O "armário de vozes" de Diana Andringa

    A jornalista recorda a prisão na década de 70 e as décadas de carreira a fazer reportagem.

    Jornalista desde 1968, Diana Andringa passa pela redação de jornais de referência - Vida Mundial e Diário de Lisboa- e pela estação pública de televisão. Dedicou-se ao documentário até 2015, com influências dos primeiros anos passados na povoação criada pela Companhia dos Diamantes de Angola. Na década de setenta é presa pela PIDE-DGS e fica 20 meses presa em Caxias. 

    Como é que era a Angola na década de 50? 
    Nasci na Companhia dos Diamantes, é preciso dizer, porque era um clima fechado e diferente. Extremamente racista. Os brancos tinham o poder sobre os negros. 
    As pessoas dizem-me que é ideia de infância, mas não é. Ainda me lembro de ver negros acorrentados, a trabalhar nas estradas e em trabalhos forçados. Estava ao pé das minas, as pessoas negras eram trazidas para lá, mas não eram dali muitas vezes. Lembro-me, já um nadinha mais velhinha, de haver uma escola para brancos, uma escola para negros. Até a missa era segregada. A missa dos brancos era mais tarde, a dos negros era mais cedo e devo dizer-te que era muito mais bonita. Morava perto da igreja, havia uma coisa curiosa que é o som da música negra dos cânticos era muito mais religioso do que as canções na missa portuguesa. 
    Era de facto completamente diferente. A forma de viver dos brancos: uma vila central onde havia os brancos das classes mais importantes - engenheiros, médicos, etc. - depois a gente que trabalhava nas minas era um pouco mais longe, na descida para a barragem. Já os negros a certa altura havia uma aldeia museu perto do Museu do Dundo, que fez, aliás, um grande trabalho etnográfico com a Companhia dos Diamantes e SPE. Então, à noite, eu adormecia a ouvir aquelas canções. 
    Eu habituei-me desde sempre a viver entre pessoas diferentes, quando cheguei a Portugal escandalizava muito a minha mãe porque fui para o Ramalhão e sabes como é que são as meninas de certa idade, usam todas o cabelo da mesma maneira e usávamos bata. Portanto, eu não conseguia distinguir as minhas colegas umas das outras e dizia: "Ai, mãe, as minhas colegas são todas parecidas." A minha mãe ria-se e dizia: "Só tu. As pessoas costumam dizer que os pretos são todos iguais. Tu chegas aqui a Portugal e dizes que as pessoas são todas iguais." 
    Tive uma grande vantagem desde sempre: conhecer pessoas diferentes. Digo muitas vezes que quando saí da barriga da minha mãe, fui apanhada por mãos negras porque, de facto, tenho uma afinidade com as pessoas de outras cores que normalmente os portugueses não têm muito. 
    Habituei-me a ser crítica do racismo. Uma vez fiz o mesmo que muitos meninos brancos faziam, dei um pontapé no meu criado. Sabes as crianças quando estão muito irritadas e fazem disparates, eu dei-lhe um pontapé na canela, usava aqueles protetores metálicos, que eram normais nessa altura. Fez-lhe sangue. A minha mãe, em toda a vida só me deu dois pares de estalos, esse foi o primeiro. Deu-me, pôs-me de joelhos e disse: "Pede desculpa". Depois picou-me e juntou o meu sangue ao sangue dele e disse: "Vocês têm o sangue igual, que direito tens tu de lhe bater?" É bonito, é muito bonito e aprende-se muito. 
    Lembro-me que uma vez um criado nosso foi espancado pelos cipaios (polícias) com palmatoadas porque foi acusado de ter roubado uma peça de roupa que tinha fugido de um estendal de uma vizinha. Ele ia a passar, era negro, portanto era culpado, não havia que saber. Completamente perturbado, voltou para nossa casa a tentar explicar que não tinha feito nada, não sabia o que é que lhe há acontecido. A minha mãe, quando viu aquilo, foi a correr buscar um bálsamo e para pôr-lhe nas mãos. O meu pai, que era um homem de direita, mas tinha da ideia de civilizar pelo exemplo e nunca batendo nos mais fracos, fez uma coisa de que eu nunca mais me esqueci. Pegou nas mãos dele, levantou-lhe as mãos e disse: "Desculpa". Percebi que o meu pai não estava a pedir desculpa por ele, porque não tinha mandado bater naquele criado, estava a pedir desculpa pelo que nós brancos fizemos em África e pelo que nós brancos fazemos aos outros. Fui criada no meio do racismo. Acho que as crianças são tudo menos estúpidas e, portanto, fui sempre muito sensível a isso. 
    Portanto, era um sítio num certo sentido maravilhoso, porque tinha sons de animais que tu não tens aqui. Tinha o pôr-do-sol, que é lindo. Às vezes andava a brincar com os meus amigos, depois quando ia para casa no caminho ouvia o som das hienas. Apesar de tudo, é engraçado ouvir o som das hienas, mete um bocadinho de medo, mas sabemos que só atacam se nós cairmos, portanto, vamos mais devagar. Tinha espaço, tinha sol, havia as trovoadas - que era uma coisa linda, por cima da barragem ao pôr-do-sol. Uma coisa extraordinária que é a chuva quando bate no chão vem o cheiro da terra. 
    As pessoas contavam histórias de leões, de rinocerontes, de hipopótamos - que ainda cheguei a ver -, crocodilos obviamente também. Histórias que me abriam a cabeça. Tínhamos um criado que era cozinheiro e que pescava numa zona onde havia imensos crocodilos. Perguntava se ele não tinha medo e ele disse: "Não, menina, porque eu sou do clã do crocodilo. Os crocodilos reconhecem e não me fazem mal". Não te sei explicar cientificamente porque é que os crocodilos não lhe faziam mal. Agora que o vi a pescar no meio dos crocodilos, vi. Tinham explicações para as coisas que nós não tínhamos. Quando o meu Bambi, que eu adorava, morreu a correr explicaram-me que os animais selvagens quando sentem que vão morrer, correm para fugir à morte. Isto é tão bonito! Tu aprendes outra forma de olhar o mundo, por exemplo, dás um camarão ao teu criado e ele olha para o camarão com um ar absolutamente horrorizado. Mas se eu, que não sou má pessoa, estou a comer e lhe dou, deve ser por bem. Disse: "João, estás a ver? Vou comer. Se eu estou a comer, estou-te a dar um igual. Tu vais ver que é bom". O João, como era muito bonzinho e eu era pequenina, meteu o camarão na boca com ar nojo e de repente a boca abriu-se num sorriso. Ele disse: "É bom, sabe a gafanhoto!" Percebes como o mundo é interessante quando não é olhado só de um ponto de vista. Como nós somos fechados. Tive esta sorte desde pequena de conhecer um mundo diferente, com outras formas de interpretar, de olhar e, também, de conhecer a injustiça, o que eu acho que faz muito bem à saúde. Se não te dedicares a reforçá-la, se te dedicares a combatê-la. Havia uma escola de brancos e outra de negros. Tivemos uma professora na primária, a Dona Fátima, que um dia estava zangada connosco porque dizia que os cadernos não estavam bonitos. Disse-nos "Vocês deviam ver os cadernos dos meninos da escola negra, que têm de andar a pé quilómetros, não têm as mesmas condições que vocês em casa, não têm nada. Os cadernos deles são lindos" e trouxe-nos os cadernos deles. Disse uma frase que eu nunca mais me esqueci “É que eles não se podem dar ao luxo de não estudar”. Eu adorava estudar, gostava de aprender e levei muito tempo a pensar o que era aquilo do luxo de não estudar. Depois percebi. Se já nasces com privilégio, para que é que tens de estudar? Isso é para os outros. 
    Depois só quando vim para Portugal é que percebi que há outros pretos, chamam-se pobres. 

