Pedro Abrunhosa: "A arte é lugar de acolhimento, de refúgio, de inclusão"
O músico português leva-nos numa viagem musical, sem esquecer o mundo que o rodeia.
Pedro Abrunhosa faz-se acompanhar pelos Comité Caviar para dar a conhecer o novo álbum e recordar os êxitos que marcaram uma carreira. É sábado, 24 de janeiro, e infiltramo-nos no Pavilhão Rosa Mota, no Porto, a sala cheia para ver o cantor na cidade onde nasceu e onde diz esperar para sempre ficar.
O espetáculo abre com poesia, e sem o cantor em palco. A introdução é feita numa tela iluminada apenas com um foco cor-de-rosa. O pianista dá o avanço até que Sofia Marafona, cantora lírica, se junta para dar voz a duas composições: ‘Dorme, basta-me essa luz’, de Daniel Faria, e ‘Deus ainda não terminou’, de José Tolentino Mendonça. A cor que se reflete entre o branco, vermelho e azul vai acompanhando intensidade do que é dito.
As palavras aquecem o público que, em ‘A.M.O.R’, o momento em que Abrunhosa es Comité Caviar surgem em palco atinge o ponto certo. Até à segunda canção, Abrunhosa está separado da banda por uma cortina semitransparente que divide espaços e deixa o cantor sozinho com o piano em primeiro plano. São precisas apenas as primeiras notas de ‘Se eu fosse um dia o teu olhar’ para que os aplausos encham a sala, entre danças com chapéus pretos, imagem de marca do cantor.
É à quarta canção, ‘É sempre escuro antes de amanhecer’ que Pedro Abrunhosa começa a arriscar com a plateia e toca músicas do álbum que saiu há pouco mais de uma semana, Inverbo. Cada vez que é tocado o novo projeto, a letra aparece refletida no palco, para que as pessoas possam acompanhar. Fala pela primeira vez ao público, ao agradecer por estarem no Pavilhão Rosa Mota, para testemunhar de uma forma simbólica a arte que defende ser "lugar sempre de acolhimento, de refúgio, de inclusão”. Prepara os fãs para a noite que avisa terá vários percursos e mais tempo do que costumam ter quando está de férias.
Pedro Abrunhosa e os Comité Caviar deixam-se ficar pelos ançamentos mais recentes e pedem ao público que cante a letra projetada em ‘Não te ausentes de mim’. O novo trabalho ainda tem muitas páginas em branco, mas o cantor quer que o público compreenda a história por detrás do que ouve: ‘Leva-me P'ra casa’ é uma homenagem oferecida a um amigo que perdeu a filha e Pedro oferece esta canção apesar de considerar que “as palavras são absolutamente inúteis”, mas ainda assim é aqui que apela ao público que entoar um cântico com ele: “todos temos razões para entoar um cântico, seja pela nossa dor ou pela dor de alguém”.
A luz das lanternas espalham-se pela sala, a pedido do cantor, em 'Devias vir salvar-me' , e por cá ficam nas estreias ‘Glória aos vencidos’, ‘Olha por ti antes de olhares por mim’ e ‘Esta saudade que não dorme’.
No canto esquerdo do balcão, um grupo de fãs dança com os óculos de sol como uma homenagem ao artista. O cantor destaca o quão bom é “tocar as músicas pela primeira vez frente a uma plateia esclarecida” que conhece os novos temas. É então que troca uns versos da música e admite: “o careca enganou-se” - algo ia projeção de letras torna inegável - mas acrescenta que na verdade só se engana “porque não está cheio de inteligência artificial”.
Ainda na missão de não deixar músicas por descobrir, conta a história de 'Oxalá o meu vestido ainda se lembre de mim': "uma senhora a quem em meados do século passado, no estado norte-americano do Alabama, não lhe foi permitido comprar um vestido para casar. Agora, décadas mais tarde, as filhas ofereceram o vestido proibido e fizeram um novo casamento. É aqui que se encerra a passagem por Inverbo.
Antes de continuar, faz um apelo: ‘Vamos fazer o que ainda não foi feito’ pela paz, esta pequena palavra tão pequena, para que as grandes decisões partam da “construção conjunta da paz, sem delegar as funções aos políticos por se tratar de algo de extrema importância”. Admite ‘Não posso mais’ e segue para assumir o papel de ‘Rei do Bairro Alto’, uma canção que chama de “muito antiga”. Durante o reinado pede ao público para que se levante e dance com ele.
O ritmo deixa-se ficar em ‘Acima & Abaixo’, com direito a fotografia, e em 'Socorro' o pavilhão torna-se numa discoteca, ao fazer uma interpolação com ‘Staying Alive’. Pedro Abrunhosa avisa que está quase a acabar, “há quem tenha mais que fazer, tenha deixado o assado ao lume ou o gato a fazer babysitting”. Antes de sair do palco pela primeira vez, encerra com ‘Ilumina-me’.
Quando volta para o encore, garante que os clássicos não ficam de fora e abre com ‘Eu não sei quem te perdeu’. Recorda os conflitos mundiais, com algumas fotografias, em 'Que o amor te salve', e volta atrás no tempo para uma viagem até à 'Lua’.
Antes de sair de cena, deixa um agradecimento com ‘Tudo o que eu te dou’, ao lado da soprano Sofia Marafona – que volta a palco para tocar a última música.
Pedro Abrunhosa e Comité Caviar apresentam o espetáculo no Pavilhão Rosa Mota, no Porto, entre 23 e 25 de janeiro, e segue para o Meo Arena, em Lisboa, a 31 de janeiro.
