Laura Pausini: "o português é a mais bela língua do mundo"
Entrevista à cantora italiana durante a mais recente visita ao nosso país.
Encontrámos Laura Pausini no piso panorâmico de um hotel central de Lisboa, na mais recente vinda a Portugal da cantora italiana. Ainda falta mais de um ano para o espetáculo na MEO Arena, em Lisboa, mas a intérprete transalpina já está entusiasmada com o concerto de regresso ao mesmo local onde a cantora afirma ter sido tão feliz no ano passado.
Laura Pausini fala num português fluido e abrasileirado. Demonstra uma curiosidade insaciável pela cultura portuguesa, pergunta por bons pratos de cá para comer ou por cantores lusos ideais para fazer duetos. O interesse é genuíno por alguém que canta recorrentemente em português. Ao ouvi-la, dá a sensação de que Portugal e o Brasil são estações de reabastecimento afetivo, como pátrias adotivas da cantora italiana. Na verdade, é o mundo que ama e lhe faz bem. Por isso, não a cerrem em casa, como aconteceu no período pandémico da Covid-19.
O que podemos esperar do seu próximo álbum, “Io Canto 2”?
“Io Canto 2” é um disco que vou fazer para homenagear os cantautores italianos. Eu já fiz o “Io Canto 1”, em 2006, e, agora, eu precisava, física e emocionalmente, de fazer uma vez mais. Eu sou uma cantora, mas também sou uma fã e durante a última digressão, que eu acabei em dezembro de 2024, fiquei com muita vontade de cantar músicas de outros. Desde janeiro deste ano, comecei a fazer demos na minha casa de muitas músicas que eu amo. Estou agora a gravar. Espero nos próximos meses e depois lançar o “Io Canto 2”, onde vou cantar várias músicas italianas muito famosas na Itália. E também vou cantar duas músicas em português. Uma de essas músicas é ‘Quem De Nós Dois’, que é uma dedicatória para a Ana Carolina, que eu amo muito. ‘Quem De Nós Dois’ é uma canção escrita por um garoto italiano que ela fez uma tradução em português. Então eu encontrei essa versão maravilhosa e eu quis fazer essa homenagem.
O que a motiva a cantar tanto em português?
Eu desde sempre amei cantar em português. Eu cantei com o meu pai durante dez anos nos piano-bares de Itália. E durante esse momento, ele ensinou-me muita música em português. Ele e eu amamos bossa nova, especialmente, mas também fado, que é um estilo diferente da música italiana. É por isso que nos apaixona. Depois, quando a minha carreira arrancou, eu viajei muitas vezes para Portugal e para o Brasil, e fiquei ainda mais apaixonada por esse idioma maravilhoso, que eu acho que é a mais bela língua do mundo, mais ainda que o italiano, para mim. Todas as vezes em que faço um disco, peço à minha editora: “por favor, deixem-me cantar uma música em português”. Realizo um sonho, porque eu amo de verdade esse idioma. Amo a cultura de Portugal e do Brasil. Sempre que andava pelas cidades do país, amava o idioma.
Gosta de ir a casas de fados? Gosta de Amália Rodrigues?
Oh, sim, a Amália Rodrigues é uma maravilha, a Dulce Pontes [também]. Muita música daqui é para mim uma escola. Eu oiço muito. Acredito que quando se é italiano, ama-se outro idioma. Quando se tem o cabelo liso, quer que seja ondulado. Ama-se sempre o que é de outras pessoas. E eu viajo tanto há 32 anos que agora sinto dentro de mim no sangue também um pouco de fado, de bossa nova e da língua portuguesa. Eu sou de todos.
Em 32 anos de carreira, como é que sentir o amor do mundo pela língua italiana, porque, tal como o Eros Ramazotti, a Laura leva a língua italiana a todo o mundo. Como é sentir o público estrangeiro a reagir tanto a uma língua como a italiana?