    Sente uma diferença quando chega a Portugal? 
    Há uma diferença naturalmente. Para mim havia uma grande. Nasci em Angola e a minha irmã também lá estava nessa altura, mas depois veio. Tive muito tempo em pequena só com os meus pais. Quando chegava aqui é que voltava a ter irmãos. Faz diferença estares sempre a perder alguém de família. O meu pai ficava em Angola e nós vínhamos, eu e a minha mãe, porque eu era muito doentinha e tinha de vir para aqui. Aqui tinha os irmãos, quando voltava para Angola eles ficavam porque já estavam na escola. 
    Depois há outras coisas que te apercebes. As pessoas que estão à tua volta são brancas, mas também têm criadas brancas, que também “são de segunda”. Percebes que há umas criaturas que são brancas de pele, mas que são negras como os outros, ou seja, não têm direitos, que são as pessoas pobres. 
    Tive a sorte de vir morar para Rio de Mouro. A escola que lá havia era a Associação Protetora das Meninas Pobres e, portanto, meninos descalços, sem roupa para o frio. Pessoas que nunca tinham tido uma boneca. Crianças que tinham de ler pelos nossos livros porque os pais não tinham a hipótese de lhes dar. Ensina-te muita coisa também sobre o que é, sobre o que é o “Puto”, como nós lhe chamávamos. Quando nos vendiam que o “Puto” era o centro da civilização… Meu Deus, se isto era o centro da civilização, quero ser incivilizada. Depois eram muito desconfiados, muito fechados. A minha mãe guiava muito bem, mas era uma mulher, portanto, era maluca porque guiava. Mandavam-na coser meias quando ela estava a guiar, guiava muito melhor que os homens que lhe estavam a mandar coser meias. A mim os vizinhos diziam que as meninas não se deviam sentar em cima do muro. Eram assim coisas completamente idiotas. 
    Depois, a seguir dessa escola, fui para um colégio de meninas ricas chamado Ramalhão. Aí, apesar de ser classe média, se alguém era pobre era eu comparado com as meninas mais ricas que estavam ali. Havia como em todos os setores gente muito boa e gente mazinha e as freiras, que eram o contrário de tudo quanto eu tinha aprendido sobre a religião. 
    Era católica, fui batizada Diana porque a minha mãe queria muito que eu fosse e o meu pai, que não era católico, queria que eu me chamasse Diana. O padre não me queria batizar, porque Diana era um nome que não podia ser usado em Portugal de uma deusa pagã. O meu pai que era um homem culto, chegou ao pé do padre e disse: "Olhe, vocês dizem que as crianças que morrem sem batismo vão para o limbo e ficam privadas para sempre de ver a face radiosa de Deus. A minha filha ou se chama Diana ou vai para o limbo por sua causa." Ainda por cima, aqui em Portugal cada vez que chamavam Diana, normalmente não era comigo, era com uma cadela perdigueira porque de anos da minha idade acho que só havia outra. Era completamente proibido. 
    Havia frio. A pessoa vir de um país de calor e de sol para um país de frio, era muito complicado. Agora tinha obviamente aqui amigos. Uma amiga de infância diz: "Tu eras o nosso Emilio Salgari, porque as histórias que tu contavas não tinham nada a ver com o que nós contávamos. Tu falavas do barulho das hienas, dos marabus, de uma série de animais que nós nunca tínhamos visto. De uma terra e de um calor que nós não conhecíamos". 
    Sentia-me, num certo sentido, bastante rica porque tinha duas terras. Continuo a dizer ainda hoje que eu só tenho uma pátria. A minha pátria é o mundo. Tenho 78 anos, vim para Portugal pela última vez com os meus pais com onze. Ainda hoje não me sinto particularmente portuguesa. Aliás, nasci portuguesa de segunda, embora no meu tempo já não se pusesse no bilhete de identidade. A minha mãe, por exemplo, era portuguesa de segunda. Chegávamos aqui e explicavam-nos que éramos portugueses de segunda, éramos tipos muito esquisitos, vestimo-nos de maneira diferente. 

