Para Paula Rego "tudo se passa dentro de casa. São os temas que lhe interessam."

    Anabela Mota Ribeiro recorda a inquietude de Paula Rego, artista plástica e mulher.

    Paula Rego é um nome incontornável da arte a nível internacional. Inquieta com o mundo que a rodeia, as temáticas sociais teimam em surgir nas suas produções artísticas. Fez um percurso artístico em Portugal e Inglaterra, onde deixa que a sua criação toque quer o poder quer temas sociais, como o aborto ou a prostituição.

    Anabela Mota Ribeiro, jornalista e autora, esteve à conversa com Paula Rego cinco vezes ao longo de vinte anos. Daí nasce a obra ‘Paula Rego por Paula Rego’ e esta entrevista, onde recorda a artista plástica e a sua vida.


    Como era a Paula Rego?

    É aquela que nós vemos na sua obra, é aquela nós vemos nas suas palavras e nas entrevistas, é aquela que nós vemos no maravilhoso filme do seu filho Nick Willing. É muito raro nós vermos tão autêntica. Quer no discurso mais estruturado e articulado, quer no mais solto e desconchavado. É muito raro que isso seja coincidente, que não haja uma espécie de clivagem entre um “eu” público e um “eu” privado, entre aquilo que é a artista e o que é a mulher. No caso da Paula, essa coincidência era osmótica: era sempre assim, era sempre o que nós vemos.

    Isso é uma coisa muito preciosa… Se nós virmos fotografias antigas, registos antigos da Paula Rego - mesmo as obras mais antigas -, se atentarmos naquilo que são as obras da maturidade, identificamos também estas continuidades.

    Mesmo quando o estilo mudou muito… Numa primeira fase o registo era sobretudo abstrato, era o tempo das colagens. Depois passou a ser mais figurativo, mais encenado, mas eu diria que as obsessões, as histórias da Paula Rego eram sempre as mesmas. E a história era um elemento fundamental. Por isso é que insistiu que o seu museu se chamasse Casa das Histórias.


    Temos uma Paula que é muito atenta ao mundo que a rodeia?

    Numa das entrevistas, Paula disse que no essencial tudo se passa dentro de casa, é tudo muito doméstico. Esses são os temas que lhe interessam.

    As relações de poder, entre homem-mulher… mas eu diria que o corpo da mulher, o que é ser mulher, a relação com o homem, o patriarcado com as diferentes realidades ao longo dos tempos, quer em Portugal, quer em Inglaterra, aparecem de um modo muito expressivo na sua obra.

    A sua modelo preferencial é a Lila, que é uma portuguesa e que tem cara e corpo de portuguesa. Eu acho que se alguém não souber como é a portuguesa típica, basta olhar para os quadros da Paula Rico e para a Lila… É uma certa forma, uma certa cor de pele e de cabelo. Mas é também uma portuguesa que percebemos ser uma mulher de trabalho e uma mulher forte. São características predominantes.

    A Paula Rego trata desde o início da sua obra as questões de género, porque também as sentiu na sua vida. Foi para a Inglaterra com 17 anos, estávamos no salazarismo. Já tinha feito aqui o colégio inglês, o pai era engenheiro, era uma família burguesa, anglófila… O pai achou que aquele Portugal salazarista não era um lugar para mulheres, porque as amarfanhava, porque as castrava nos seus direitos, e por isso, foi para a Slade School of Fine Art estudar. Depois regressou a Portugal, grávida, teve aqui a sua primeira filha. Depois esteve aqui com o seu marido e com os filhos pequenos até regressar a Inglaterra de um modo definitivo. Percebeu desde o princípio o que é que era o tema do aborto, o que é que era uma moral podre, extremamente punitiva da mulher - do corpo e do prazer da mulher.

    Quando muitos anos mais tarde, recupera o tema do aborto, o tema do abuso sobre a mulher; quando pinta ‘O Crime do Padre Amaro’, de Eça de Queiroz, está a denunciar justamente essa opressão sobre a mulher e como essa moral tão castigadora continuava e continua presente na sociedade portuguesa.

    A existência da Lila foi questionada durante algum tempo, chegou a falar-se que seria um autorretrato de Paula Rego.

    É um autorretrato de certa maneira…. Apesar de não ter a cara da Paula, a Lila é um modelo perfeito para encenar estas histórias que a Paula quer pintar. A Lila é uma mulher que eu encontrei - eu conheci portanto existe mesmo -, que foi muito novinha para a Inglaterra para ajudar a cuidar do marido da Paula que estava doente. Ficou em Inglaterra, é enfermeira e simultaneamente no seio do atelier da Paula, tornou-se a modelo preferida e eu acho que não é por acaso.

    Lila é portuguesa e a Paula encontrou nela o corpo, a cara, as expressões que melhor traduziam esse imaginário da Paula que é essencialmente português – ainda que tenha passado a vida em Inglaterra, feito lá os estudos e sido influenciada pela arte e pessoas inglesas… Lucian Freud foi uma influência para a Paula, mas o Francis Bacon foi um pintor que partilhou casa com o marido da Paula. Estamos a falar de grandes nomes da pintura inglesa. A Paula é considerada uma artista inglesa, não só porque foi, já quase no fim da vida distinguida pela Rainha Isabel II como Dame, mas se formos à National Gallery, o que encontramos no restaurante é um painel da Paula Rego. Por isso, é considerada uma artista inglesa também.

