Laura Pausini voltou à MEO Arena para "abraçar" Lisboa com a força e o amor que tem na voz
O regresso feliz da cantora italiana a Portugal. A música foi a rainha, Laura foi a sua grande defensora.
Laura Pausini atuou esta noite na ampla MEO Arena, em Lisboa. O concerto, que teve a duração quase três horas, insere-se na digressão mundial “Io Canto”, um circuito pelos palcos do mundo que Laura pisa, sobretudo, para homenagear os cantautores que ama, como, aliás, disse à M80 numa entrevista que lhe fizemos em agosto. Laura anda na estrada para prestar tributo à música – à sua e à dos outros. Os outros artistas que admira.
A noite foi uma celebração, em uníssono com os fãs, do caminho musical que tem feito até aqui e pelo qual parece-nos estar profundamente grata. “Sempre que viajo pelo mundo para dar concertos eu própria preciso de me emocionar. E, se eu tenho essa necessidade, acredito que o público possa sentir na pele que estou ali para eles. Quero deixar-lhes uma lembrança forte. Uma voz também pode ser um abraço. Vou fazer o possível para que os meus abraços sejam todos para vocês”, disse-nos em agosto quando tivemos oportunidade de conversar sobre o concerto desta noite.
Ora, achamos nós, que quem esteve na sala lisboeta certamente sentiu na pele o forte e longo “abraço” da cantora. Quando anunciou a digressão Laura foi clara. Queria oferecer ao público um espetáculo que a representasse a 100 por cento, com o palco e alinhamento que refletissem o capítulo musical que está a escrever. “Considero uma bênção poder ter um trabalho que devolve tanto e é por isso que me coloco novamente ao serviço do público. Para mim, mais do que uma agenda, é um encontro com cada fã que canta comigo.”
Pois bem. Testemunhámos a materialização da intenção da cantora. E muito temos para relatar, começando talvez pelo empenho grandioso na cenografia que nos transportou para diversos ambientes, épocas e sensações. Não faltou nada ao espetáculo. Vimos uma banda coesa e jovialmente alegre, um coro cúmplice com elementos que também cumpriram a função de bailarinos, cenários ajustados aos diferentes momentos do espetáculo e, claro, escutámos a voz poderosa da conversadora e bem-humorada Laura Pausini que, ao longo do concerto, vestiu vários looks que obedeceram a um ponto comum: evidenciar a elegância que a define.
O alinhamento foi extenso. Quase como se a cantora quisesse escrever numa folha (ou num concerto) todas as canções que gostaria de cantar a cada um dos fãs. Não podendo desembrulhar todo o cancioneiro que lhe cabe na garra da voz optou por oferecer medleys pontuais entre as canções que escolheu cantar na íntegra.
Ao chegar à arena, o público deparou-se com um castelo medieval que parecia servir para uma uma peça de teatro, uma ópera ou um musical. Iam-se escutando badaladas de sinos, pássaros a chilrear e viam-se flores a florescer. A música de fundo ia subindo de volume, à medida que se aproximava a hora do início do espetáculo. A curiosidade, acreditamos nós, também ia crescendo entre o público, enquanto as várias estações iam pintando o castelo: a luz do verão, as variações das cores vivas da primavera, o branco da neve invernosa ou os tons acastanhados do outono.
Poucos minutos depois das nove da noite, a voz de Laura Pausini foi amplificada por um megafone. Em português, mas com o tom adocicado do Brasil, a cantora glorificou a magia do palco que disse ser uma extensão do que canta. Enalteceu as vozes dos fãs quando se juntam à sua. E coroou a música como a majestosa rainha do castelo. “Estou aqui para defender a música”, disse ao público no manifesto que abriu o espetáculo. “A música é a nossa rainha. Desde que nasci a música veio até mim. Abriu o meu peito", continuou. "É por isso que estou aqui. É por isso que eu canto", gritou Laura que logo depois entregou da voz a Io Canto, um original de Riccardo Cocciante.
“Esta noite, vou ser a vossa voz”, disse, aguerrida, com uma transição dramática para Ritorno ad amare. “Voltei porque preciso de cantar para vocês”, sublinhou antes de agarrar o tema do cantor italiano Biagio Antonacci.
"Olá, Lisboa", gritou a artista italiana antes do primeiro medley, agora com o cenário a refletir o presente que ainda há poucos anos nos parecia longínquo e futurista. A arena escuta, praticamente sem tempo para respirar, Ascolta il tuo cuore, Benedetta passione e Il primo passo sulla luna.
