Legendary Tigerman: "o 'Femina' tem talento que não é só o meu"
Concertos de reinterpretação do seu famoso álbum de 2009 no Porto, Lisboa e Coimbra a partir de 1, 2 e 3 de abril.
Legendary Tigerman volta esta semana às parelhas com diferentes mulheres, para interpretar em palco um dos seus álbuns mais fundamentais, “Femina” (de 2009). O primeiro concerto é na Sala Suggia da Casa da Música, no Porto, nesta terça-feira, dia 1. Seguem-se as atuações no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no dia 2, e no Convento de São Francisco, em Coimbra, no dia 3.
Do fortíssimo elenco feminino de “Femina”, regressam ao local de cumplicidade a atriz Maria Medeiros, Rita Redshoes, Cláudia Efe (dos Micro Audio Waves) e a australiana Phoebe Killdeer. De tempos mais recentes, surgem ainda Sara Badalo (a cantora e instrumentista da banda de Tigerman) e a mulher de Paulo Furtado, Helena Coelho, para duetos bem rock & rollers.
O desdobrável Legendary Tigerman pode agora interpretar “Femina” a seis mãos, com o contributo do baterista Mike Ghost e, claro, da mencionada instrumentista Sara Badalo.
Nos espaços dos concertos, vão estar à venda cópias raras e em vinil branco de “Femina”.
Há já uns valentes dias entrevistámos por telefone Paulo Furtado sobre este trio de espetáculos.
Não és muito dado ao revivalismo. O que te empurrou para celebrares um álbum com mais de 15 anos como o “Femina”?
Eu acho que foi uma coisa muito simples que me fez pensar nisso. Foi de repente a entrada da Sara [Badalo] e o facto de de repente cantar algumas coisas mais antigas da altura do Femina, que já há muito tempo não tocava, e de ser alguém que conseguia reinterpretar as canções mantendo alguma personalidade. Eu acho que foi isso que me fez pensar. De um momento para o outro, nos sets normais, fui repescar três ou quatro canções do Femina. E de facto deu-me gozo tocá-las e deu-me gozo pensar que se podia fazer qualquer coisa à volta disso. Depois, obviamente, reparámos que estávamos nos 15 anos do “Femina”. Eu nunca fiz nenhuma dessas celebrações, nunca festejei os 20 anos de carreira e aquelas coisas assim. Mas de facto deu-me vontade de voltar a este reportório e a algumas destas pessoas com quem eu trabalhei e de voltar, de alguma forma, também a reinterpretar o que tinha sido feito. Algumas músicas são mantidas muito próximas de como foram, mas outras são ligeiramente alteradas. No fundo, eu acho que foi isso que me levou para aí. Foi de repente que começámos a tocar algumas dessas canções e isso fez-me pensar, de um modo mais intenso, nessa possibilidade de realizar estes concertos, que eu acho que serão só estes [três] na realidade.
Os concertos vão ter projeção de imagens?
Vão ter projeção de imagens daquelas curtas todas que foram feitas naquela altura. O “Femina” também viveu muito dessa experiência de Super 8. Acabaram por ser uns retratos das mulheres que estavam por trás daquelas artistas com quem colaborei.
As tuas recordações do “Femina” são melhores depois do álbum do que quando estiveste a gravá-lo? Foi uma gravação complicada?
O antes foi mais complicado, mas também foi mais prazeroso, houve momentos incríveis. Foi mais complicada a logística e a parte financeira da coisa. Foi para manter o que eu queria fazer naquele disco. Tive que sair de uma editora e tive que, de algum modo, repartir custos com o management, num disco que já estava completamente fora do orçamento, até porque filmar em Super 8 é sempre uma coisa super-cara. Portanto, não eram só as viagens e convidados internacionais e andar para frente e para trás, também era essa parte da película e da digitalização, o que encareceu muito o disco, que passou por muitas fases. Acho que foi o único disco na vida em que eu estava tão exausto que quando o disco foi acabado e editado, fui-me embora e desliguei. Tirei dez dias de férias e desliguei o telefone durante cinco ou seis dias. Só uns dias depois é que soube que o disco estava no top 1 ou 2 ou lá o que era e que ficou depois durante muitos meses no top de vendas em Portugal e em outros tops na Europa. Na altura, a minha reação foi desligar e não pensar muito no resultado final. Se [o disco] tivesse corrido mal, a minha vida podia ter tomado uma direção completamente diferente.
Artisticamente, eu estava muito feliz com o disco. Tirando as dificuldades logísticas, foi dos discos que mais gozo me deu gravar, porque foi uma experiência incrível e tem tanto talento que não é meu e tem tantos universos que não são meus que estão lá dentro, que de facto foi um prazer enorme tê-lo gravado.
O Legendary Tigerman foi durante muito tempo um one man band. O “Femina” foi o álbum que fez o teu alter-ego trabalhar com outros músicos?
Essa mudança não foi instantânea e aconteceu mais no “True” [o álbum seguinte, editado em 2014]. Os concertos e digressões todos que fiz eram um one man band com convidadas, mesmo os concertos nos coliseus. É incrível um tipo encher coliseus só com um bombo e um prato de choques. Parecia surreal e impossível com a sonoridade que fazia, mas aconteceu. No álbum “True”, fiz loops e acho que foi o último álbum que gravei como one man band.
