Luís Represas: uma história de canções no Coliseu de Lisboa

    Quase 50 anos de canções, a solo ou com os Trovante, foram celebrados, ontem à noite, no Coliseu de Lisboa.

    Quase 50 anos de carreira, desde que fundou os Trovante em 1976, e mais de três décadas no trilho a solo, embora sempre bem rodeado. Rodeado da palavra, da intenção da palavra, da música e de outros artistas, também amigos. Não há dedos das mãos suficientes para contar o número de artistas com quem Luís Represas já partilhou o palco, o estúdio e a vida. É esta a soma que fazemos do contributo que tem dado ao cancioneiro português. E a conta que fazemos não é para fechar tão cedo. Ainda agora, em fevereiro, o músico editou "Miragem", o álbum que foi o motivo para a "convocatória" no Coliseu dos Recreios. 

    À passagem pelo "Regresso a Casa" da M80 no mês passado, Luís Represas contou que faz questão de calçar os sapatos do público quando escolhe os alinhamentos dos espetáculos. Importa mostrar as novidades, claro, mas sem nunca deixar cair as canções que, longe do efeito erosivo do tempo, continuam a ser acarinhadas e trauteadas por todos. Dos temas dos Trovante às canções que saltaram do repertório a solo, o alinhamento da noite teve de tudo. Quem esteve na sala histórica lisboeta celebrou, a cantar e a aplaudir, o que Luís Represas tem dado à música portuguesa.

    Pouco depois das 21h30, ao som da refinada voz de Joni Mitchell ou da guitarra adorável de 'Blackbird', dos Beatles, a sala começou a ficar composta para o início do espetáculo. Amigos do músico, como Rui Veloso ou João Pedro Pais, estiveram na plateia que acolheu, com aplausos demorados, o cantautor da noite que chegou mais perto das 22h00, vestido de azul e com a guitarra nos braços.

    'Miragem', o single que dá título ao novo álbum, foi a primeira. Luís Represas começou a cantá-la sozinho, com a sala em silêncio absoluto, até a cortina subir para que fosse incluída no cenário a banda de oito elementos que apareceu atrás do músico envolta numa atmosfera púrpura. Sopros, percussões, cordas e teclas. A convocatória da noite estendeu-se a todos estes instrumentos, embora tenha havido alguns momentos que privilegiaram a infalivelmente bonita simplicidade acústica. 

    "Boa noite, Lisboa!", exclamou Represas quando fez a passagem para 'A Hora do Lobo', que foi buscar ao disco com o mesmo nome que editou em 1998. No fim, escutou-se um aplauso energético que só acalmou com o início sóbrio de 'Chave dos Sonhos' que fez o seu caminho até se entrosar com o resto dos instrumentos e com as vozes do afinado público, que, tal como disse o músico, assumiu a função de coro ao longo de todo o concerto.

     

    "Que bom voltar ao coliseu. Já vivi aqui tantas alegrias, como a alegria que estou a viver hoje e espero viver ainda mais. Esta sala será sempre a sala de Lisboa", confidenciou Represas que, na soma dos anos de carreira, guarda, naturalmente, um incontável número de recordações no palco. "Vou trazer canções do 'Miragem' mas também vou trazer outras que apareceram há 30 anos", avisou. A sala escutou 'Fora do Tempo', de 1993.

    Logo a seguir, outra recordação. O som do piano impôs o silêncio para se escutar 'Neva Sobre a Marginal', outra lembrança do início dos anos noventa que Luís Represas foi buscar ao seu vasto espólio. Depois, sentado e com a guitarra acústica ao colo, seguiu no alinhamento não sem antes mencionar os amigos que avistou na plateia. Não revelou logo a quem se referia. Preferiu agradecer primeiro ao público que o tem acompanhado na longevidade artística, dedicando-lhe 'Um Caso a Mais'. 

    'O Aprendiz' serviu para enaltecer a criatividade da filha Carolina, que foi quem escreveu a letra da canção, e para homenagear a frescura de todos os aprendizes que, como disse, têm muito para ensinar aos mais experimentados na vida. Pai orgulhoso, partilhou mais uma alegria: a de ter os filhos todos na plateia. Estavam os filhos e estava Marcelo Rebelo de Sousa. "Oh, Senhor Presidente!", exclamou quando o viu, saudando o Presidente da República que também quis estar presente. 
     
    Bem-disposto, conversador e energético, Luís Represas foi pontualmente honrado as amizades que construiu ao longo do tempo. Algumas das quais foram honradas no palco. Aconteceu com o pianista e arranjador cubano Miguel Nuñez com quem Represas mantém uma relação artística há vários anos. O cubano subiu ao palco para assumir a posição do piano. Embora fosse 'Feiticeira' a próxima a figurar no alinhamento, Miguel Nuñez reavivou 'Yolanda', que Luís Represas acabou por cantar de improviso. A muito popular e aguardada 'Feiticeira' veio então depois. Foi cantada a duas línguas (português e castelhano) com Represas a mostrar a força que segura na voz, força essa que inundou de aplausos o coliseu.  

    'Da Boca ao Coração', do novo disco, intercalou com mais uma preciosidade, mas antes disso houve tempo para mais palavras dirigidas aos amigos que ali estavam. "É um enorme gosto ter cá colegas. É muito bom ver aqui o Rui Veloso. Também está ali o Manuel Paulo, o João Pedro Pais", disse. "Está aqui alguém que me conhece desde os três anos de idade. É com muito gosto que vou chamar ao palco o Manuel Faria", rematou, entusiasmado. O músico, compositor e produtor, que Represas conhece desde a altura do colégio, sentou-se ao piano para acolher 'Perdidamente' nas teclas.   

    'Sem-abrigo do Amor' - outra do novo disco - e 'Da Próxima Vez' antecederam a genica de 'Cobra dos Mares' e de 'O Palanquista' que chegaram para levantar uma maré de palmas. 'Eu Dou', 'Foi Como Foi', 'Balada das Sete Saias', 'Fizeram os Dias Assim' e 'Saudade' vieram a seguir até à acalmia de 'Memórias de Um Beijo' que os Trovante editaram em 1987, com o álbum "Terra Firme". O músico cantou-a, com a mesma solenidade emocional, debaixo de dois feixes de luz. 

    O final foi à velocidade de '125 Azul', que começou a capella e continuou, sem parar nas portagens, até ao fim. O final mereceu ainda uma reprise de 'Miragem', a canção que abriu o espetáculo.