Rod Stewart: o maquinão engatou... e encantou

    Concerto non-stop com uma super-formação, num alinhamento que foi um fartote de êxitos e de alegria.

    Pode estar em vias de extinção um showman do calibre de Rod Stewart, de plena voz e de alma ao rubro, senhor à altura para ser cortejado por uma formação fenomenal de 12 músicas em que a fasquia é sempre elevada. Os momentos desdobram-se em arrebatamento ou em intimidade, com todos a responderem à altura aos vários momentos que o multifacetado espetáculo pede, sem batotas musicais.

    Rod Stewart já tem 80 anos e dá voz a canções de engate, porque, valha a verdade, o homem é um malandreco. Como ser da trupe dos “Homens Que Preferem as Loiras” (a máxima do título do filme com Marilyn Monroe), são quase todas loiras a metade feminina que compõe a formação com tamanho estatístico de orquestra.

    As gaitas-de-foles celtas dão o toque bravo da pontualidade britânica às 21h00, em vez do Big Ben. São gaitas de folia que abrem sem demoras o concerto com os 13 todos empenhados, em ‘Infatuation’, com Rod Stewart no modo de rocker, todo acelerado, enquanto algum do público ainda se compunha, na busca das cadeiras certas. ‘Tonight I'm Yours (Don't Hurt Me)’ dá seguimento à forte entrada, também em modo de rock empolgado, desta vez repleto de desejos sexuais, livre de compromissos sérios, mas com um pedido sussurrado e repetido: ‘Don’t Hurt Me’, virado para o coro feminino. O M80tão (ou M oitentão) dá azo a um dos seus maiores êxitos rock, enquanto corre pelo palco como um rapaz irrequieto, com passinhos rápidos bons para dribles com bolas de futebol. As calças são ainda justas, como um rapaz de 18 anos, mas em estilo desengonçado porque a coluna já acusa o tempo.

    'It's a Heartache' muda o tom, canção aproveitada de outra voz rouca, de Bonnie Tyler, sobre uma desilusão amorosa. Rod Stewart baixa o fôlego otimista para o lamento choroso: “Oh, it's a heartache/Nothing but a heartache/Love her 'til your arms break/Then she lets you down”. É a primeira balada da noite, com Rod Stewart a ganhar calores e a tirar o casaco brilhante, ficando só com a sua camisa de folhos.

    Em Some Guys Have All the Luck, Rod Stewart dá um outro alento a uma música que no original (dos Persuaders) parece mais conformada. O queixume da letra contra a solidão mantém-se, a mulher linda que vê nos transportes públicos está nas mãos de um outro felizardo. “It seems so unfair when there's love everywhere, but there's none for me”. Mas em palco é só alegria. O público levantado cresce como cogumelos. O ar otimista está no ar, com a ajuda do esbracejamento do coro feminino de Rod Stewart, como se fosse a sua claque de cheerleaders.

    Quando a voz do cantor britânico toma o tema ‘Forever Young’, surge no ecrã uma brigada de gaiteiros-de-foles da Escócia, a inspirar em palco um sapateado, bombadas em tambores e arcadas em violinos por parte do Harém feminino de Rod Stewart, numa algazarra folk à escala de um musical. ‘The First Cut Is the Deepest’ é mais uma apropriação bem sucedida de composição alheia, neste caso de Cat Stevens, alteada pela voz rouca inconfundível de Rod Stewart. A interpretação do tema ganha o encanto do Jardim do Éden, com os solos dos violinos e dedilhados da harpa por parte do seu Harém no paraíso de Rod Stewart.

    ‘Tonight's the Night (Gonna Be Alright)’ é outro ‘hit’ do desfile cancioneiro do cantor. Rod Stewart é um homem dos tops, que tudo topa, em canções que despem tops, como esta, literalmente sobre sexo, como poucos cantariam - “Spread your wings and let me come inside” - embora a balada passe docilmente pela MEO Arena com lanternas de telemóveis no ar. Não nos esqueçamos, a banda de Rod Stewart é de topo e o saxofonista toma a frente do palco enquanto o showman faz o descanso de guerreiro sentado nos degraus rodeado pelo seu mulherio.

    Outro tema, nova ramboiada: ‘Young Turks’ é a nona canção do espetáculo em Lisboa, “They took a two-room apartment/That was jumping every night of the week”. O casal jovem que foge de casa dos seus pais é o símbolo da rebelião, em que o tempo não pode esperar para aquelas duas almas ansiosas. ‘Young Turks’ é rock & roll com sintetizadores, outra malha dos anos 80 que caiu no goto dos fãs. O público da MEO Arena apanha esta boleia do par fugitivo e canta cheio de alma, arrebatado pela paixão… pela canção.

    Décima música, eis um dos momentos altos do concerto. ‘Proud Mary’, clássico dos Creedence Clearwater Revival, é cantado pelo coro feminino, com exuberância vocal e coreografia exímia, num intervalo para o showman, que vai ao camarim fazer a muda de roupa e limpar o suor. Quando volta, não é para brincar, é mesmo para cantar ‘Maggie May’, um dos seus primeiros êxitos a solo, com o tal mandolim e um fundo de folk naquela panóplia rock. A canção autobiográfica é sobre a sua perda de virgindade desastrosa com uma mulher mais velha. Mas isso pouco interessa no espetáculo, o que importa é que a voz rouca do veterano que mantém o carisma nesta interpretação. 