    Há este confronto… Depois do liceu, o que a motiva a seguir medicina? 
    No sítio onde eu nasci havia, como continua a haver infelizmente em África, muitas doenças endémicas. Eu própria, embora criada com todos os cuidados, tive disenteria amebiana em que ia morrendo de facto e foi pedido que viesse para Portugal porque já não conseguiria eventualmente sobreviver. Havia o paludismo e havia a doença do sono. O meu pai era engenheiro, não era uma pessoa de muita vida social, mas tinha um pequeno grupo de amigos. Entre os quais um ou dois médicos, sobretudo o médico que mais me tratava. O Doutor Picota, que eu chamava o Pica porque ele dava-me tantas injeções. 
    Ouvia falar das doenças endémicas que estavam a surgir da doença do sono, etc. Portanto, sempre achei que tinha de ir para Medicina, porque era aquilo que era útil. Nunca percebi que uma pessoa tivesse um emprego inútil. Quando me diziam às vezes “Ah, mas não vais para isto”, eu respondia "Fazer o quê? Em que é que isso é útil às pessoas?" Quer dizer, o que é que ser economista ajuda as pessoas? Quanto mais os conheço, mais acho que não ajuda nada. 
    Queria muito ir para Medicina, contra a vontade de toda a família, porque uma das coisas é que eu desmaiava sempre quando via sangue e era mariquinhas, não gostava de agulhas. Percebi que havia uma coisa para que não tinha jeito nenhum: decorar. A anatomia decorava-se. Os órgãos ainda eram como o outro, mas os ossinhos dos pés e os músculos. Ufa! Não tinha grande jeito. 
    Depois entrei em medicina, em outubro de 1964, comecei logo a assistir a prisões. Em janeiro de 1965 vários dos meus amigos foram presos pela PIDE e a partir daí havia outras coisas por lutar que eram importantes. Apesar disso, continuei em Medicina, mesmo tendo chumbado a anatomia na prática. Comecei a escrever boletins associativos e fazíamos cartazes. A única coisa que eu sei fazer, mais ou menos, é escrever. O apoio aos estudantes presos. 
    Depois, em 1967, houve umas grandes inundações em Portugal em que morreu muita gente nas proximidades de Lisboa, que eram bairros de lata. A iniciativa veio dos estudantes católicos e contactaram as associações de estudantes para que se acorresse às populações. Como era de Medicina, fiz parte de um grupo que foi dar vacinas, mas houve outros colegas que andaram a tirar mortos da terra. Todos nós assistimos a isso. Acabámos por escrever um boletim, ‘Solidariedade Estudantil’. A censura cortava nos jornais a sério a partir do momento em que houve muitos mortos. Cortes como nunca viste: tinham morrido uma centena de pessoas, cortavam e punham duas. Os nossos não, diziam a verdade. Tínhamos estado a contar, não iam à censura, eram copiografados ou quando muito com umas capas em offset. 
    Apaixonei-me completamente pelo Jornalismo e às tantas pensei: "Mas num país onde se morre de fome - que eu já tinha visto crianças com fome em Santa Maria, a quem a moleirinha não fechava porque não se alimentavam o suficiente para poder desenvolver-se -, onde se morre por inundações se calhar é mais útil ser jornalista do que ser médico". Prova que não sou muito inteligente porque havia a censura para nos cortar. Então cheguei a casa e disse à família, que tinha sempre achado que eu não devia ir, que aquela menina que tanto tinha lutado por ir para Medicina, afinal já não queria ser médica, queria ser jornalista. A minha família tinha uma paciência de santos para me aturar. O meu pai respondeu: "Queres ir para França tirar um curso?" e eu respondi "Não, pai, a revolução faz-se aqui!" Aquelas coisas que nós dizemos quando temos dezassete ou dezoito anos. 
    Fui trabalhar para a Vida Mundial e devo dizer-te que é uma profissão perfeitamente maravilhosa. Mal paga, explorada, sem dúvida. Neste momento está muito pior, nesse sentido. Mas tem uma coisa: quando somos pequenos gostamos de ouvir contar histórias e esta deve ser uma das raras profissões, além da psicanálise e da psiquiatria, em que nos pagam por ouvirmos contar histórias. Isso é tão bom. 

    Na revista Vida Mundial faz um artigo em que fala sobre a luta pela independência de Angola, numa altura em que vivíamos em ditadura. Em tempo de ditadura é arriscado falar sobre a independência de uma colónia e a ouvir todos os lados. 
    Era fevereiro de 1969, fazia oito anos que tinha começado a luta de libertação com o 4 de fevereiro e eu resolvi fazer um artigo. Foi todo cortado desde o título porque chamava-lhe ‘Angola, oito anos de guerra’ e “não havia guerra”. Havia operações de polícia contra os terroristas. Deve ter sido o artigo mais objetivo que escrevi na vida, porque entrevistei os militares portugueses, os agentes do MPLA, agentes da FNLA… Contei como é que estava a situação à frente de todos com toda a informação que havia naquela altura, como imaginas, não seria muita. Foi tudo, tudo, tudo cortado pela censura. Entrei em contacto com angolanos que tinham na Casa dos Santos do Império, entre eles Joaquim Pinto Andrade, e comecei a dar-me bastante com eles. Entretanto, eu também já conhecia bastante bem a PIDE, tinha um namorado que foi preso e casámos na cadeia, que é sempre um aspeto interessante. Ia visitá-lo, tinha uma ideia do que é que eram os polícias. De repente, do meu grupo começam prisões em Angola.
    O que é que nós fazíamos? Nada de muito subversivo. Nós mandávamos para Angola coisas que eram necessárias. Quando possível, copiógrafos, máquinas de escrever, stencils para eles poderem bater os textos, fotografias, jornais estrangeiros e medicamentos, muitos medicamentos. Com a minha falta de jeito para tudo que seja ter cuidado e ser política, escrevi uma carta a um amigo meu a dizer que ele ia para Angola. 
    Começam prisões em Angola. Começa-se a perceber que aqui também pode haver prisões.

