Obesidade afeta quase um terço dos adultos em Portugal
A iniciativa "Call on Wait" instala cabines telefónicas em várias cidades do país, onde é possível ouvir testemunhos reais de pessoas que enfrentam a doença.
Quase 30% dos adultos portugueses vivem com obesidade, uma doença crónica ainda marcada pelo preconceito e pela desinformação.
A obesidade continua a ser uma das doenças mais prevalentes em Portugal, mas também uma das mais incompreendidas. A partir desta sexta-feira, 2 de outubro, a iniciativa "Call on Wait" pretende mudar essa realidade, levando para o espaço público histórias reais de pessoas que vivem com obesidade e dando visibilidade a uma condição que afeta quase um terço da população adulta portuguesa.
Através de oito cabines telefónicas instaladas em locais de grande circulação, como estações de metro e de comboio, os visitantes poderão ouvir relatos na primeira pessoa sobre discriminação, dificuldades no acesso ao tratamento e o impacto psicológico associado à doença.
Para o endocrinologista Daniel Mendonça Macedo, esta é uma oportunidade para combater ideias erradas que continuam profundamente enraizadas na sociedade.
"A obesidade é uma doença crónica, claramente subdiagnosticada e subtratada. As pessoas que vivem com obesidade são alvo de um grande estigma e muitas vezes sentem culpa, como se a doença resultasse apenas de falta de força de vontade", afirma.
O especialista sublinha que a obesidade deve ser encarada da mesma forma que outras doenças crónicas, como a diabetes ou a hipertensão.
"Quando alguém tem diabetes ou hipertensão, é natural procurar ajuda médica e iniciar um tratamento. Com a obesidade deve acontecer exatamente o mesmo. É uma doença que precisa de ser diagnosticada e tratada."
Muito mais do que excesso de peso
Embora as consequências físicas sejam frequentemente destacadas, Daniel Mendonça Macedo alerta para uma dimensão menos visível da doença que é o impacto na saúde mental.
Segundo o médico, a obesidade está associada a mais de 200 complicações, incluindo problemas cardiovasculares, metabólicos e psicológicos.
"O estigma leva muitas pessoas a sentirem tristeza, ansiedade e até depressão. Em alguns casos, podem surgir também perturbações do comportamento alimentar. Por isso, o tratamento deve ser multidisciplinar e envolver médicos, nutricionistas, profissionais do exercício físico e psicólogos."
A discriminação em contexto profissional, social e familiar continua a ser uma realidade para muitas pessoas com obesidade, contribuindo para o isolamento e dificultando a procura de ajuda.
Novos medicamentos trazem esperança, mas acesso continua desigual
Nos últimos anos, o surgimento de novas terapêuticas farmacológicas aumentou a atenção pública em torno da obesidade e abriu novas possibilidades de tratamento.
"Hoje temos medicamentos aprovados que são seguros e eficazes para tratar a obesidade. Isso ajuda não só os profissionais de saúde, mas também aumenta a consciencialização da população para a existência da doença e das formas de a tratar", explica o endocrinologista.
Apesar dos avanços, persistem barreiras importantes. A ausência de comparticipação dos medicamentos para a obesidade continua a limitar o acesso de muitos doentes.
"Quem não tem capacidade financeira pode não conseguir aceder ao tratamento. Existe aqui uma desigualdade social evidente que precisa de ser discutida."
Dar voz a quem vive com a doença
A iniciativa "Call on Wait" estará presente em cidades como Lisboa, Porto, Braga, Guarda e Santarém. O objetivo passa por aproximar o público da realidade de quem vive com obesidade, através de testemunhos autênticos que mostram que a doença vai muito além do peso.
Para Daniel Mendonça Macedo, ouvir estas histórias é fundamental para combater preconceitos.
"É muito mais difícil tratar uma doença quando a própria pessoa não sabe que tem uma doença e quando as pessoas à sua volta também não o sabem. Dar voz a quem vive com obesidade é um passo importante para mudar essa realidade."
