Maria Luiza Jobim: "Este disco sabe a verão europeu"
Álbum "Rosa no Céu" sai nesta terça-feira e é marcado pela residência atual da cantora em Lisboa.
Maria Luiza Jobim, filha do icónico músico Tom Jobim, vive há algum tempo na cidade de Lisboa. O seu novo disco, “Rosa no Céu”, é calcorreado sobre calçada portuguesa, mas com o sabor doce do Brasil.
A herança sanguínea da bossa nova sente-se neste disco, onde Maria Luiza Jobim inventa um bossagode, com a ajuda do amigo brasileiro em Portugal, Marcelo Camelo, que compõe, arranja e produz grande parte do disco.
“Rosa no Céu” sai mais de um mês antes do concerto de Maria Luiza Jobim no festival Cool Jazz, em Cascais, a 8 de julho, num dia encabeçado pelo “deus brasileiro” Gilberto Gil.
A entrevista a Maria Luiza Jobim decorreu na semana passada, aqui nas rádios da Bauer Media.
Porque é que cantas em inglês o tema ‘Portugal’? O que te motivou a fazer este tema sobre Portugal?
Essa é uma música minha e do Marcelo Camelo, que fez a letra e essa brincadeira. É uma música que homenageia não só Portugal, mas muitos lugares. Eu falo de muitas cidades nessa canção. E a gente escolheu colocar o nome de Portugal justamente porque eu vim para cá. É o país que escolhi, Lisboa é a cidade que eu escolhi para morar. Resolvi prestar essa homenagem e o inglês é uma brincadeira, por ser uma música internacional que fala de muitos lugares.
Gostas de aveludar os teus temas com sons de cordas?
O Marcelo é um arranjador. Além de produtor, é um arranjador incrível e escreveu todos os arranjos de cordas neste disco. Gravámos as cordas na Rússia, com esse esquema, que a tecnologia nos permite hoje em dia de podermos escutar ao vivo essa gravação. Foi muito emocionante para mim ouvir, enquanto estava sendo feito uma afinação incrível e única. E a última música do disco, ‘Rosa no Céu’, quem fez o arranjo de cordas foi o Jacques Morelenbaum, o Jaquinho, que é um ícone, uma pessoa, um grande mestre que trabalhou muitos anos com o meu pai, e também um amigo da família.
Porque é que as cordas foram gravadas na Rússia? Não é o país mais óbvio.
Há lá orquestras incríveis. O meu primeiro single desse disco, a ‘Go Go Go’, foi gravado na Estónia, que também tinha esse esquema de uma orquestra superbonita. Foi uma escolha do Marcelo, especificamente.
Deu-te um gosto especial gravar ‘We Are Young’? O tema é mais polifónico.
Essa é uma música por que me apaixonei de caras. É uma música que não é minha, é do Marcelo e da Mallu [Magalhães]. Eles me deram essa música inédita para eu gravar. Eu fiquei muito lisonjeada, porque é uma música que tem um carisma muito único. Ela já nasceu como se fosse um clássico. Parece que já a conheço há muito tempo e ela tem uma qualidade assim pelo meio que me lembra os Beatles. É um clássico e tem muito a cara do Marcelo Camelo.
Transformas o ‘La Javanaise’ do Serge Gainsbourg num dueto. Foi sempre essa a tua ideia?
Canto essa música há muito tempo nos meus shows. Eu sou apaixonada por essa música e sempre quis gravá-la. Eu achava que não havia uma versão com uma voz feminina que eu gostasse muito, porque na versão original do Gainsbourg, ele tem aquela voz super-característica, assim rouca, francesa, linda. É uma música muito enamorada, então eu enxergava muito essa coisa de um dueto. Eu achei que ela entrava perfeitamente neste disco, que tem esse sabor de verão europeu. Aí, eu chamei o Chico Chico, um grande artista brasileiro, para cantar comigo. Eu achei que coube muito bem. Eu sou muito fã do Chico Chico e ele tem essa áurea carioca, mas, de alguma maneira, inusitada. Eu acho que encontra Paris, com aquela voz bem masculina, natural e espontânea. Ficou um contraste bonito.
‘Sofá Vermelho’ é o tema mais melancólico do disco?
