Macy Gray celebra a soul no Coliseu dos Recreios

    Primeiro concerto em mais de cinco anos da cantora no nosso país.

    Próximo do final do concerto desta noite, com mais de uma hora de espetáculo, acontece o momento que o público presente mais ansiava: o êxito que revelou a cantora, Try. Logo aos primeiros acordes, o público começa a cantar todos os versos de Try sem falha. Macy Gray só tem de tentar resguardar-se e tapar a cara com as palmas das mãos. Após o aquecimento em que é o público que tem a palavra (cantada), Macy Gray toma as rédeas e o seu quarteto, The California Jet Club, liga o motor instrumental no seu pleno para dar a glória que merece a Try. 

    Macy Gray sabe bem que Try é o seu maior trunfo para se revezar com o público. Após a sua interpretação, Macy Gray senta-se no sofá e desafia democraticamente alguém que queira cantar o tema. Uma mulher chamada Ana é a primeira a subir a palco e a única da assistência a poder pegar no microfone. Com Macy Gray sentada na poltrona, a espectadora, de mala a tiracolo, agarra o momento da melhor maneira que podia, provocando uma ovação de pé... e um grande abraço da estrela principal.

    Ao longo do concerto, a auto-estima de Macy Gray foi posta à prova, perante uma sala muito mal composta, em que o público pouco mais ocupava que a plateia sentada e os balcões centrais. A frieza da atmosfera não demoveu a cantora, que mostrou raça e contou com uma banda - dois bateristas, um baixista e um teclista - que sempre que necessário fazia a festa

    Os dois candeeiros e um televisor antigo davam um ambiente de sala de estar ao palco do Coliseu. De carapinha aloirada, casaco axadrezado e uma figura roliça, Macy Gray começou o concerto com uma soul bem mais exploratória que os dois primeiros álbuns - On How Life Is (de 1999) e The Id - que lhe deram fama. 

    Depois, entra nos encantos do jazz, ao interpretar Fly Me to The Moon, popularizado por Frank Sinatra, e ao desmontar Nothing Else Matters dos Metallica, mudando-o de cenário instrumental para um ambiente azulado, longe dos padrões rock do berço do tema.

    Apesar do bicho aventureiro e inconformista, Macy Gray sabe que para o crescendo festivo se efetivar, é preciso picar nos dois primeiros álbuns. Sweet Baby vem mesmo a calhar para o propósito, com contornos dóceis e orelhudos. 

    O intervalo é feito de uma bojarda de êxitos que um dos bateristas tenta acompanhar com baquetadas. Segue-se um solo do baixista, a tocar  We Are The Champions dos Queen. Tudo isso deu tempo para Macy Gray mudar de roupa no camarim, para um vestido bordado.

    Macy Gray volta ao início da carreira para cantar Do Something, desafiando depois o público a gritar para despejar todos os seus problemas na vida e a levantar-se e dançar- "ninguém quer saber se vocês não sabem dançar, o importante é que estejam felizes". Na verdade, a cantora estava a preparar o ambiente de festa de disco-sound, com a versão de Da Ya Think I'm Sexy? de Rod Stewart e, para o corpo não ficar parado, o seu Sexual Revolution, onde nem faltaram umas pinceladas de synth-pop. 

    Já depois de Try, o público fica a entoar o nome de Macy,com o incentivo dos seus dois bateristas. Macy Gray faz-lhes a vontade (e, imaginamos, a si própria), e cumpre um encore, para cantar, por exemplo, Thinking of You, um dos temas recentes feitos com a sua atual formação, The California Jet Club.

    Macy Gray sobe hoje ao palco do Coliseu do Porto às 21h30. Os bilhetes mais baratos custam 35 euros.