Atrair investimento e reduzir défice? O que procura Trump com as tarifas sobre carros da UE

    Filipe Santos Costa sustenta que as medidas tomadas por Trump vão ter o efeito pretendido, mas a custo do comércio global e de uma subida da inflação.

    Os Estados Unidos começam esta quarta-feira a aplicar tarifas de 25% sobre os carros da União Europeia exportados para território norte-americano, numa iniciativa económica que visa "atrair investimento produtivo" e "equilibrar o défice federal", explica o antigo presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, Filipe Santos Costa.

    O Presidente dos Estados Unidos prometeu divulgar, a 2 de abril, uma série de novas tarifas a aplicar de forma global, nomeadamente aos Estados-membros da União Europeia, que incluem a imposição de uma taxa de 25% sobre todos os carros exportados para os EUA, mas as medidas não devem ficar por aqui.

    Para Filipe Santos Costa, o "objetivo número um é atrair investimento produtivo, seja a relocalização de empresas americanas que deslocalizaram operações para o exterior, seja de empresas estrangeiras que sentirão a necessidade de produzir nos Estados Unidos aquilo que é para fornecer o mercado norte-americano". A esta meta junta-se a de "equilibrar o défice federal", dado que os EUA "têm um grande défice da balança comercial, mas também um grande défice orçamental".

    Do lado europeu, já há promessas de retaliação através de um "plano sólido" se não for possível uma "solução negociada", como explicou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que promete "se for necessário", proteger interesses, cidadãos e empresas europeus.

    As tarifas de Trump

    Esta resposta de Bruxelas pode começar pelo setor dos serviços, onde os EUA "têm uma enorme vantagem comercial e praticamente todas as empresas que dominam o setor da nova economia e da economia partilhada", sejam elas a Apple, a Google, a Uber ou a Airbnb. O resultado final será uma "retração da globalização, uma retração do comércio global e, provavelmente, um efeito inflacionário", avisa.

    Filipe Santos Costa acredita que a estratégia norte-americana de tarifas vai ser eficaz para atrair investimentos para território norte-americano "porque os EUA têm uma grande margem entre o poder aquisitivo e de consumo e o que é atualmente produzido internamente para fornecer" o país.

    Assim, as empresas multinacionais ou que produzem fora dos EUA, mas fornecem o país, "não quererão perder essa oportunidade. O poder de compra está nos Estados Unidos e isso atrairá investimentos produtivos".

    Apesar de andarem cada vez mais nas bocas do mundo, as tarifas não são um instrumento novo na estratégia económica norte-americana, nota Filipe Santos Costa, mas há uma diferença marcada entre a estratégia da anterior administração, liderada por Biden, e a atual.

    Donald Trump "não tem tanto em consideração os aliados, não é uma visão unipolar, em que os EUA trabalham com os seus aliados, ou sequer multipolar e multilateral, em que trabalham no quadro das instituições internacionais".

    O que acontece é "uma espécie de unilateralismo mercantilista que procura visitar todas as relações apenas nas áreas em que acha que os EUA estão a ser desfavorecidos, esquecendo-se que, em muitas áreas, os Estados Unidos são favorecidos e que, no saldo global, são os grandes ganhadores da globalização".

    A tendência atual tem sido a de "exagerar sempre" nas medidas económicas "para depois deixar margem de recuo", mas Filipe Santos Costa nota uma tendência que já vem de trás: "Ainda em outubro de 2024 os Estados Unidos aplicaram uma série de direitos aduaneiros à China em coisas tão variadas como painéis solares e veículos elétricos".

    Na análise deste especialista, as tarifas "não são uma novidade, mas também não vão desaparecer". Devem é acontecer "a um ritmo menos acelerado do que as propostas iniciais de Trump parecem sempre indicar".