    Como foi o dia da detenção?
    Estava à espera do autocarro para ir até à agência de publicidade onde estava a trabalhar que era muito longe de casa, tinha de sair muito cedo. Vejo passar um carro com pessoas que eu reconheci como sendo da PIDE. Pensei: "Olha, vão aumentar a vigilância e pô-la mais assustadora, ou então vão-me prender.” 
    Se me prenderem o que é que eu faço? Não vou denunciar ninguém porque não sei nada de especial para o fazer. Se me vêm prender em casa, já devem ter avisado os aeroportos e os comboios. Portanto, também não consigo fugir. Se me esconder em casa de pessoas, vou queimá-las. Então melhor ir para o trabalho. Quando cheguei ao trabalho recebi um telefonema de uma amiga a dizer: "Olha, a PIDE está em tua casa, já prenderam a Zé - que era uma amiga minha que morava na mesma rua. A mãe foi a tua casa avisar-te e está lá a PIDE, que prendeu uma das pessoas que lá estava em casa também. Portanto, prepara-te para ser presa.” 
    Telefonei primeiro a um advogado. Disse: "Vou ser presa, por favor, dita-me uma procuração" e eu deixei a procuração assinada a uma colega para reconhecer a minha assinatura com o bilhete de identidade. Telefonei para casa e disse: "Mãe, pode acontecer que eu seja presa, uma amiga minha avisar-te-á se eu for. Quando tiveres a confirmação, vai à Rua António Maria Cardoso e leva-me, por favor, um pijama, uma escova de dentes e uma pasta, está bem?" Essas coisas essenciais. Telefonei para a secretária do meu pai, que era cardíaco, e disse: "Margarida, faça-me um favor, ponha um comprimido daqueles debaixo da língua ao meu pai. A seguir, anuncio-lhe que eu vou ser presa." 
    Nós estávamos numa empresa assim grande e alta. Fui à receção e disse à rececionista, que era a Maria de Belém: "Olhe, aparentemente a PIDE vem aí prender-me. Faça-me um favor, quando eles entrarem, avisa-me, está bem? Para ir à casa de banho, aquela coisa mínima antes.” A Maria de Belém às tantas telefona-me a chorar e diz: "Diana, já entraram, mas foram ao serviço de pessoal mostrar o mandato para a prenderem."
    Fui à casa de banho, entreguei os papéis a toda a gente. Dividia o meu gabinete com um sobrinho do diretor da PIDE que muito gentilmente disse: "Diana, se quiseres esconder alguns papéis que tenhas ou alguma coisa, põe na minha secretária." Não tinha nada. O mais subversivo que tinha era o Le Monde Diplomatique que enfim, também não exageremos. Vinha da casa de banho e encontro os PIDE. Disseram “Bom dia, Diana Andringa. Nós somos da PIDE DGS.” Pediram-me para ver o meu gabinete e depois acompanhá-los. Quando eu passei pelo gabinete do meu chefe, que era o Portela Filho, e disse: "Olhe, vou ter que sair porque estes senhores são da PIDE e vieram-me prender, peço desculpa de me ausentar." 
    Depois deu-me uma daquelas crises de menina bem, que é muito raro dar, e disse: "Sim, eu vou com vocês, mas nem pensar que sou presa sem cigarros, portanto quero ir ali ao café comprar cigarros." Explicaram-me que eu não ia. Disse: "Então dou dinheiro a um de vocês e, fazem favor, vão-me comprar cigarros" e eles foram comprar cigarros. Lá fui eu para a PIDE, pronto, e lá fiquei por uns tempos. Coisa calma. 

