Jota.pê: "a arte é uma fotografia de uma época"
O músico brasileiro atua no festival Ageas Cooljazz, em Cascais, a 17 de julho.
O artista brasileiro Jota.pê está confirmado no festival Ageas Cooljazz, em Cascais, a 17 de julho, no mesmo dia em que os também brasileiros Gilsons atuam no Hipódromo Manuel Possolo. A passagem por Portugal está incluída na digressão europeia que arranca em Barcelona (Espanha) a 13 de julho, passando ainda por Paris (França) ou Londres (Inglaterra).
Para a estreia no festival português o músico de São Paulo leva "Se Meu Peito Fosse Mundo" - o álbum que editou em março de 2024 e com o qual conquistou três Grammys Latinos: Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro-Portuguesa, Melhor Álbum de Engenharia de Gravação e Melhor Canção em Língua Portuguesa com o tema 'Ouro Marrom'.
Com o disco, produzido por Felipe Vassão, Rodrigo Lemos e Marcus Preto, Jota.pê alcançou mais de 2,5 milhões de streams na plataforma Spotify em 2024.
Com uma carreira que soma 10 anos, Jota.pê editou o álbum de estreia, "Crónicas de um Sonhador", em 2015. Seis anos depois, em 2021, lançou "Garoa" - EP, composto por quatro faixas, que conta revisitar no festival de Cascais. No trilho musical que caminha, que como diz é feito "com amor e carinho", o cantautor e guitarrista partilha ainda espaço criativo com a cantora Bruna Black no duo ÀVUÀ - um projeto que foi nomeado para os Grammys Latinos em 2021 com o álbum "Onze".
Recentemente, o artista paulista cruzou-se com a portuguesa Teresinha Landeiro (e com o fado) para uma nova versão de 'Visita Inesperada', canção que a fadista editou em 2024 com o álbum "Para Dançar e Para Chorar".
Proponho começarmos pelo teu álbum mais recente e pelo título que lhe deste. "Se o Meu Peito Fosse Mundo" é um título que pode guardar muitas emoções para quem o interpreta e seguramente para ti. A escolha deste nome deve-se a quê?
Quando comecei a trabalhar no álbum tinha muito presente que queria criá-lo da melhor forma possível. Queria que traduzisse o meu momento artístico. Queria que refletisse os meus pensamentos e os meus desejos quer a nível musical como a nível pessoal. Acabei por ir buscar o título à canção 'Garoa'. Há uma parte da letra que diz: "faz de conta/que teu peito agora é o mundo/e nele lá no fundo/qual é tua questão?" Escolhi o título [do álbum] antes de começar a compor as canções. Acho que ter um título como "Se o Meu Peito Fosse Mundo" abre espaço a muitas histórias. Pensei nas muitas histórias que teria para contar ou o que teria para dizer, caso o meu peito fosse o mundo.
Primeiro lançaste um EP (com quatro canções) e só depois é que editaste o álbum com mais dez faixas. Porquê esta opção?
Acho que teve a ver com o momento da minha carreira. Embora este ano celebre dez anos de carreira, o facto de ter tantos concertos e conseguir esgotar salas é uma realidade relativamente recente. As coisas só começaram a acontecer há cerca de três anos e meio. A opção de ter feito primeiro o EP tem a ver, sobretudo, com o tempo e com a disponibilidade financeira. Gosto muito do "Garoa". Gravei-o no estúdio The House Audio, que era o estúdio onde eu estava trabalhar na altura e que trabalhava com publicidade. Ao mesmo tempo que ajudava a cuidar do estúdio também compunha músicas para campanhas. O que aconteceu foi que o produtor e dono do estúdio, o Lucas Mayer, deixou-me gravar lá as minhas músicas. Foi assim que gerei o "Garoa". Foi só a partir daí que as coisas começaram a melhorar e que acabei por assinar com uma editora. Quando isso aconteceu comecei a pensar em gravar um álbum completo.
Presumo que tenhas mais tempo agora para te dedicares à tua música. Como é que te sentes com isso?
Estou muito feliz. Aqui no Brasil é difícil trabalhar com arte e com a cultura. As coisas foram acontecendo aos poucos. Agora, sim, tenho editora, uma banda incrível e um manager que cuida da minha carreira. Além disso, este ano vou fazer a quarta digressão pela Europa. Ver tudo isto a acontecer deixa-me feliz. Ver o meu álbum ser reconhecido com três Grammys provoca-me uma grande sensação de felicidade. Agora, quando olho para tudo o que aconteceu, vejo que valeu a pena insistir num sonho. E estou a falar de um sonho que muita gente dizia ser impossível.
Gostas muito de falar de sonhos. Li numa entrevista que deste recentemente que o disco com o qual foste reconhecido com os Grammys é o "álbum da tua vida". O que é que esse reconhecimento significa para ti?