    Porém, se nós virmos o imaginário da Paula, se nós atentarmos nestas histórias que são recorrentes, percebemos que tudo isto vai beber a essa língua materna que é o português e que são as histórias portuguesas, os modos portugueses, que a Lila encarna muitíssimo bem.


    Paula Rego demora quase cinquenta anos para alcançar uma fama plena, mas nunca deixa de pintar.

    A Paula nunca deixou de pintar, mesmo que não expusesse sempre. A Paula era uma artista enorme e também é uma espécie de condição dos artistas não poderem fazer outra coisa senão exprimir-se através da sua arte e essa expressão pode adquirir formas diferentes, utilizar suportes diferentes, mas é tão vital quanto respirar.

    É verdade que a Paula só começou a ter reconhecimento depois do encontro com a Galeria Marlborough e da exposição na Serpentine Gallery, que a catapultou para um primeiro plano. Expunha em Portugal, com alguma regularidade... Até então, o reconhecimento até era mais em Portugal do que em Inglaterra, mas depois as coisas mudaram de um modo muito significativo.

    O que eu acho interessante é que a Paula, assolada por muitos fantasmas, nunca deixou de pintar, nunca deixou de desenhar. Porque não podia ser de outra maneira. Numa entrevista que eu fiz aos filhos da Paula e que faz parte desse livro, Paula Rego por Paula Rego, compõe um texto longo, introdutório à obra e à pessoa. Contam que durante muitos anos a estrela do casal era o pai e que as pessoas, por puro preconceito machista, perguntavam “A mãe ainda pinta?”, como se não fosse uma artista inteira.

    Por isso, é tão importante atentarmos no tema do machismo, da maneira como a mulher era tratada, das relações de poder na obra da Paula. Porque ela sofreu isso de todas as maneiras, até no reconhecimento público. Até que uma artista que tem um painel na National Gallery em permanência, que expõe na Tate Britain, que bate recordes de afluência de público - quer em Serralves, quer na Gulbenkian e no CCB… Antes mesmo da abertura da Casa das Histórias, a consagração é plena.

    No fundo, são uns 20 anos, não mais, em que tudo acontece. São os últimos 20 anos da sua vida, aqui em Portugal. Acho que isso a deixou muito feliz, sobretudo a criação do Museu das Histórias que aconteceu perto daquilo que era a casa da sua infância.

    Havia uma tendência para tornar o atelier quase num prolongamento de si mesma?

    Sim, era um prolongamento de si mesma e estava cheio de objetos pessoais que podiam ser um triciclo, uma camisa rendada ou qualquer outro objeto da infância. Mas muitos destes objetos tinham uma utilidade.

    O atelier da Paula Rego era um prolongamento de casa, mas também um palco e os bastidores de uma companhia de teatro. Nós reconhecíamos o ateliê, alguns adereços que tinham sido usados em quadros, mas víamos também uma espécie de set, uma espécie de cenografia, do quadro que ela estava a pintar naquele momento. Era um teatrinho. Isso é muito fascinante. Percebemos que ela está a encenar uma história, está a desenhar e a pintar aquilo que vê. É como se a história ganhasse uma tridimensionalidade, porque há ali os corpos, há ali os objetos, essa história está a ser narrada recorrendo a todos esses adereços - peças de mobiliário, pessoas que são postas em ação, é uma mise-en-scène plena. Isso aconteceu a partir de determinada altura na obra da Paula Rego.

    Nos últimos anos aconteceu uma coisa muito interessante: a Paula Rego começou a construir os próprios objetos. Em anos mais recuados, ela dizia que pintava bonecos, referindo-se às “pessoas” das suas histórias. Depois começou a construir objetos, como se fossem esculturas muito toscas, que interagiam com pessoas de verdade. O quadro que ilustra isto de uma forma mais eloquente, é talvez um dos mais conhecidos e bem conseguidos, é o ‘Pillow Man’: uma figura enorme, construída, tecida, cozida pelas mãos da Paula e da Lila e que faz parte desse quadro.

    Portanto, o ateliê é um prolongamento de si mesma, é uma forma de termos uma representação do seu imaginário, é um prolongamento de casa e é como se fosse um teatro.

    Paula Rego foi a única mulher a pintar o quadro de um Presidente da República. Passados 30 anos continua a ser a única. Era um reconhecimento que sentia?

    A Paula Rego foi a única mulher a pintar o retrato de um presidente da República… Ora, nós nunca tivemos uma mulher Presidente da República. Eu penso que a Paula era sensível a isso. O feminismo da Paula, sobretudo a luta contra o machismo, era muito ativa na obra e eu penso que lhe causava perplexidade como é que essa desigualdade é ainda tão vincada na sociedade portuguesa.