    Como é que numa situação destas, ainda mais a PIDE não sendo uma ideia abstrata, consegue manter a calma?
    Não era uma ideia abstrata, para mim era uma ideia muito concreta. Conhecia muita gente que tinha sido torturada. 
    Quando não podes fazer mais nada, o melhor é teres calma. Uma coisa era certa: o meu pai era um homem de direita, tinha sido colega na escola militar do Silva Pais, o diretor da PIDE. A filha do diretor da PIDE tinha fugido de Portugal e estava a viver em Cuba com um revolucionário. Era pouco crente que o Silva Pais admitisse que torturassem gravemente a filha de um colega. Não era uma camponesa, nem uma pessoa que estivesse na clandestinidade do Partido Comunista ou da FAP. Era uma pessoa legal que eles vinham prender. À partida tinha, mais ou menos, garantido que não me matavam, não me violavam, não me bateriam tão fortemente que se fosse notasse muito cá fora. Tinham receio de fazer tortura de sono e poder não resistir, porque uma pessoa nunca sabe exatamente o que é que acontece. Tinha a certeza de que não sabia o suficiente para poder pôr ninguém em risco, só me podia pôr em risco a mim e pôr-me em risco a mim… Pronto, se te metes nas coisas já sabes que estás em risco. Por outro lado, não sou uma pessoa muito corajosa, mas quando as coisas são graves a pessoa fica calma porque não há outra hipótese. O que é que a pessoa pode fazer? Desatar aos gritinhos? Não tenho feitio para desatar aos gritinhos. Então agora vamos aguentar. 
    Fui-me divertindo. Na sala em que a PIDE me pôs ficou uma rapariga jovem a tomar conta de mim. Eu era da publicidade e é uma coisa que atrai muitas pessoas. Ela perguntou-me porque é que eu estava ali. Eu disse: "Não faço a mínima ideia, os seus colegas foram-me prender. É um engano com certeza e é uma chatice porque eu tenho de apresentar uma campanha amanhã. Não posso estar aqui presa, que tenho de trabalhar. Olhe, a propósito, a campanha sobre gabardinas, dê-me aí uma ajuda. O que é que acha deste nome para a gabardina e daquele?" Passado um bocado, estávamos as duas a conversar. Foi retirada quando já lhe tinha ensinado a cantar algumas canções do Paco Ibáñez e substituída por outra que começou a fazer ruídos logo quando se sentou. Eu pensei: "Coitada, vai-se cansar imenso, porque deve ser meio-dia. Eu não tenho sono, dormi esta noite, portanto não tenho problemas.” 
    Depois apareceu o Tinoco, que era o inspetor de serviço. Um tipo baixinho, narigudo, que entrou com ar muito mau e disse: "Com que então distribuição de propaganda subversiva em Luanda?" Eu ri-me e disse: "Olhe, já deve ter prescrito, porque da última vez que eu passei por Luanda tinha onze anos. Penso que não será por isso que estou aqui." Ele foi derrotado e saiu. Pensei, cá para mim, “Diana Andringa 1, PIDE 0". Estas coisas dão força, sabes? 
    Depois começas a notar os ridículos, porque em todos os sítios há ridículos. Muitas vezes não os sabemos encontrar. Por exemplo, à hora que fui para a PIDE, que foi ao fim da tarde, a senhora que me foi levar explicou-me logo que não era dos serviços de interrogatórios, era dos serviços administrativos, mas ia comigo porque a cadeia estava muito cheia. Só nesse dia prenderam vários dos meus camaradas. Era muito magrinha, muito jovenzinha. Tinha na altura 22 anos ia fazer 23, mas eu entrava nos filmes para 17, porque eu tinha um ar muito miúdo. Olhou para mim e ficou preocupada. Disse: "Ouvi dizer que a senhora quase não almoçou." Respondi “É verdade”, ao que a administrativa diz "Ai não pode ser, se calhar vamos chegar lá e já está o jantar fechado. Vou-lhe comprar um bolo." Pensei para comigo: lá está aquele truque que nós conhecemos dos filmes americanos, o PIDE bom e o PIDE mau. Depois lembrei do Fernando Pessoa e disse: "Come chocolates e não faças metafísica", quer dizer, se vais ganhar um bolo agora é dinheiro em caixa. Quando eu cheguei a Caxias, o primeiro cuidado que teve. O chefe Palma cumprimentou-me: "Dona Diana está aqui, mas assim quem é que visita o Alexandre?" - que era o meu marido - e eu disse: "Olhe, ponha esse problema ao Silva Pais" - que era o diretor. Foi avisado que eu não tinha jantado e depois lá subi. Tiraram-me as coisas todas de metal que eu tinha, os óculos, porque podia matar-me a engolir os óculos, o cinto para não me enforcar, os atacadores sapatos, essas coisas todas. 
    Fui para uma celinha. Era confortável, não era o Aljube. Havia depois uma casa de banho pequenina ao lado, um beliche e uma mesa junto à uma parede. Cheguei e fui até à janela, que dava para a zona do rio e da erva. As que davam para trás com os muros eram muito pior. Senti-me muito honrada, "A PIDE tem medo de mim para me prender. Se calhar faço coisas mais importantes do que sabia." Depois cheguei à janela e cumprimentei um a um os presos que me lembrava que estivessem lá e desatei a recitar. Não fixo anatomia, canto muito mal, mas fixo as letras dos poemas e canções. Comecei a recitar para mim um texto muito bonito, “Rosas Vermelhas” de Manuel Alegre: “em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto”. O que senti foi que estava no meu posto e, portanto, se estás no posto agora tens que aguentar e vais aguentar o melhor que souberes e puderes. E aí a pessoa nunca está sozinha. De facto, nunca estive sozinha. Todas as noites me deitava na companhia, sei lá, de poemas de Jorge de Sena, poema de Camões, poemas cantados pelo Paco Ibañez… De alguma forma, nunca estive totalmente isolada, tinha sempre palavras comigo. Criei um muro de palavras à minha volta. 
    Não te vou dizer que é agradável estar presa. Houve dias muito duros. Não nos interrogatórios, ao contrário de muita gente que foi barbaramente torturada, nunca fui. Ameaçaram-me com o sono algumas vezes, mas não o fizeram. Tentaram drogar-me porque o médico achou que eu estava muito nervosa. A gente ia ao médico e eu disse: "Eu não estou nervosa, eu estou irritada porque não gosto de estar presa. É uma coisa completamente diferente. Estou indignada!”  
    Houve dias maus e quando havia nevoeiro era muito claustrofóbico. Desde que pudesses olhar para o exterior aguentava. Ainda por cima na sala ao lado ficou a minha amiga Zé, que tinha sido presa no mesmo dia e, portanto, nós conversávamos de acordo com um toque por cada letra. Portanto, as conversas levam imenso tempo. Então, quando ela chamava Zé, estás a ver? Com um problema ao princípio, é que ela usava o W, o Y e o K e eu não. Levámos tempos até perceber porque é que não nos percebíamos. Acho que é de ser jornalista, há sempre coisas para que olhas e são diferentes. Uma das guardas com que comecei a falar, era uma mulher que tinha ido para a guarda porque não tinha outro futuro. Fazia contrabando na raia porque não tinha emprego. De repente veio um trabalho que só exigia a terceira classe e era do Estado. Aceitou. Explicaram-lhe que ia tomar conta de comunistas, aquela gente muito má que matava os velhos com injeção atrás da orelha e comia as criancinhas. Quando entrou era muito bruta, contou-me ela. Depois foi percebendo que não podia ser assim, porque aquelas mães, quando recebiam os filhos na cadeia choravam de saudades. Então choravam de saudades e iam comer os filhos dos outros? Não. E faziam crochê! Achas que um criminoso faz crochê? Não. Até a ensinaram a fazer crochê cheios de paciência. Um dia disse-me: "Nós, quando fazíamos contrabando, tínhamos uma reza que era para a guarda não nos ver. Se calhar se vocês tivessem a mesma reza, a PIDE não vos via." Ensinou-me uma reza, na altura escrevi, mas depois tive medo que fosse apanhado e que ela fosse lixada por isso não fiquei com ela.
    Dentro da própria cadeia, há resistência, há conhecimentos. Depois quando fui para o regime normal, fiquei com duas mulheres maravilhosas. Uma estava há nove anos na cadeia, a outra estava há quatro. Portanto, eu que estava há dois meses e meio ou três não me ia queixar. 