Anteontem estava a falar com o Mike [Ghost, o baterista]. E estava-lhe a dizer que na altura do “Femina” eu ainda era tão radical em relação a essa coisa do one man band, que estava a mostrar uma música, que era o ‘Radio & TV Blues’, e que eu tinha gravado guitarra com uma mão, tocava uma bateria específica e estava a tocar o xilofone, que é um instrumento muito estúpido, que é uma espécie de órgão que se toca com uma canetinha, com a outra mão. E, portanto, eu estava a dizer o quão estúpido e radical ainda era naquela altura, em que entendia que as coisas tinham que ser feitas ao vivo e não sei o quê. Eu acho que levei aquela ideia do one man band tecnicamente a um limite que eu acho que nunca tinha sido levado e provavelmente nunca foi.
No modo como os sons eram separados da guitarra e das coisas todas, o “True” foi o último disco em que eu de facto trabalhei imenso os sons e o conceito da coisa. E a partir daí para frente, o Segadães entrou para a banda para tocar bateria, depois entrou o [saxofonista] Cabrita, porque tinha feito alguns arranjos numa das canções e depois de repente, o [saxofonista] Cabrita ia ver alguém tocar a bateria, tornou-se uma coisa que faria sentido. E depois eu acho que só voltei ao one man band, a coisa deu um bocadinho a volta mas de uma outra maneira, neste meu último disco [“Zeitgeist”], em que eu compus o disco quase todo, com sintetizadores modulares gravados ao vivo em quatro pistas e depois com mais alguns arranjos, obviamente paralelos. Mas eu acho que a sonoridade do “Femina” e os silêncios que existem são muito fruto e muito resultado também de ainda ser um one man band, onde tocava tudo sozinho.
Os temas do “Femina” vão ser reenquadrados com sintetizadores? Vais dar um novo tratamento a essas músicas do "Femina"?
Algumas coisas sim, outras vou manter muito simples e muito próximas do que eram. Os temas que já tinham alguma eletrónica foram um bocadinho mais trabalhadas. As músicas que eram assim mais fantasmagóricas e mais vazias, vão continuar assim.
Foi aliciante esse confronto entre ti, o homem solitário, e uma mulher sempre diferente no álbum “Femina”?
Acho que foi, porque cada uma delas trouxe um universo completamente diferente. E as músicas eram feitas especificamente para as convidadas. A música da Peaches é claramente feita para a Peaches e compreende-se que tenha havido uma aproximação do meu universo ao universo dela. As músicas para a Cibelle têm essa aproximação. Eu acho que houve uma química diferente com cada uma das pessoas que colaborou comigo e acho que isso enriqueceu muito mais o disco do que se eu o tivesse feito sozinho.
Imagino que tivesse sido um desafio mulher-a-mulher. Cada pessoa é diferente e nunca sabe como é que as coisas podiam correr.
As coisas fluíram sempre muito bem. Eu acho que o mais entusiasmante foi mesmo procurar de que maneira o meu universo se poderia cruzar com o universo de cada uma das convidadas. Acho que esse foi o primeiro desafio e que podia ter feito o álbum falhar redondamente ou funcionar. Eu acho que não é aquele disco clássico de duetos em que tu chamas alguém para cantar uma música contigo meio aleatoriamente. [No Femina há] uma admiração e uma vontade de ir de encontro ao universo de cada uma das pessoas que colaborou comigo. Isso enriqueceu mesmo muito o modo como as próprias colaborações foram feitas. Estava aqui pensar: só a Dorit Chrysler é que não foi gravada ao vivo. Ela estava nos Estados Unidos e foi gravado remotamente. Na altura, foi tudo feito ao vivo em estúdio com todas as convidadas. Isso foi um privilégio enorme e claro que foi isso que causou o caos orçamental pelo qual o disco passou também.
Já tens vista para lá do horizonte de “Zeitgeist”? Já estás a idealizar um álbum futuro?
Na realidade, não. Tenho uma ideia, não de canções, mas talvez de direções, ou de como as irei trabalhar. Acho que será uma continuidade para já da exploração da parte eletrónica de sintetizadores modelares, talvez com mais guitarra eventualmente, e talvez uma coisa mais punk e mais reativa. Acho que o mundo está a picar-nos a todos com o que está a acontecer. Alguns revoltam-se, outras pessoas estão felizes, mas eu acho que a maior parte dos artistas está um bocado picada com tudo o está a acontecer no mundo e com todas estas injustiças e com toda a violência que acontece a céu aberto e à vista de toda a gente e que parece que ninguém consegue parar. E, portanto, acho que, de alguma forma, quem manda no mundo está a deixar cair a máscara. Parece que entrámos num filme, não sei se de ficção científica, se de terror. Acho que isso, de uma maneira ou de outra, há de me influenciar. No outro dia estava a pensar que no último disco tinha feito algumas coisas políticas e eu nunca tinha sido propriamente político na minha carreira. Já tinha havido uma movimentação nessa direção com o ‘Losers’ e de facto imagino que possa também haver mais coisas desse género. Mas confesso que tenho estado, felizmente, de deadline em deadline para bandas sonoras para teatro e cinema, que é outra coisa que me agrada e que faço cada vez mais.
Eu tenho sentido esse teu lado mais interventivo nos teus concertos. Imagino que estejas a ficar possuído por um José Afonso dentro de ti.
(Risos) Isso seria incrível.
