Papa Francisco deu voz a quem não era ouvido
O Santo Padre ficou ao lado dos derrotados, para dar a mão a quem não se consegue levantar. A análise do vaticanista Otávio Carmo sobre o Papa Francisco.
Otávio Carmo é dos pouco em Portugal a ter acesso à Sala de Imprensa do Vaticano. Nesta entrevista, o vaticanista revela como o Papa Francisco é visto dentro dos corredores de Roma. O especialista admite também que o nomeação de quatro cardeais portugueses é histórico e mostra a importância de Portugal para o Santo Padre.
É vaticanista, especialista nas questões do Vaticano, qual é a perceção de quem anda nos corredores da Santa Sé?
A perceção no Vaticano e de quem lá trabalha reflete a perceção do mundo sobre o Papa Francisco. Há pessoas que gostam muito e há pessoas que, ao longo deste pontificado, acompanharam com alguma preocupação, o que entenderam como inovações colocaram a Igreja Católica num diálogo mais próximo com a sociedade, com pessoas que estão à margem ou até fora da Igreja e que se sentiram identificadas com o tipo de liderança que o Papa Francisco imprimiu. Gerou muito entusiasmo, mas também muitas resistências.
Resistências da parte mais conservadora da Igreja?
Da parte que entende a missão da Igreja como mais virada para dentro de si própria do que para fora. Isso é muitas vezes entendido como conservador. Há muitas lealdades, há muitas fidelidades, há muitas filosofias e muitas ideologias, no caso os católicos, que fazem com que as pessoas entendam que a missão de determinada instituição deve ser mais virada para os seus membros e para dentro da própria porta. Desse ponto de vista, sim, houve maior preocupação de quem acha que a principal missão do Papa é organizar a casa, por assim dizer, e mantê-la como sempre esteve, do que propriamente arrumá-la um bocadinho para que possa cumprir melhor o seu trabalho ou encontre aqueles que estão fora.
Por exemplo, para muitas pessoas é muito pouco digno que o Papa vá a uma cadeia feminina lavar os pés a reclusas, de várias religiões que estão presas por um conjunto de crimes que cometeram e que agora estão a tentar recuperar a sua vida. O Papa vai a beijar os pés dessas mulheres, vai a chorar com elas e vai ao seu encontro. Isto é um gesto absolutamente magistral do Papa Francisco, que corresponde a uma pergunta que muita gente coloca, que é: “o que é que Jesus faria se estivesse cá hoje?”. Não tenho dúvidas que faria isto, mas que para muitas pessoas é algo que não está à altura da imagem do Papa. Acreditam que Papa deve uma espécie de um soberano, de uma espécie de Deus na Terra, que está distante destas coisas mais práticas de dia a dia e que tem como missão, basicamente, liderar um conjunto de centenas de milhões de fiéis, cuja preocupação em última instância é a salvação da alma. O Papa é um pragmático, olha para a realidade e procura transformá-la. E há pessoas que vivem num mundo mais ideológico, mais de visão, mais de conceito, e que dizem as coisas são assim, têm de ser sempre assim, e têm de continuar a ser sempre assim para que a igreja tenha futuro. E esta é a grande tensão que persistiu ao longo de todo o pontificado e que se viu em casos concretos.
Mas há outros exemplos relacionados com a família e a questão dos divorciados, como os vários ensinamentos do Papa sobre a questão das pessoas homossexuais. Como foi que o Papa deixou, no hospital, um gesto histórico de maior preponderância, maior papel de liderança de mulheres na igreja católica e na cúria romana. Todos estes são exemplos concretos desta tensão entre uma abertura apontada para o futuro e uma manutenção do passado e daquilo que sempre foi como garantia de sobrevivência.
Toda esta influência que tem no mundo deve-se também um pouco às suas próprias vivências, nomeadamente as questões e as preocupações em relação aos imigrantes.
Há uma visão do Papa sobre a globalização que tem muito a ver com a sua vivência no sul do mundo que é radicalmente diferente da nossa, europeia e daquilo que têm sido os papas desde o ano 700. Basicamente têm sido europeus, portanto o Papa é o primeiro Papa sul-americano, traz consigo essa visão do mundo, é filho e neto de imigrantes italianos que foram para a Argentina, tentaram uma vida nova, viveu na pele essa ideia de estar fora do seu lugar natural, de ser desenraizado. Uma situação que traumatiza, traz dificuldades, também traz coisas muito boas, traz uma nova vida, traz uma nova realidade. E com essa visão e experiência procura olhar de uma forma mais humana e mais direta para o que é o drama dos muitos migrantes, que procuram atravessar o mar ou por outras vias para chegar à Europa e buscar uma vida melhor. Isso também tem gerado tensões até do ponto de vista político, com quem entende que a preservação da identidade cristã implica deixar de fora da Europa, ou até de fora de outros países, pessoas que não partilham dos mesmos valores. E isso tem sido um grande combate do Papa Francisco, sem dúvida.
