"Por mais brilhante que fosse conseguir escudar a criança das notícias, vai levar na mesma com as consequências"
A coordenadora do Programa Psicologia da Paz e Direitos Humanos deixa o enfoque nos efeitos da escalada das tensões mundiais nos mais novos.
A escalada das tensões mundiais afeta os mais novos, mesmo que não saibam o que se passa.
O isolamento nunca é absoluto. A psicologa Ana Isabel Mota, coordenadora do Programa Psicologia da Paz e Direitos Humanos, enfatiza que a situação "não passa ao lado, porque aquela criança está no mundo". Mesmo que o tema não seja abordado em casa "outros pais não escudam as crianças, os próprios professores e funcionários estão a viver este momento. Além disso, o que se passa pelo mundo acaba por se refletir também num aumento da agressividade na rua e entre as criança - que quando ficam mais ansiosas e deprimidas, acabam por estar mais irrequietas e agressivas.
"Não pudemos, pura e simplesmente, tapar-lhes os ouvidos e os olhos. Fazê-los avançar na vida por uns tempos, sem ouvirem e sem verem nada. Por mais brilhante que fosse conseguir escudar a criança das notícias, vai levar na mesma com as consequências deste período que estamos agora a viver."
Ajudar os mais novos a entenderem o que se passa é fundamental. As crianças "só percebem que os adultos estão muito preocupados, então é catastrófico para elas" apesar de não compreenderem a situação: "estão a ver as movimentações dos adultos, a não perceber nada, sem ter, ainda, a experiência de vida para poder perceber que as coisas são cíclicas e mesmo que algo de muito mau possa vir a acontecer não é necessariamente para nós." O que chega acaba por ser a perceção do medo que também os mais velhos têm.
"Se o pai ou a mãe, que até costumam ser divertidos e riem comigo, de repente estão em pânico, a fazer contas à vida e a tentar perceber se é seguro estarmos aqui"
No dia-a-dia, é preciso ajudar os mais novos "a acalmar e relativizar". Pode ser um momento útil para ensinar a criança a "identificar e gerir emoções", com a compreensão de quem podem procurar e confiar se precisarem de ajuda. Apesar das escolas serem o melhor ambiente, todas as atividades podem servir para um momento de meditação e relaxamento: "respira fundo, faz aqui uma pausa". Em casos onde as crianças "são mais comportamentais", os balões podem ser uma ajuda "imaginar colocar a preocupação num balão e deixar ir." Uma forma de recuperar um pouco da normalidade.