Digo que o "Se o Meu Peito Fosse Mundo" é o álbum da minha vida porque foi o primeiro para o qual tive realmente tempo. Foi feito com calma. Consegui ter tempo para escolher cada um dos profissionais que participam no álbum, desde os músicos aos produtores. Até a escolha do lugar da gravação foi importante. É um álbum que foi feito com muito carinho. Não só por mim mas por todas as pessoas que estiveram envolvidas no processo. Conseguimos juntar uma equipa de profissionais incrível. Juntámo-nos numa fazenda (que também é um estúdio) em São Paulo e estivemos lá durante uma semana e meia a gravar. Foi uma boa oportunidade para nos conhecermos melhor. Interagimos, rimos. Além de gerarmos o álbum, criámos muitas amizades. Demo-nos todos muito bem. O processo de construção do disco foi muito bonito. Foi bonito pelas relações humanas que construímos. Ganhar os Grammys depois desta experiência comunitária significa que vale a pena fazer as coisas com tempo e carinho e ao lado de pessoas que admiramos e de quem gostamos. E as amizades que se criaram transparecem no disco. Fico muito feliz com isso. Percebi que vale a pena estar na música da forma como eu acredito, com carinho e amor.
Também és um artista com consciência social. O que é que te inquieta no mundo hoje em dia?
Quando analisamos o estado do mundo com mais atenção percebemos que as coisas podiam estar muito melhor do que estão atualmente. Refiro-me a questões sociais, políticas e económicas. Acho que qualquer pessoa que tenha o mínimo de sensibilidade fica triste com o que está a acontecer. Fica triste por saber que as pessoas não têm as mesmas oportunidades ou que há gente que não tem comida para pôr em cima da mesa. Fica triste por saber que há pessoas que são tratadas de maneira diferente só pela aparência que têm. Como artista acho importante que essas inquietações estejam refletidas nas minhas músicas. Tal como disse um dia a Nina Simone: "o dever de um artista é o de refletir o seu tempo". É o que fica gravado na História. A arte funciona como um registo histórico. É uma fotografia de uma época. É importante que os artistas registem a época tal como ela é, para que daqui a uns anos possamos avaliar o que mudou e o que, eventualmente, possa ter melhorado. O importante agora é refletir sobre o que precisamos de fazer para conseguirmos melhorar. É importante que estas questões estejam presentes na arte que fazemos. Nem que seja de vez em quando.
A canção 'Ouro Marrom', por exemplo, fala sobre o racismo. Quão importante é este tema para ti?
É o mais importante. Quem somos é o que determina a forma como reagimos ao mundo e como o mundo reage a nós. O facto de ser um homem negro altera as oportunidades que tenho e a forma como as pessoas se relacionam (ou não) comigo. Altera a forma como o mundo me vê. Isso também me muda e faz com que eu reaja ao mundo de forma diferente. Tenho isso em comum com outras pessoas negras. É necessário registar essa sensação. Registar o que eu, enquanto indivíduo, faço com aquilo que estou a sentir. Independentemente de ser um homem negro, sou um indivíduo. Tenho características que são diferentes de traços de outras pessoas da minha cor. Acho importante que isso fique registado numa canção. É importante para que outras pessoas, negras ou não, sintam o que quis dizer e reajam ao que escutaram. Embora façamos sempre parte de um grupo, é importante salvaguardamos a nossa individualidade para que, a partir daí, possamos gerar pensamentos. É importante registarmos as experiências pessoais que temos enquanto indivíduos.
Há pouco falavas da importância de se insistir no sonho. Sendo que começaste a carreira com um disco chamado "Crónicas de um Sonhador", pergunto: o que é para ti um sonhador? Enquanto artista e enquanto ser humano...
Ser um sonhador é o que me move. Ter esperança é o que me faz escrever música. É acreditar que as coisas podem melhorar. É isso que me move. É o que me faz continuar a trabalhar. É o que me faz acordar de manhã com um sorriso. O escritor brasileiro Ariano Suassuna dizia que se considerava "um realista esperançoso" e não apenas um sonhador. E eu gosto dessa frase. Para sonharmos e para conseguirmos que as coisas mudem temos de avaliar o mundo tal e qual como o mundo é. Temos de entender as coisas boas e as coisas más que acontecem. É só a partir dessa altura que podemos ter esperança e que nos devemos mover para fazer com que as coisas aconteçam. Ser um sonhador com os pés no chão significa conseguir olhar para a realidade com os olhos do agora e depois ter força para criar algo melhor. Força para mudar o que precisa de mudar e para manter o que precisa de ser mantido.
Quão gratificante é para ti saber que podes inspirar alguém a sonhar?
