"O Trovante atuava que nem abelha na colmeia"
Vídeo da entrevista ao trio criativo da formação - o cantor Luís Represas, o pianista Manuel Faria e o guitarrista João Gil - nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos.
A propósito do recente anúncio do regresso dos Trovante aos palcos para celebrar os 50 anos da criação do influente grupo, tivemos a oportunidade de entrevistar o cantor Luís Represas, o pianista Manuel Faria e o guitarrista João Gil nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. Os três músicos recordam os velhos tempos e falam dos concertos na MEO Arena, em Lisboa, a 21 de março e na Super Bock Arena, no Porto, a 28 de março. Em fundo, no vídeo ouve-se a interpretação ao vivo das músicas ‘Memórias de Um Beijo’ e ‘125 Azul’.
É verdade que o nome Trovante liga trova ao Avante?
Luís Represas - Quisemos arranjar vários nomes tão ridículos como Ressaca, uma coisa assim. E foi o Chico Viana, o Francisco Viana [o primeiro letrista], que se lembrou de chamar Trova + Avante, Trovante. Nós sempre dissemos que não somos o grupo oficial de nenhum partido, nós não somos o grupo oficial da UEC [União de Estudantes Comunistas], nem do PCP [Partido Comunista Português]. Temos ideias comuns e, obviamente, andámos nos mesmos terrenos, mas artisticamente não. Quis o trova mais avançado, é o se chama trova no sentido progressivo. A trova, os trovadores dos tempos modernos, trovadores modernos. Em Cuba chamaram-lhe a nova trova cubana. Sempre dissemos que esta era uma palavra que não existia e que, como tal, foi uma invenção, foi uma criação nossa. E andámos durante quase 50 anos orgulhosíssimos de ter inventado uma palavra. Até que eu cheguei à porta de um restaurante que se chamava Trovante, que não tinha rigorosamente nada a ver connosco.
A fase entre 1984 e 1988 foi o vosso período mais intenso?
Manuel Faria - Foram anos de grande liberdade porque na altura já tínhamos estatuto para gastar tempo em estúdio. Experimentámos muita coisa. Depois, em 1987, sai o [álbum] “Terra Firme”, que é um bocado a nossa descoberta de uma data de tecnologias que nos passaram ao lado. Enquanto os Sétima Legião e outros já tocavam com máquinas e sequenciadores, nós éramos um grupo puramente orgânico. E começámos a pouco e pouco à procura disso, dos sequenciadores. O ‘Perdidamente’ é uma música gravada só com sequenciadores. Começámos a pôr um pé num território diferente. O Trovante sempre foi um grupo muito aberto a influências e à experimentação, mas tínhamos uma convicção forte, queríamos aquele som orgânico e tocado. Pusemo-nos à prova com o ‘Perdidamente’ e depois acabou. Isto é para a gente tocar. É uma característica Trovante, é tudo tocado à mão, com muita pesquisa e muita descoberta.
A música ‘Timor’ nasceu como um instrumental do João Gil para o documentário da Margarida Gil, “Flores Amargas”. Lembram-se bem como a música tomou forma como uma canção dos Trovante?
Manuel Faria - nós fizemos uma orquestração um bocado gospel da música. Mas [a questão de Timor Leste] estava tão fora da opinião pública da altura que lembro-me que eu o Luís estávamos a dar uma entrevista de lançamento do [álbum de 1990] “Um destes dias…” e um eminente crítico de música nos perguntou: “mas porque é que vocês têm uma canção sobre Macau?” “Como é que é? Macau? Timor!” “Ai, Timor”. Timor estava completamente fora do radar de toda a gente. Depois, o disco saiu. A música nem sequer foi escolhida como single. A música estava lá para o meio. E depois quando houve o massacre [no cemitério de Dili], não sei se a RTP ou a SIC, usou a música como fundo. A música cresceu sozinha.
O ciclo criativo dos Trovante está fechado?
Luís Represas - O Trovante tinha uma forma de atuar que nem abelha na colmeia. Cada um sabe o seu caminho, cada um sabe o seu espaço e como fazer com que o mel seja aquele. Com todas estas saídas e entradas e toda essa confusão, o Trovante deixou de fazer sentido, deixou de ser aquilo. Portanto, começou a ser quase uma técnica de fazer a música ou de fazer o arranjo e passa a ser qualquer coisa que não aquela. E então, para reativar o Trovante, é necessária uma abdicação total das nossas vidas atuais, para voltarmos outra vez a fazer aquilo que as abelhas faziam naquela altura naquela colmeia. Ora bem, são umas abelhas que, passados quase 40 anos, não sei se estariam em grande estado de voltar a fazer um mel muito saboroso. Por outro lado, não teriam grande disponibilidade para sair do cortiço para ir as árvores buscar flores para o pólen.
O que motiva este regresso?
João Gil - A infância musical foi passada no Trovante e foi uma infância muito feliz, a viver uns para os outros, a viver intensamente aquilo que era o Trovante e o respeito por ele, por aquilo que eram as regras, os manifestos. E esse respeito e essa primeira infância marcou-nos. Eu agora falo por mim, marcou-nos imenso, até os dias de hoje. Eu tento quase recriar aquilo que aprendi. Do processo e do mecanismo de trabalhar em grupo, aprendi nesta casa-mãe o que foi o Trovante. Voltar, outra vez, à casa-mãe, é voltar outra vez a ter aqueles sabores intensos que a nossa avó e a nossa mãe faziam, e só a nossa avó e a nossa mãe faziam. Não entendo isto como um saudosismo, mas como uma maneira de manter a infância viva, porque nós nunca perdemos a infância. Se ela corre mal, é uma chatice, é um prejuízo de toda a vida. Assim não, assim é um prazer voltar a ela.