Tem uma visão descentralizada da Igreja...
Tem. Ele tem uma palavra que usa desde o início pontificado que é Periferias. Ou seja, o Papa não olha para a Igreja como um centro, como uma espécie de multinacional com várias sucursais espalhadas pelo mundo. O Papa olha para a Igreja como uma realidade diversificada, presente em todo o mundo, em que o seu grande valor, o seu grande potencial de transformação espiritual e social é efetivamente esta diversidade.
A Igreja não está só, ou apenas, ou sobretudo, do lado de quem ganha e especialmente neste momento quem ganha com a globalização ou com o sistema financeiro que temos. O Papa Francisco tomou a decisão de ficar do lado dos derrotados da globalização, daqueles que não têm voz.
E é essa visão também que se está patente na escolha dos cardiais de países que à partida não seriam tão óbvios.
De facto, esta visão do grande valor da diversidade da Igreja Católica, da sua presença diferente nos cinco continentes, faz com que o Colégio, que um dia terá responsabilidade de eleger o próximo Papa, seja constituído por cardeais de 73 países. Quando o Colégio Cardinalício elegeu o Papa Francisco, havia representantes de menos de 50. Isto é uma mudança significativa. Obviamente que, no início do pontificado, ninguém esperaria que houvesse um cardial da Papua Nova Guiné, se calhar as pessoas nem sabiam que havia católicos na Papua Nova Guiné. São visões muito concretas, sobre, por exemplo, as que estão a sofrer as consequências práticas das alterações climáticas, estão ameaçadas de ficar debaixo d'água, cujos fiéis das paróquias estão a perder casas. É preciso trazer isso para o debate, é preciso perceber que o mundo é mais do que se vê de Roma e o Papa tem feito isso de uma forma exemplar.
Como disse, essas decisões, essas escolhas vão se refletir também na escolha do próximo Papa. Vamos ter um Papa na mesma linha?
Eu diria que, olhando-se para a igreja como uma espécie de um relógio de pêndulo, o Papa Francisco foi um movimento bastante significativo numa direção e eu diria que o próximo Papa terá de ser um movimento ligeiramente de recuo para se encontrar um equilíbrio entre aquelas visões de igreja que falávamos no início. Portanto, posto isso, eu diria que é difícil que deste conjunto cardeais não saia alguém que esteja alinhado pelo menos com os princípios fundamentais até porque dos 138 eleitores que há hoje, 110 foram escolhidos para o atual papa.Isto implica uma marca muito significativa da visão do Papa Francisco sobre a igreja e sobre o mundo, na escolha daqueles que vão, quase de certeza escolher o seu sucessor.
Já agora, como é que se processa a escolha? Nós já sabemos que se reúne o Conclave, mas é uma questão também política?
Eu diria que para as pessoas que viram o filme, ficou talvez uma ideia dominante sobre todas as outras. Mas a estrutura do Conclave no essencial, é de oração. É quase como uma cerimónia religiosa. Tudo aquilo está pensado ao milímetro, mas é uma cerimónia religiosa. Estamos ali perante uma escolha daquelas pessoas que têm de decidir, dentro daquele grupo, quem é que pode exercer aquele cargo. E portanto, recorrem também aos seus recursos, não só intelectuais, políticos e filosóficos, mas também os seus recursos espirituais e religiosos para tomar a melhor decisão. Ou seja, há obviamente blocos que têm a ver com proximidades geográficas, há blocos que têm a ver com afinidades do ponto de vista filosófico e político, mas há sobretudo uma experiência que é para aqueles que lá estão, uma experiência muito íntima e muito forte de vivência espiritual.
O Cardeal José Tolentino Mendonça está na corrida?
A pergunta é simples, a resposta tem de ser sim. Basta lembrar que quando o Papa Francisco foi eleito ninguém colocava Jorge Mário Bergoglio na lista de favoritos. E de repente foi ao fim de dois dias que estava a surgir a varanda da Praça de São Pedro. Posto isso, eu diria que também há outros motivos para Portugal estar significativamente interessado num próximo Conclave, desde logo porque vai haver quatro cardeais portugueses nessa eleição, o que é um fenómeno histórico.
