"Precisamos de continuar a trabalhar para que os adultos não se esqueçam de fazer os reforços vacinais" 

    A Diretora-Geral da Saúde, Rita Sá Machado, põe o foco na confiança, mas deixa a porta aberta a melhorias nas inoculações. 

    Em Portugal, 98% das crianças até um ano de idade receberam em 2024 todas as vacinas do Programa Nacional de Vacinação (PNV), segundo o Relatório Anual do PNV divulgado esta quarta-feira.

    À medida que a idade avança, a taxa de inoculação diminui, mas para a Diretora-Geral da Saúde, Rita Sá Machado, este não é o único ponto que precisa de melhorias.

    Portugal é uma referência a nível internacional na taxa de vacinação. Em tempos de desconfiança, como é que se conseguem manter os números?
    As coberturas vacinais de todas as vacinas no esquema recomendado do Programa Nacional de Vacinação permanecem muito elevadas, chegam até a 99% no final do primeiro ano de vida. É uma herança dos 60 anos do Programa Nacional de Vacinação, um programa que os portugueses e os residentes em Portugal continuam a confiar naquilo que são as vacinas e nos profissionais que trabalham nesta área e se dedicam para manter as coberturas vacinais elevadas.
    O importante é continuarmos. O nosso PNV é um programa que informa, é um programa de proximidade e é um programa que transmite um valor de equidade. Isto são fatores que mantêm esta dinâmica. 
    É muito importante não só focarmo-nos na vacinação, mas também nas equipas treinadas que estão todos os dias a responder a qualquer potencial caso ou suspeita de doença transmissível. Quando falamos do sarampo, sabemos que temos boas coberturas vacinais, mas também precisamos de ter no terreno a nível local equipas de saúde pública prontas para se houver uma suspeita de um caso de sarampo, poderem rapidamente agir e nós termos a certeza que existe uma proteção dessa população e que pode haver uma paragem de uma cadeia de transmissão.

    Ainda há espaço para melhorar?
    Claro, há sempre espaço para melhorar. Neste relatório do Programa Nacional de Vacinação 2024, vimos que em algumas vacinas conseguimos até aumentar 1%, por exemplo, na primeira e na segunda dose da vacina contra o sarampo e para o tifo epidémico e a rubéola, portanto existe sempre espaço para melhorar. 
    É preciso desforços consistentes ao nível dos serviços locais e, por isso mesmo, temos de manter este investimento numa medida de saúde pública importante para protegermos a nossa população.

    Este ano a vacina contra o vírus sincicial respiratório vai ser administrada a bebés mais jovens este ano. Há uma perspetiva de continuar a antecipar esta idade?
    No ano passado, foi a primeira do vírus sincicial respiratório, tínhamos crianças nascidas entre 1 de agosto e 31 de março, conseguimos alcançar nestas crianças uma cobertura de imunização de cerca de 86% e isso é um dado muito positivo. 
    O que vamos fazer agora, na próxima campanha de imunização que se inicia no Outono, em setembro e outubro, é abrir para mais dois meses daquilo que são os cortes de nascimento e por isso vamos proteger ainda mais bebés. 
    Aquilo que todos os anos a Direção-Geral da Saúde e a Comissão Técnica de Vacinação e Imunização faz é alterar ou fazer propostas de alteração destes esquemas, não só quando temos nova informação, mas também quando percebemos o impacto que estas medidas têm. Conseguimos já ver algum impacto, tivemos uma redução no número de internamentos das crianças com menos de seis meses por vírus sincicial respiratório e eu diria que no final da próxima época, iremos consolidar estes resultados e perceber de que modo é que esta campanha de imunização irá decorrer no ano seguinte.

    No país ainda temos algumas assimetrias geográficas. Como é que as conseguimos extinguir?
    O mais importante foi que conseguimos perceber, pela primeira vez, os resultados desagregados por município. O objetivo de termos estes resultados é exatamente informar para agir. É conseguirmos encontrar algumas dinâmicas e estratégias para atuar e desenvolver iniciativas que contribuam para aquilo que são as coberturas vacinais. 
    Sabemos que Portugal não é todo igual, que temos populações diferentes pelo país e o objetivo é conseguirmos também ter estratégias diferentes quando, neste caso, as necessidades assim o pedem.

    Somos uma referência no que toca à imunização dos mais jovens. Isso transpõe-se para as restantes faixas etárias?
    Como é habitual, no início da vida, as coberturas vacinais são mais elevadas. Se olharmos, por exemplo, para a vacina contra o tétano e a difteria, precisamos de continuar a trabalhar para que os adultos não se esqueçam de fazer os reforços vacinais. Do ponto de vista do adulto, apesar de elevados, continuamos a precisar de melhorar aqueles que são os nossos indicadores.

    É preciso colocar o enfoque nos reforços vacinais?
    Depende, isto é muito variável de doença para doença. Nós temos doenças onde o facto de estarmos imunizados é uma proteção para toda a vida, mas temos outras que precisam de reforço.
    O importante é que se tivermos um esquema vacinal inicial na vida adequado, nós sabemos de certeza que vamos ter um bom desenvolvimento e vamos chegar à idade adulta protegidos contra doenças transmissíveis que anteriormente resultavam em desfechos menos positivos, entre eles a morte de algumas crianças.