    Em regime normal foram ainda alguns meses. 
    Foram uns 17, estive lá 20 meses ao todo. No entanto quando já estás acompanhada, não é divertido, mas é diferente. 
    Ensinaram muita coisa, gozaram imenso comigo. 
    A minha mãe, coitada, como todas as mães, queria dar-me um miminho e eu tinha visto umas calças de que gostava muito, ainda mais na cadeia estava muito frio. Comprou as calças para me mandar, mas obviamente não fez a bainha e eu tive que a fazer. Não tinha jeito rigorosamente nenhum. Quando estava a fazer a bainha, língua de fora, a tentar coser elas riam, riam, riam. Comecei-me a irritar: “Estão a gozar comigo ou quê? Nunca viram ninguém a coser uma bainha?” e elas respondera “Coser bainhas vimos, em ponto pé de flor é que nunca tínhamos visto.” O ponto pé de flor é o que aprendemos na escola, só sabia aquele.
    Ensinaram-me muita coisa e apoiaram-me quando me fui mais abaixo com a nota de culpa que pedia 24 anos de prisão para nós. Tinha 24 nessa altura e disse "Se eu for condenada a mais de vinte anos, aviso já que me suicido, porque não vou passar na cadeia o resto do meu tempo.” A Fernanda Tomás olhou para mim com um ar muito sério, de quem já estava há nove anos presa e disse "Um comunista nunca se suicida". Olhei para ela e respondi "Fernanda, mas eu sou pequenina. Sou uma aprendiza de comunista. Posso-me suicidar". Ela disse "Não!" Esses dias eram piores. Quando a minha mãe me foi ver e fui para o hospital fazer um exame. Achavam que tinha crises de epilepsia e mandaram-me fazer um eletroencefalograma. Portanto, não tive a visita da minha mãe. Neste dia fiquei completamente abatida, não por mim, mas por pensar o que é que a minha mãe se teria assustado porque a filha não está aqui e podia estar a ser torturada. Essas coisas é que eram terríveis. Um dia em que ia para António Maria Cardoso para interrogatório, estive lá o dia todo. Quando cheguei, a Zé não estava lá e as coisas dela não estavam na cela. Entrei a pensar que ela estava a ser torturada e tinham-na tirado daqui para não saber. Entretanto, a tal guarda que me queria ensinar a reza para não ser apanhada pela PIDE mudou o turno e fez uma coisa que estavam proibidas de fazer. Entrou na minha sala, fechou a porta atrás dela e ficou sozinha comigo. Disse-me "Dona Diana, não se preocupe, a Dona Maria José saiu em liberdade". Eu pensei mais uma vez "Sim, sim, também conheço o truque do PIDE bom e do PIDE mau". Mas no dia seguinte tinha visita com a minha mãe, que confirmou, e eu pensei "Pronto, esta guarda é séria e posso confiar". Essas situações assim eram terríveis. Tive perto de mim um recluso que eu conheço como o preso que tosse, que tinha ataques de asma numa sala ao pé, sentes uma pessoa a ficar aflita e não podes fazer nada. Nós batíamos na porta, chamávamos, mas não o podes salvar. São coisas muito, muito aflitivas. 
    Depois são as coisas que têm piada. No julgamento disse ao meu advogado que fazia a defesa jurídica, mas agora ei ia dizer aquilo que me apetece, porque finalmente posso falar livremente. Estou na cadeia, mais já não me podem fazer. Então disse que sim, defendia a liberdade de Angola, aliás, eu, as Encíclicas e as Nações Unidas, todos defendíamos o direito dos povos sob dominação colonial de resistirem até pela luta armada. Todos nós estávamos nervosos. Éramos dez. Só havia duas raparigas que eram brancas, os outros eram de várias cores. Estávamos todos com pastilhas elásticas na boca por causa do nervoso. Quando comecei a falar, fiz aquele truque de puxar a pastilha elástica para o lado e fiz a minha intervenção. A pessoa a seguir era o Garcia Neto, que era negro e também tinha uma pastilha elástica. Quando começa a falar, o juiz grita "O que é que o senhor tem na boca que parece um ruminante?" Dei um salto e disse "Olhe, eu tenho uma pastilha elástica na boca, quer ver? Mas eu sou branca, portanto eu não sou ruminante. Como o meu camarada é negro, parece um ruminante. É exatamente por isso que estamos aqui sentados, para acabar com o racismo, acabar com essa maneira de falar e de tratar as pessoas." A filha, que conhecia a minha irmã, disse mais tarde "O meu pai tinha uma pena de não ter podido dar uma pena maior à tua irmã, porque a tua irmã era uma chata.” Ser considerada uma chata por um juiz do plenário é um elogio, não me lixem. 

    Volto ao jornalismo quando saí em liberdade.
    Exato. Foi muito bonito, devo dizer. Tem coisas muito tristes ao mesmo tempo. Saí da cadeia e o meu pai morreu uma semana depois. A minha mãe ficou obviamente muito preocupada porque o meu pai tinha morrido, eu tinha saído da cadeia, como é que íamos viver? Qual era o meu emprego? Liguei para o Pinto Balsemão, que se tinha preocupado com a minha prisão, enquanto estive presa perguntava aos meus pais por mim, mas depois não me deu emprego no Expresso. Telefonei para o Diário de Lisboa a pedir emprego e falei com um dos administradores, que era o Lopes de Soto. Nem penso que fosse um homem particularmente de esquerda, mas quando eu lhe disse que estava à procura, ele disse: "A Diana saiu agora de Caxias, não foi? Eles prenderam dois dos nossos, venha." Entrei assim no Diário de Lisboa. Acho esta atitude muito bonita. 
    Há coisas de que eu nunca mais me esqueço. Pouco tempo depois de estar no Diário de Lisboa, houve uma explosão algures por estas bandas. Estava de serviço e mandaram-me fazer a cobertura. Quando lá cheguei obviamente estava lá a PIDE a investigar e eu conhecia alguns deles. Há jornalista, muito de direita, de um jornal da direita que chegou ao pé de mim e disse: "Diana, aqueles tipos são da PIDE. Não te metas em nada que saíste agora de Caxias, diz-me o que é que queres que eu pergunte? Eu vou perguntar por ti". Fez as perguntas por mim e veio-me trazer as respostas. Isto são coisas que tu nunca te esqueces, porque isto é a solidariedade entre as pessoas. Ele era de direita, sabia que eu não era. Ele com certeza seria contra a independência de Angola, eu era a favor. Mas eu era uma jornalista e ele sabia que eu estava em risco. Gosto sempre de lembrar, porque temos muito a noção de ver o mundo entre os maus e os bons. Felizmente entre os maus há alguns que são muito bons. Infelizmente, entre os bons há alguns que são muito maus, muito maus. Agora há aí muitos pela frente e temos de aprender a lutar contra eles. 
    Para vocês a vida está muito mais difícil, para nós era muito claro. Há um livro de Vailland de que gosto muito, que é "O Homem do Povo na Revolução" e que tem uma frase que é: "Era bom haver a Bastilha para derrubar, porque a Bastilha eram muros sólidos e guardas". Quando há uma coisa tu percebes contra o que é que estás a lutar. Agora, quando estás a lutar contra as novas formas que o capitalismo está a organizar de se meter na tua cabeça e de te influenciar é muito mais complicado. Podem-nos tirar muita coisa, até ficarmos com Alzheimer ou com demência, também vai acontecer. Até lá não nos tiram a cabeça e não nos tiram a consciência. 