Sim. É engraçado você falar isso porque eu sempre brinco que tenho um traço melancólico muito forte. O meu forte é fazer música triste. Eu adoro. Faz parte de mim, é involuntário. Mas esse disco é o mais alegre de todos até agora. O disco está quase um Carnaval. Essa música, eu fi-la há um tempo. O Marcelo completou o tema e incluiu letra e tudo mais. Eu fiz esta música pensando no Jorge Aragão, que é um grande músico e compositor brasileiro de samba. E eu fiz [a música] pensando em ser um pagode. Fiz [o tema] pensando nisso, tanto em termos rítmicos quanto em termos melódicos. Eu imaginava a voz dele cantando aquela música. Eu sou muito fã dele. E aí quando eu mostrei para o Marcelo, eu não falei isso, eu toquei a música e aí, ele disse: "Ai, que maravilha!" E aí ele fez um arranjo e me devolveu uma bossa nova. E ele falou assim: "Ai, que linda essa bossa nova!". Eu falei: "Não, mas não é uma bossa nova, é um pagode". Aí, eu falei para ele: "Então é uma bossagode, porque é meio pagode, meio bossa nova, porque eu não vou abrir mão do pagode".
A primeira vez que vieste a Portugal foi para acompanhar um concerto do teu pai. O que te lembras dessa vinda?
Sim, foi no Mosteiro dos Jerónimos. A minha relação com Portugal é realmente bem antiga. A primeira vez que eu vim, eu tinha cinco ou seis anos. Eu lembro-me de duas coisas, na verdade. Queria poder contar coisas do show e tal, mas eu estava dormindo a essa hora. Mas lembro-me de comer amêijoas…
À Bolhão Pato?
À Bolhão Pato, claro. E [lembro-me de estar] vendo novela brasileira no quarto do hotel. Essas memórias são muito remotas, quase que flashs. Mas depois Portugal foi crescendo dentro de mim durante os anos. E há uns onze anos, a minha mãe comprou uma casa aqui, no Estoril, e a gente vem com muita frequência. Aí, a minha relação com Portugal foi realmente estreitando, quando eu comecei a fazer shows e turnés aqui. Desde então, a minha relação é maravilhosa. Eu me sinto muito bem e muito acolhida aqui. Tem um público muito atento e aberto. E eu amo isso. Pessoalmente, eu amo andar por aqui e reconhecer as pedras portuguesas, que são as mesmas do Rio. Tem sido uma experiência muito feliz.
Lembras-te bem da gravação do 'Samba de Maria Luiza' com o teu pai?
Lembro. Memória de criança, não é? Eu lembro o samba, foi uma gravação muito especial porque foi a primeira vez que eu gravei. Não tinha um peso de uma gravação. Era a extensão das brincadeiras que a gente fazia em casa. Então, foi muito leve, como deveria ser mesmo, tanto que no final eu falo de novo. Eu estava curtindo aquela brincadeira e aí ele falou: "Não fala que grava".
O que podemos esperar da tua atuação no Cool Jazz?
Nossa, eu estou muito honrada. Sinto-me lisonjeada, primeiramente por ser convidada para um festival tão relevante, e abrir justamente num dia tão brasileiro quanto o dia do Gilberto Gil e abrir para um artista dessa dimensão. Eu não poderia estar mais feliz. Estou desenhando um show especificamente para aquele dia, pensando não só no "Rosa no Céu", que é o meu disco novo, mas também pensando para quem não me conhece ainda, e trazer um pouco da música brasileira mesmo. Vamos ter algumas surpresas.
Vais ter quantos músicos permanentes?
Quatro.
Quatro músicos, além de ti?
Quatro músicos: baixo, bateria, guitarra e teclado.
O que significa para ti o Gilberto Gil?
Ele é como um deus brasileiro, porque, para muito além da obra musical dele, o Gil tem uma sabedoria muito especial, mesmo muito única. As coisas que ele fala é de uma importância...
Ele tem um passado de coragem.
Muito! É uma aula. Eu às vezes falo: "gente, ele tinha que fundar uma religião", porque é uma coisa assim tão sábia e transcendental, que acho ele um rei. No melhor sentido.
Vocês conhecem-se pessoalmente?
Sim, quando eu era novinha, assim criança, teve um período da vida que a gente conviveu bastante. Eu sou da geração de alguns filhos dele, os filhos da Flora: a Bela, o Ben, até o José. A Bela é mais minha amiga. A gente conviveu bastante, até estudámos juntas e eu tive a oportunidade de ir para alguns carnavais memoráveis em Salvador da Bahia.