    Quanto ao retrato propriamente do Presidente da República, aconteceu por razões de amizade e de afinidade entre o Presidente Jorge Sampaio e a Paula Rego. Eu fico muito feliz que a Paula Rico tenha pintado o retrato. Pelo menos temos uma mulher. Mas eu anseio, é pelo dia em que nós vamos ter em Portugal uma Presidente da República, uma Primeira-Ministra eleita e tenhamos mais mulheres a ocupar cargos de poder. Que a igualdade seja mais plena, porque ainda está muito longe de o ser.

    Apesar da ligação ao sobrenatural ser um tema constante de Paula Rego, nunca apareceu numa das entrevistas.

    Nós somos sempre múltiplos e contraditórios. A própria Paula dizia “eu invento” e podia dizer algumas coisas contraditórias, descoincidentes. Eu acho que isso é próprio da imaginação e é próprio da memória. Quando nós reconstituímos a memória de algo, nós efabulamos. Não só a nossa memória nos prega partidas, nós também podemos reconstituir as coisas. Não é bem acrescentar um ponto, é porque nós temos muita dificuldade em registar a factualidade. Se é que isso existe.

    Quando se é um artista, o devaneio, a imaginação, as formas que a memória vai assumindo podem ser coisas muitíssimo interessantes. Não diria tanto que a relação da Paula é com o sobrenatural, mas com o mistério. Mesmo a relação dela com a Virgem Maria ou com Jesus, era uma relação de fascínio, não era tanto uma relação religiosa.

    As pinturas que fez da Virgem Maria - uma doação muito generosa da Paula Rego ao Estado Português e que estão na Capela de Belém - chocaram muitos católicos porque representa a Virgem Maria como uma mulher de verdade. A parir de verdade na posição de uma parturiente tornando-a no fundo mais humana, mais mulher. Isso não é uma forma de desrespeito de modo algum, é uma forma até muito cristã de aproximar de quem nós somos. Encontro-me muito mais com Jesus e com essa história mítica - e não quero de modo algum ofender a sensibilidade dos católicos -, mas todos nós fomos aculturados na ideia de um Jesus, de um São José e de uma Virgem Maria. Celebramos o Natal, mesmo que não tenhamos nenhuma fé ou crença no nascimento do Messias que ali se celebra. Tudo isto faz parte de um fabulário a que a Paula era muitíssimo sensível como se mostra nesses quadros.

    O mistério era uma coisa que a fascinava. A magia daquilo que era o oculto, a presença de fadas e bruxas, as presenças misteriosas… Isso exercia um grande fascínio sobre a Paula.


    A religião tinha um papel importante na arte de Paula Rego?

    Acho que as histórias e o imaginário religioso a fascinam, o que é diferente. Não se pode desfazer isso do que era o Portugal no qual ela nasceu e cresceu, onde a religião tinha uma presença indissociável do Estado, muito punitiva da mulher, com uma moral católica muito castradora sobre o corpo da mulher.

    No filme do filho, Paula Rego fala de ter feito vários abortos e nós sabemos como isso era proibido em Portugal. Foi crime até muito tarde, como o aborto era feito em condições clandestinas e extraordinariamente perigosas para a vida das mulheres e para a saúde reprodutiva das mulheres.

    Também sabemos como a moral católica olhava para uma mulher que foi mãe solteira e a Paula. Quando regressou a Portugal para ter a primeira filha, não era ainda casada. Só casou com o marido mais tarde. Penso que a visão que a Paula tinha da religião católica não pode ser dissociada disto que ela sentiu na pele e do que era o catolicismo de então.

    Por outro lado, quando vai para a Inglaterra e se fixa, estamos num país anglicano, os fantasmas, com as suas representações na obra da Paula Rego e na maneira como ela é olhada por esta sociedade. A mulher ser alvo de uma proscrição social, de uma maledicência. Isto sim é uma atitude política. E isto era uma coisa que a Paula queria denunciar.


    Atualmente olhamos para a Paula com outros olhos?

    Já tínhamos estes olhos sobre a Paula porque felizmente esse reconhecimento deu-se em vida. Eu gostaria que a Casa das Histórias fosse reinvestida, de fundos e obras, apesar do trabalho notável que tem sido feito sobretudo pela Catarina Alfaro, que é a coordenadora da Casa das Histórias.

    Estamos a falar de uma artista imensa, com reconhecimento mundial, seria para mim uma grande alegria que os tantos turistas visitam Lisboa tivessem a visita à Casa das Histórias como roteiro obrigatório. Gostava que fosse reinvestido para que ganhasse uma pujança e nós pudéssemos, depois da morte da Paula Rego, continuar a celebrá-la e aumentar a amplificação da obra.

    A Paula Rego teve como última exposição inaugurada em vida uma retrospetiva no Museu Picasso, em Málaga. Isto diz qualquer coisa da dimensão da Paula Rego. Portanto, seria mesmo muito bom que também em Portugal este reconhecimento não esmorecesse, mas isto só se faz com fundos e com investimento na cultura que nós sabemos que é difícil. Mas pelo qual temos de lutar sempre e sempre.

    Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.