    ‘I'd Rather Go Blind’ merece uma dedicatória de Rod Stewart à malograda cantora dos Fleetwood Mac, Christine McVie que lhe mostrou esta música de Etta James, uma amargurada canção de despedida amorosa. É nesse registo que a voz rouca de Rod Stewart se aveluda e os coros femininos se tornam ainda mais elegantes. O intimismo da música permite uma pequena precipitação vocal do cantor que ainda dá mais graça, ao romper da interpretação.

    ‘Baby Jane’ é outra canção de ruptura conjugal, mas em que Rod Stewart sente uma picada de orgulho e inverte o ânimo a seu favor: “The lesson learned was so hard to swallow/But I know that I'll survive”. Não é mera fanfarronice, pelo menos no rock alegre e glorioso, de anos 80 chapados, com um espírito de revitalização similar a Gloria Gaynor em ‘I Will Survive’. ‘Baby Jane’ ligou a pista da discoteca rock na MEO Arena, em que a formalidade da plateia sentada vai ao ar por muito que isso desagrade alguns seguranças mais zelosos. Já a canção ‘You’re in my Heart’ é dedicada aos ‘Lions of Lisbon’, a equipa do Celtic que foi campeã europeia de futebol em Lisboa, em 1967 - “algo que não voltará a acontecer”, avisa o cantor. Mas podem projetar imagens do Celtic que não nos conseguem distrair da sua fabulosa interpretação vocal em ‘You’re in my Heart’.

    ‘I Don't Want to Talk About It’ é outro fado amoroso em que Rod Stewart suplica à amada para que o enlace romântico não se desfaça. O público junta-se a essa súplica, cantando quase à capela, quando a banda abranda em fade out ilusório, antes de um pingue-pongue entre a voz de Rod e os sopros do saxofone.

    Rod Stewart já tem a cabeça na sua estreia ao vivo no Festival de Glastonbury marcada para este ano, dando já uma novidade: vai cantar ‘If You Don't Know Me by Now, de Harold Melvin & The Blue Notes, tema celebrizado pela versão dos Simply Red, ao jeito soul que Rod Stewart tanto aprecia e à qual a sua voz é capaz de lançar pós de magia. Nesta versão, volta a deixar bem evidente nesta noite a qualidade do trio dos coros femininos 

    É tempo de Rod Stewart fazer nova muda de roupa, com o sexteto feminino a cantar com ênfase o clássico disco de Donna Summer, ‘Hot Stuff’, um manifesto de uma conquista sexual emergente e aleatória numa noite sôfrega. É na aleatoriedade da noite que o Rod da sorte… gira a tábua redonda, que na MEO Arena é retangular e se chama palco, noutro habitat horizontal do cantor. ‘Da Ya Think I'm Sexy?’ é novo afrodisíaco da era desabotoada do ‘disco sound’, com a mais célebre canção de engate de Rod Stewart - “If you really need me just reach out and touch me” - a brotar desejos, num flirt que leva os dois estranhos para a mesma morada, nem que seja por uma só noite. Só que nem tudo é perfeito, nem mesmo num concerto de Rod Stewart. O momento de Rod Stewart e da sua comitiva feminina fora das vistas da maioria, no fosso do palco, acabou por tirar impacto sonoro que ‘Da Ya Think I'm Sexy?’ costuma ter ao vivo.

    Segue-se ‘Stay With Me’, tema dos seus tempos nos Faces, noutra canção de ‘one night stand’. Se é sobre uma prostituta ou uma groupie, a letra deixa a dúvida: “Red lips, hair and fingernails/I hear you're a mean old Jezebel”. A relação debaixo dos lençóis só dura enquanto o sol está debaixo da face da Terra. Em palco, o trio vocal feminino tem o seu momento de headbanging, num tema fermentado de blues. ‘Hot Legs’ é nova bluesada sem blusa, numa noite ainda mais acrobática, que transborda o colchão - “You got legs right up to your neck” - com Rod Stewart a abusar da pose machista.

    Passados os rock & enrollanços, ergue-se o sol e as saudades da amada longe. O corpo ‘disco’ acalma, a alma folk reaviva no hipnótico ‘Sailing’, vertendo Rod Stewart lágrimas oceânicas que têm que ser atravessadas solitariamente até acostar nos braços da sua paixão. É como se o alinhamento deste espetáculo fosse uma cronologia da digressão de um rocker, como Rod Stewart, que tem que terminar em ‘Sailing’, com a cabeça já mirada no regresso ao lar. Rod Stewart coloca o chapéu de marinheiro, elas também, antes de um agudo vocal de uma das cantoras, que soa mais bonito que um grasnido de uma gaivota, em pleno crepúsculo de ‘Sailing’. 

    O concerto é de tal forma imparável que o encore mal se dá por ele. A cortina volta a levantar-se rapidamente, para o fim em festa com ‘Love Train’. Rod Stewart atira-se então ao chão, como um miúdo cansado e a cortina volta a baixar, ao fim de uma hora e trinta e oito minutos de espetáculo.