É muito bonito mas, por outro lado, é um pouco estranho. (risos) Componho as minhas canções com aquilo que faz sentido para mim, com o que estou a sentir. E por isso ainda acho um pouco estranho, ao mesmo tempo que acho bonito, que as outras pessoas se identifiquem tanto e que levem as canções para as suas vidas. É estranho quando vemos algo tão pessoal a fazer sentido para outras pessoas. E é bonito também. Componho sobre o que estou a sentir. Muitas vezes, componho quando estou sozinho, de madrugada e no escuro. Ver pessoas que não conheço a emocionarem-se com o que escrevi e a encaixarem o que compus na vida delas é uma experiência de aproximação. É como se pudesse ser amigo dessas pessoas. Acho isso muito bonito.
Recentemente, colaboraste com a Teresinha Landeiro numa nova versão do tema 'Visita Inesperada'. Como é que surgiu esta colaboração?
Aconteceu de uma forma muito inesperada. (risos) Conheço o fado português, mas não de uma forma muito aprofundada. Agora é que estou a aprofundar mais os meus conhecimentos sobre o fado. Conheci-o através da Carminho mas também sigo outros artistas do género. Conheci a Teresinha porque partilhamos a mesma gravadora. Quando me sugeriram fazer a colaboração com a Teresinha fui ouvi-la e apaixonei-me. É uma cantora absurdamente incrível. E foi algo inesperado. Por mais que eu conheça o fado e que goste de ouvir fado nunca me imaginei a cantá-lo. Achei muito divertido poder fazer algo que nunca tinha feito e ao lado de uma artista maravilhosa. Fui a Portugal para gravar a canção e descobri que a Teresinha, além de ser uma grande artista, é uma ótima pessoa. É gente boa e muito divertida. A gravação do tema e do videoclipe foram experiências muito bonitas. Foi um marco para mim. Foi a minha primeira parceria internacional. Foi muito bonito poder cantar um fado com ela, até porque Portugal é um país muito especial para mim. Foi onde dei o meu primeiro concerto fora do Brasil. Vivi momentos maravilhosos quando atuei em Lisboa, no Porto, em Ovar e por aí. E tenho amigos maravilhosos aí.
Há mais algum artista português com quem gostasses de trabalhar?
Há outros artistas que sigo e que admiro bastante. Não são todos portugueses mas são artistas que vivem em Portugal, como é o caso da Mayra Andrade com quem já cantei. É uma pessoa maravilhosa. É uma amiga que amo muito. Também já compus com o Dino D’Santiago, mais tarde ou mais cedo vai sair uma parceria. Tive o prazer de conhecer o Salvador Sobral aqui em São Paulo, quando ele veio atuar cá. Há vários artistas portugueses ou que vivem em Portugal com quem imagino gravar no futuro. Seria um prazer.
O que é que estás a preparar para a atuação no Ageas Cooljazz?
Estou muito empolgado com esse espetáculo. Amo tocar em Portugal. É a primeira vez que vou tocar em Cascais e num festival na Europa com o meu trabalho a solo. Vou com a minha banda, que é a banda que gravou este último disco. E também vai ser a primeira vez que vou com esta formação para a Europa. Estou muito animado. O Cooljazz é um festival muito bacano. Vai o Seal, o Benjamin Clementine e mais um monte de artistas que eu amo. Vou tocar temas do álbum "Se o meu Peito Fosse o Mundo" e do EP Garoa. Estou muito empolgado.
E atuas no mesmo dia dos Gilsons com quem já colaboraste. Como é que surgiu a colaboração para o 'Feito a Maré'?
Eu amo esses meninos. Conheci primeiro o José Gil através do Instagram. Ele gostou de uns vídeos meus e veio falar comigo. Propôs compormos juntos. Na altura, eu estava a compor o 'Feito a Maré' e resolvi enviar-lhe o tema para que fosse ele a terminá-lo. E ele adorou a canção e viajou, de propósito, do Rio de Janeiro para São Paulo para terminarmos o tema juntos. Quando acabámos de compor, ele disse-me que devíamos gravar o tema. Pedi para que ficasse no meu disco e eles aceitaram. Acabou por ser uma grande parceria. Acho que já fizemos cerca de dez espetáculos juntos aqui no Brasil.
Cartaz do Ageas CoolJazz até ao momento: Benjamin Clementine (4 de julho), Seal (12 de julho), Ezra Collective e Jordan Rakei (15 de julho), Jota.pê, Gilsons (17 de julho), Slow J (23 de julho), Masego (31 de julho).
BENJAMIN CLEMENTINE
Sexta-feira - 4 de julho 2025
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GILSONS
JOTA.PÊ
ISABEL RATO QUINTETO
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SLOW J
BOKOR
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TINDERSTICKS
GANSO
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