Regresso dos Mesa: "recebemos mensagens a dizer, 'que bom ter-vos outra vez'"

    O grupo portuense atua a 7 de maio na Casa da Música, no Porto, e a 15 de maio no Lux Frágil, em Lisboa.

    Os Mesa, que marcaram a cena musical portuguesa na primeira década do milénio, estão de volta aos concertos com a formação original, Mónica Ferraz e João Pedro Coimbra.  

    O grupo portuense atua a 7 de maio na Casa da Música, no Porto, e a 15 de maio no Lux Frágil, em Lisboa. Os dois concertos servem para celebrar os 20 anos da edição do álbum de estreia (homónimo) que, embora seja originalmente de 2003, foi reeditado em 2004 com o selo da editora EMI Portugal.  

    Os bilhetes para os concertos estão disponíveis na ticketline. A pré-venda dos ingressos para a Casa da Música (a 10 euros) termina esta sexta-feira, 31 de janeiro. 

    "Mesa" - o disco de estreia - foi considerado pela revista norte-americana "Billboard" como um dos 10 melhores do ano, tendo sido descrito pela publicação como "um álbum de estreia impressionante de uma banda portuguesa de trip-hop". O registo homónimo inclui singles como 'Esquecimento', 'Mímica Sísmica' ou 'Luz Vaga', sendo que em 2004 'Luz Vaga' contou com a participação especial de Rui Reinhinho.


    "Tendo como ponto de partida a revisitação dos temas mais icónicos da banda, como 'Vício de Ti', 'Luz Vaga', 'Cedo o Meu Lugar' ou 'Mímica Sísmica', está a ser preparado um alinhamento com muitos outros êxitos dos discos cantados em português que consolidaram os Mesa como uma das bandas que marcaram uma geração", conta o comunicado de imprensa sobre os espetáculos que chegou à redação. 

    Conversámos com Mónica Ferraz, que saiu do coletivo em 2012, e com João Pedro Coimbra, que está no projeto desde a sua génese, sobre o regresso do projeto e, claro, sobre os dois espetáculos de maio.  

    O que é que vos levou a voltar aos palcos?


    JPC: Este regresso acaba por ser uma oportunidade criada pela celebração dos 20 anos desde a edição do nosso primeiro disco [álbum homónimo de 2004]. Foi nessa altura que começámos a conversar sobre a hipótese de fazermos uma festa à volta do aniversário de lançamento do disco. É uma data redonda. Quisemos concretizar a ideia, mas, tendo em conta que estas coisas demoram sempre algum tempo, vamos arrancar agora com a tour. 

    Já que é a celebração dos 20 anos, quero saber se costumam pensar muito no passado ou se preferem pôr os olhos ao serviço do futuro. Ou ambos?

    MF: O passado é uma história. Temos uma história de 12 anos. E há magia nessa história. Nas nossas digressões e até em toda a construção [do projeto]. É algo que nunca se esquece. É como ver um filho crescer. Nós gostamos de recordar [esses momentos]. Ainda agora, mesmo antes desta entrevista, estávamos a ver vídeos nossos muito antigos. Toda a construção é muito importante. E é importante também para o futuro. É importante lembrarmo-nos de quem fomos e importa sabermos quem queremos ser ou quem queremos continuar a ser. 


    São muito analíticos a olhar para o passado?

    JPC: Somos muito autocríticos enquanto artistas. 
    MF: Muito… (risos)

    JPC: Faz parte do nosso processo enquanto artistas. Inevitavelmente, olhamos para as coisas que fizemos. Há coisas das quais gostamos muito e há outras que, eventualmente, teríamos feito de outra maneira. 

    MF: Faz parte do processo de crescimento. 

    JPC: E com o tempo aprendemos a relativizar. Mas é interessante olhar para o passado. Há coisas que na altura parecia que não estavam tão bem, mas até estavam. E vice-versa. É ótimo haver documentos, como vídeos ou fotografias, para perceber isso. 

    MF: Ter agora esses vídeos é algo muito banal, mas há 20 anos não documentávamos tudo que acontecia. Não registávamos todos os concertos ou as chegadas aos hotéis. Por acaso, até tínhamos um músico que adorava fotografia e que acabava por registar alguns momentos. Mas agora é diferente. Muitas vezes, as pessoas nem estão a viver o momento porque estão, distraídas, a filmar.

    JPC: É engraçado. Quando vemos essas filmagens percebemos que as pessoas estão muito descontraídas. Ninguém estava a pensar que aquele momento que estava a ser filmado ia parar ao Instagram. (risos)

    MF: Nem podíamos imaginar que um dia haveria uma plataforma desse género. Era um ambiente muito despreocupado.

    JPC: Num dos vídeos, por exemplo, vemos um dos elementos do grupo a fumar na recepção do hotel, algo que hoje em dia é completamente impensável. (risos) Está a ser um throwback engraçado não só em relação aos Mesa mas também em relação a tudo o que orbitava à volta da banda.   

    Como é que a passagem do tempo pode ter influência nesta nova era dos Mesa?