Eu, pessoalmente, tenho muito a agradecer ao Eros Ramazotti porque ele foi o primeiro italiano que, cantando em italiano, viajou para fora e tornou possível que os estrangeiros amassem a nossa língua. Depois, o mundo descobriu a minha voz como uma irmã de Eros feminina e nos anos 90 foi muito importante pela música italiana porque as pessoas fora da Itália ficavam curiosas de escutar esse idioma. Temos trabalhado muito para dar a conhecer essa cultura musical. Pergunto-me todos os dias como é possível que de todas as vezes que eu lanço um novo disco, eu canto sempre em italiano. Os anos passam e não é fácil estar sempre a tentar que o italiano saia de moda. Mas acredito que é importante não abandonar a nossa língua. Temos uma responsabilidade. Eu também. O Bocelli, ele tem um outro estilo musical, mas sempre cantou em italiano.
E o Jovanotti também.
Conhece o Jovanotti? O Jovanotti também. Adoro-o. Eu espero que também a nova geração de música italiana possa viajar pelo mundo com a nossa música. É interessante conhecer as pessoas do mundo, as outras culturas, também no nível musical. Sentimo-nos mais informados e com influências de outros países.
Em 32 anos de carreira de grande exposição, qual foi o momento mais desafiante e difícil para a Laura?
Como para muitos, acredito que tenha sido durante o Covid. Mesmo que eu tenha recebido a notícia maravilhosa do Globo de Ouro [de Melhor Canção Original para Filme, por Io sì (Seen)] e a nomeação ao Oscar [de Melhor Canção Original], eu fiquei sempre cerrada na minha casa, em Roma, como todos. Não viajar, não cantar ao vivo por três anos para mim foi difícil. Lembro-me que em certos momentos eu tive um pouco de depressão. Eu não lembro a minha vida sem ser conhecida e sem viajar, porque eu era muito jovem quando comecei. Então, o meu equilíbrio da vida é viajar. Estar cantando, encontrar pessoas. Então, foi difícil, porque eu perguntava para mim: será que depois do Covid, eu vou cantar novamente, será que alguém se vai lembrar de mim, será que voltarei a ter concertos? Foram essas muitas perguntas que me deram instabilidade emocional.
A Laura já cantou com muita gente, já fez várias colaborações. Com quem não cantou e gostava de ter cantado?
O George Michael, a minha voz masculina favorita. Tenho muitos cantores da nova geração de que gosto, como um jovem italiano que está fazendo muito agora no resto do mundo, que se chama Damiano David, dos Måneskin. Ele tem uma voz maravilhosa, muito poderosa, e a sua personalidade no palco é impactante. Eu gostaria muito de fazer uma colaboração com ele.
O próximo concerto da Laura em Portugal é só daqui a um ano.
Eu quero já estar em turné, mas o promotor diz-me que precisamos de alguns meses para organizar uma digressão mundial, diferente de uma digressão nacional. Então, eles dizem-me que vamos começar em março de 2026 e depois acabamos no final de 2027. Vão ser dois anos de turné, o que é uma maravilha, mas estarei aqui em Lisboa no dia 22 de outubro de 2026, na MEO Arena. Mal posso esperar porque a última vez, no ano passado, aqui, foi uma noite daquelas noites que não se esquecem. Eu não voltava a Portugal há muito tempo e estava, sinceramente, um pouco preocupada que não houvesse público para o espetáculo. Quando o promotor me diz que está esgotado, eu dei um salto. Fiquei muito feliz. Chamei o meu pai e disse: “Portugal ainda se lembra de mim, vamos fazer um show bonito”. Eu fiquei emocionada e chorei. Então é lindo voltar depois de tantos anos, porque não é óbvio. Tive muito sucesso nos 90s e depois os anos passaram. Nunca se sabe se as pessoas se lembram de nós. Mas aqui, muitas pessoas me amam. Então eu fiquei muito emocionada. Foi impressionante para mim, foi muito legal. E por isso, quando voltar no 22 de outubro de 2026, virei com uma energia mais muito forte porque eu quero fazer um show bom.