    Dá-se o 25 de Abril e as possibilidades dentro do jornalismo mudam porque cai a censura. É imediato ou a limitação deixa marcas?
    Cai a censura, passas a poder escrever, mas uma das coisas é que a seguir houve uma luta imensa pelo controlo dos órgãos de informação. Estava desempregada do jornalismo, estive em reuniões em que era previsto entrar e não entrei por oposição de outros jornalistas. Porque era uma terrível MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), portanto, toca de afastar esta criatura. É complicado. 
    Por outro lado, tens de te habituar. Lembro-me de um trabalho que fizemos sobre o jornalismo em Portugal, organizado pelo José Rebelo e fomos vários dos que estavam nessa altura a fazer a primeira pós-graduação e o doutoramento em Comunicação. Fizemos entrevistas e numa delas, é muito engraçado, dizem que não sabiam resumir comunicados porque antes só havia as notas que eram oficiosas. Depois havia fações que se opunham e havia duas perspetivas do mesmo comunicado nas próprias redações. Não é fácil. 
    Estabelecem-se outro tipo de censuras. Há outra permanece durante muito tempo. Nunca mais me esqueço, na RTP fazia sobretudo internacional. 
    Estava a cobrir uma manifestação violenta contra o poder em El Salvador. Escrevi qualquer coisa como: "Os manifestantes exigem". O chefe de redação mandou-me chamar e disse "Diana, os trabalhadores nunca exigem, pedem." Ao que respondi "Olha, vai ver a peça, que eles pedem de uma maneira muito esquisita, sabes? Têm umas coisas nas mãos para baterem.” Havia este clima de entrevistar um ministro e haver exigências quanto ao que sai. Respondia: "Olhe o senhor falou dez minutos. Tenciono reduzi-lo mais ou menos a um minuto e meio. Se o senhor quer que saiam dez minutos, fale com a minha chefia. Agora, por mim não sai". Achavam que sim, que tinha se sair tudo o que diziam era certamente genial. 
    Portugal é muito marcado pelo fascismo. Ainda temos muito fascismo na cabeça, aquela coisa do respeitinho é uma coisa muito bonita. Lembro-me de uma vez ainda estava na redação e já não havia quase ninguém. Era preciso ouvir um ministro qualquer, era muito urgente. Os chefes começaram a discutir, sobre quem mandar, e quando um sugeriu enviar-me, a resposta foi um dos maiores elogios que já me fizeram: "A Diana, não, porque ela fala com os ministros como se fossem contínuos e com os contínuos como se fossem ministros". Exatamente, aprendi que todas as pessoas merecem igual consideração. Trato as pessoas como pessoas, como seres humanos que são.
    Esse tipo de censuras, manteve-se muito tempo e tinha a ver com a maneira como o mundo se organizava deste lado. As fidelidades à NATO, ao mundo ocidental… Quer dizer, passei não sei quanto tempo a fazer notícias internacionais sobre os guerrilheiros comunistas da América Central. Depois o Alto Comissariado para os Refugiados da ONU convidou-nos para fazer uma reportagem sobre refugiados. Fui ao campo de refugiados onde era previsto que estivessem os tais terríveis comunistas. Era noite, não vi ninguém e perguntei onde é que estavam. Explicaram-me que estavam a fazer uma cerimónia religiosa, que era Sexta-Feira Santa. Pensei: comunistas estranhos, no meu país não fazem propriamente cerimónias de Sexta-Feira Santa. Depois vi o campo, não tinha uma imagem. Já não falo do Marx e Engels, que eles não deviam saber quem era. Vá lá, que fosse Fidel e Ché Guevara, que são mais próximos. Também não… O que havia era o João Paulo II, ou seja, eram catequistas católicos, só que diziam que os trabalhadores tinham direito à terra e, portanto, nós aqui andávamos a noticiá-los como se eles fossem comunistas. Isto é um tipo de censura que nem te apercebes. Estás a quilómetros de distância, não fazes a mínima ideia, não vês aquelas pessoas. O que te chega vem pelas agências norte-americanas e se combatem um poder que é amigo dos Estados Unidos são os terríveis comunistas.