    MF: O nosso “diário pessoal” influencia sempre a nossa vida profissional. Ao longo de 20 anos, a nossa história pessoal também cresceu. Afinal de contas, amadurecemos enquanto músicos e enquanto pessoas. Acho que agora vamos desfrutar ainda mais daquilo que os Mesa são no presente e do que serão no futuro. 


    O que é que preservam do passado e o que é que pensam mudar no futuro?

    JPC: Desde o início que a invenção é algo particularmente importante para nós. Digo isto no sentido de desafiar o formato da canção. Falo de desafiar os típicos três minutos e a estrutura já definida. Nós gostamos de ir ao limite desse formato. É uma caraterística que encontramos em todos os discos dos Mesa. E isso tem a ver com a forma pessoal com que abordamos a música. Seja a Mónica a cantar ou eu a fazer os instrumentais. Tentamos sempre ir um pouco mais além. Acho que é essa a matriz que une estes 20 anos. Mas para perceberem no que é que isto se traduz na prática o melhor é irem aos concertos. (risos) Às vezes, quem está do lado de fora tem uma perceção melhor do que a nossa. Quando oiço um artista percebo que há algo nesse artista que une todo o trabalho que desenvolve. Acho que isso é algo muito interessante. Até certo ponto consigo perceber qual é a matriz fundadora dos Mesa e o que é que une toda a obra [do projeto], mas quem está de fora pode ter uma melhor perceção sobre isso. A música também pode ser uma obra aberta. Pode crescer com o feedback de quem nos rodeia e do público. É fruto do nosso amadurecimento, seja nos Mesa ou nos projetos a solo, mas também resulta da recolha de informação e da opinião de quem colabora connosco ou de quem nos tem ouvido ao longo do nosso percurso.  

    Como foi regressar aos Mesa?

    MF: É como se tivesse estado separada de um familiar. É como voltar a abraçar uma pessoa amada. O projeto nasceu comigo em 2000, 2001. Era muito miúda ainda. (risos) Acho que não altura não havia uma noção tão clara sobre aquilo que tínhamos em mãos. Fazíamos tudo de uma forma muito espontânea. É muito reconfortante regressar, voltar a pegar nos discos, escutar as músicas, ouvir todas as nuances [das canções] e recordar tudo o que vivemos no estúdio. É muito emocional.      

    E regressas com uma maior textura emocional que vai crescendo com a experiência da vida... 

    MF: Com toda a certeza.

    E estão a criar alguma coisa agora?

    JPC: Estão a acontecer coisas, mas ainda não podemos revelar o que é. (risos)

    O que é que estão a preparar para os concertos?

    JPC: O mais difícil é fazer o alinhamento. Gostamos de muitos temas e a equipa com quem trabalhamos também está a sugerir, de forma muito explícita, as preferências que tem. E os fãs também. (risos) Perguntámos aos nossos fãs o que é que gostariam de ouvir. Vai ser complexo enfiar quatro discos, cerca de 40 canções, num espetáculo. Gostamos de praticamente todas as canções. Vai ser difícil, mas estamos a tentar. (risos)

    Como é que se sentem sabendo que vão voltar a pisar o palco juntos?

    MF: Só vamos saber no próprio dia mas quando pensamos nisso ficamos arrepiados. É prazeroso estarmos a trabalhar juntos outra vez porque surgem as memórias de como nos encaixamos a trabalhar. É muito fluído. E isso não é algo que aconteça com todos os músicos. Há pessoas que são incompatíveis. Seja em termos de escrita ou nas ideias. Mas nós sempre encaixámos muito bem.   

    Quais é que têm sido as reações ao vosso regresso?

    MF: Mesmo depois de nos termos separado e de termos feito carreiras a solo independentes, os fãs continuaram sempre a seguir-nos. Sempre que podiam lembravam-nos dos Mesa. Agora ainda mais.  

    JPC: Temos esse feedback sobretudo através da venda de bilhetes. Está a superar as nossas expectativas, tendo em conta que a bilheteira só abriu há duas semanas. Acho que reflete a vontade que as pessoas têm em ver o nosso reencontro. 

    MF: Ainda agora um fã nosso mandou-me uma mensagem a dizer, “estou furiosamente a reviver a minha adolescência. Que bom ter-vos outra vez”. Isto é muito animador. É muito reconfortante ler estas palavras. As pessoas não se esqueceram. Antes pelo contrário, estão muito animadas por poderem ir ver estes concertos. 

    Além do tom inevitavelmente nostálgico dos concertos celebrativos do álbum de estreia, presumo que também queiram chegar a gerações mais novas...

    JPC: Sim. É algo muito importante para nós. A obra dos Mesa está espelhada em muitos lugares, em genéricos de telenovelas, filmes e noutras produções audiovisuais. E, muitas vezes, essas produções voltam a ser transmitidas. Isso ajuda a que cheguemos a públicos mais jovens, que descobriram Mesa a posteriori. Começámos a perceber que tínhamos uma geração mais nova a ouvir-nos, além dos fãs que já tínhamos. E essa foi uma das razões que nos motivou a querer voltar. Não é de estranhar. Na altura éramos acusados de sermos uma banda avant-garde, muito para a frente. Ao fim de 20 anos, estamos sintonizados com o mainstream. (risos)