Finalmente uma breve pausa para retomar o fôlego. “Começa a chover” na MEO Arena e o tom serena. Laura Pausini canta o clássico italiano Quanno chiove mas em português, recriando a versão que fez recentemente com a cantora brasileira Sandy. Momento mais introspetivo e íntimo.
Em Tra te e il mare, Laura Pausini expande a voz, pede palmas, mete a mão ao peito e dança graciosamente. Segue-se Come se non fosse stato mai amore e um agradecimento sentido a Lisboa. "Que maravilha", exclama perante todos.
"Vocês perceberam que desde que o show começou eu ainda não falei. É algo muito estranho. Tenho aprendido a usar o silêncio e a música. Mas não se preocupem porque gosto muito de falar", prometendo conversa lá mais para a frente do espetáculo.
A arena escuta depois versões curtas de La prospettiva di me, Frasi a metà e Una storia che vale. A artista italiana pede para todos se levantarem. A plateia, eufórica, acata o pedido da cantora que um pouco depois sai do palco para dar o protagonismo merecido à banda e trocar de roupa.
Volta para cantar Invece no. Canta, com emoção e entrega, a sobressair de um fundo vermelho, com luzes a fluir pelo vestido a abrilhantar ainda mais o momento.
Após o final do tema, que foi retirado do álbum Primavera in antecipo, tudo muda no palco. A arena é contagiada e sobreaquecida com a energia vibrante, tropical e colorida do universo latino. Mais um medley. Este com canções de Ricky Martin, Madonna ou Gloria Estefan. Do alinhamento soltam-se Y mi banda toca el rock, Livin' la vida loca, La isla bonita, Non c'è, Se fue e Oye mi canto. Laura dança e rodopia claramente feliz por estar ali.
Ânimos mais serenos para a balada Vivimi, seguindo-se mais um medley com Simili, Le cose che vivi, Benvenuto e Primavera in anticipo.
A meio do espetáculo, a italiana desce para a plateia para, tal como prometeu, conversar com os que encontra pela frente. Canta para a fã Valentina, desvenda publicamente o sexo de um bebé que ainda está por nascer e brinca com a multidão. Num tom mais sério, confessa que está ali para cantar as canções que lhe são especiais.
A sala escuta O céu dentro de um quarto, Quem de nós dois (tema original italiano que Ana Carolina celebrizou no Brasil) ou Immensamente.
Io Sì (Seen) vem depois. Foi a canção com a qual a cantora e compositora italiana arrecadou o prémio de Melhor Canção Original nos Globos de Ouro e com a qual foi nomeada para os Óscares. O tema, que faz parte da banda sonora do filme "The Life Ahead", serviu esta noite para oferecer conforto e ajuda a quem sofre de violência doméstica.
E ritorno da te é cantada a duas vozes, com Laura a partilhar a canção com um elemento do coro. No final, a italiana ajoelha-se e deixa o público terminar o tema.
Seamisai (Sei que me amavas) evoca Gilberto Gil e Desire traz à baila Robbie Williams, o autor da canção que foi cantada na final do Mundial de Futebol de 2026. "Quero dedicar esta a todas as pessoas que precisam de desejar qualquer coisa", disse antes de terminar o medley com Gente.
"É sempre muito emocionante cantarmos juntos", sublinha, antecipando Já Sei Namorar, dos brasileiros Tribalistas, canção que puxou pelas vozes de todos os que estavam na sala.
Até ao encore, a arena escutou Un'emergenza d'amore, In assenza di te, Resta in ascolto ou Siamo soli nell'immenso vuoto che c'è. Os elementos do coro brilharam a cantar temas de outros artistas como Vivir mi vida, Set Fire to the Rain, Uptown Funk, Call Me e Proud Mary.
"Muito obrigada, Lisboa", gritou Laura Pausini antes de sair do palco, apresentando a banda, os cantores e deixando uma mensagem para todos ouvirem: "nós fazemos música, não fazemos guerra".
Ovação de pé na primeira despedida e a esperança de que a cantora voltasse ao palco para o que ainda faltava ouvir.
E, claro, voltou. Explosão de alegria no regresso da cantora para dar voz a Strani amori, La solitudine e Incancellabile. No final, uma recomendação de Laura: "esta noite, façam amor".