    Quando chega aos cargos de chefia na RTP, nos anos noventa, sentiu uma diferença por ser mulher? 
    Há uma muito clara que eu costumo dizer sempre que é uma belíssima anedota. Na direção da RTP 2, a diretora era a Clara Alvarez, uma mulher, fui subdiretora e, por acaso, todos os departamentos, menos um, eram dirigidos por mulheres. Sabes como é que nós éramos conhecidas? O Clube das Menopáusicas. Nunca ouviste falar de nenhum Clube dos Andropáusicos? Pois não, e ele também os há. 
    Há, evidentemente, uma diferença embora já se disfarçasse bastante bem nessa altura. Também há, provavelmente, outras formas de dirigir, porque talvez haja uma tendência maior para conversar, para fazer pontes. Assisti a discussões de mulheres jornalistas… Uma vez saí de uma sala onde estava a dirigir uma reunião e disse: "Olha, vocês desculpem, julgava que isto era a secção de grande reportagem, mas parece-me que me enganei e fui parar ao mercado da Ribeira num dia mau. Saio e quando estiverem mais calmas, reentro." Eram ofensas do tipo "Sim, porque tu queres fazer isto, por causa dos horários dos teus filhos", a outra respondia "Pois, e tu como és estéril…" Eu só pensava: "Meu Deus, mas o que é isto? O que é que nos meteram a nós mulheres na cabeça?" Mulheres que fizeram trabalhos espantosos em zonas de guerra, em zonas de combate. 
    Andei com os mujahidins no Afeganistão, mas enquanto chefia se fosse para ir para uma guerrilha muçulmana ou para um país muçulmano onde pudesse haver problemas com mulheres, não mandaria mulheres. No entanto, explicava-lhes porquê, naturalmente, perguntava se quereriam ir. Reconheço que há sítios onde é mais fácil. Quando andámos a fazer os refugiados, houve uma cena que fui só eu que filmei com a câmara, o microfone e tudo porque eram mulheres a trabalhar e os homens não puderam entrar. Na minha equipa eu era a única mulher, o resto eram homens. Devemos respeitar algumas dessas questões culturais, levo a sério e tento corresponder-lhes. Dentro de certos limites. Por exemplo, na guerrilha no Afeganistão, quando iam rezar pediam para me afastar. Faz parte da religião, afastava-me sem problema nenhum. No entanto, quando estávamos na cidade, íamos almoçar a um restaurante e diziam que eu tinha de ir para a sala reservada às mulheres, dizia: "Desculpe, não sou mulher, sou jornalista e aqui sou a chefe desta equipa. Portanto, a equipa almoça comigo e eu com eles." Quando discutes desta forma, as pessoas aceitam. 
    A primeira vez que fui fazer uma coisa com a marinha, ao princípio o comandante meteu-se na camarinha, não queria falar comigo por ser uma mulher a bordo e depois ficámos a dar-nos muito bem. Quando quis descer para ir fazer uma visita a um barco que estava a pescar em zona ilegal, disseram que não descia. Eu respondi: "O senhor é daqueles que quando está o navio a afundar, é o primeiro a sair? Sabe, a chefe desta equipa sou eu, eles não vão a lado nenhum perigoso sem mim e, portanto, se é para descer eu também vou.” Nota que tenho medo, não nado lá muito bem, tenho certo receio. Há coisas que tens de fazer. Mas nota-se alguma diferença, mas no meu tempo já não se notava tanto. Apesar de tudo é estranho, tenho setenta e oito anos, sou de uma segunda vaga de mulheres jornalistas e ainda não havia assim muitas. 

    Sente-se mais jornalista ou documentarista? 
    Sou sobretudo jornalista e acho que os meus documentários são documentários de um jornalista. Não me sinto realizadora. Sou sempre capaz de sacrificar um belo plano por uma bela frase. Eu sou daquelas pessoas que acredita que uma palavra vale mil imagens. É verdade que algumas imagens valem mil palavras, mas o contrário é mais verdadeiro para mim. Acho que sou mais jornalista. 

    O que é que ainda lhe falta fazer? 
    Aquilo me faltou fazer toda a vida e que não tem a ver com o jornalismo. É aquilo com que sempre sonhei quando era pequena: escrever um grande romance. Estou a pensar em Malraux. Acho que não sou capaz, que nunca serei capaz. Essa falha acho que vou morrer com ela, é que não a vou conseguir concretizar. Mas já fiz algumas coisas e gosto das coisas que fiz, tentei sempre dar a voz às outras pessoas. Isso é importante. 

    Em quase meio século de jornalismo que trabalho a marcou mais? 
    Há certamente um que me marcou muito. Andei pelo mundo, por muitos países diferentes, a tratar refugiados: uns vítimas de governos pró-ocidentais, outros pró-soviéticos e apercebi-me de como a maldade e a violência em todos os sítios são idênticas. Abrir mulheres grávidas para lhes tirar o feto, queimar crianças em frente das mães, infelizmente não se pode dizer que seja só um lado. 
    É terrível. Não me esqueço, ao mesmo tempo, do que é a bondade dos refugiados. Pessoas que não têm nada, mas dividem tudo. Lembro-me de estar a chover quando chegámos à América Central, a única coisa que os refugiados era uma casinha e uma ONG tinha dado uma vaca. Viram-nos molhados e a primeira coisa que fizeram foi mungir a vaca para nos dar leite quente para não termos frio. Isto é gente que não tem nada, que divide e que defende. Marcou-nos muito: pela negativa da maldade e pelo positivo da fraternidade. Marcou-me uma vez um trabalho sobre o suicídio de uma criança, porque obviamente nós sabemos que é complicado. Essa criança tinha sido vítima de maus-tratos e todos os vizinhos e pessoas na escola sabiam e ninguém fez nada por aquela criança. 
    Depois há outros que marcam pelo que de repente aprendes. Lembro-me de estar a fazer cobertura de uma manobra NATO, o general norte-americano que estava lá, estava curiosíssimo porque nós estávamos a usar uma câmara com um estabilizador, que eles também usam nas armas. Estávamos a conversar sobre aquilo e depois ele disse: "Estamos aqui a conversar, a Diana que é jornalista, explique-me porque é que os seus militares não acreditam na ameaça russa?" Estávamos em plena em Guerra Fria. Eu disse: "O senhor já viu a distância da Rússia? Estamos em muito mais risco de ser invadidos pela Espanha, o nosso inimigo ancestral, e vá lá se quiser Marrocos, agora a Rússia?" Ele desatou-se a rir e disse: "Sim, também é verdade que se a Rússia pensasse em invadir-vos, nós invadíamos primeiro para defender a nossa costa." 
    Andei com a guerrilha quilómetros, e quilómetros a pé por montanha. Tive alucinações, também me marcou por aí. Agora marcar-me sempre os refugiados, lembro-me muitas vezes da cara deles. Recordo-me de uma mulher que me contava como tinha sido torturada e violada com uma espingarda. A meio dos olhos começam a cair lágrimas e ela diz-me: "Peço desculpa, isto emociona-me muito, mas eu quero que no teu país saibam o que me fazem no meu país." De repente, percebes que há certas coisas que nós não sabemos, não queremos saber, e que temos de dar a voz às pessoas. 
    É por isso que se abre o microfone. Recolhes muitas histórias em algumas delas. Ficas marcado pelas pessoas. Costumo dizer que tenho um armário de vozes lá em casa, porque de vez em quando saem frases que eu ouvi em outras pessoas e sei que são doutras pessoas. 

    Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.