi single” separado. Chama-se 'X-Ray Serenade' mas não está no disco. É um poema com 600 palavras em cima de beats. É algo completamente diferente. Esse single resumo tudo o que sinto sobre música e o que sinto sobre o mundo em 2026. O título aponta para a ideia de um raio-x. Estou a olhar também para o que fizemos antes.


    É um poema com 600 palavras em cima de beats. É algo completamente diferente. Esse single resumo tudo o que sinto sobre música e o que sinto sobre o mundo em 2026. O título aponta para a ideia de um raio-x. Estou a olhar também para o que fizemos antes.