Rodrigo Leão: "O Rapaz da Montanha é o meu disco mais português"

    Novo álbum sai nesta sexta-feira e é totalmente cantado em português.

    É publicado nesta sexta-feira, dia 25, o novo álbum de Rodrigo Leão, “O Rapaz da Montanha”. O disco foi trabalhado na sua casa do Alentejo, com a participação da família incluindo a mulher Ana Carolina Costa nas letras. Rodrigo Leão voltou a reunir-se com alguns dos músicos com quem tem trabalhado há décadas: Pedro Oliveira, João Eleutério, Celina da Piedade. “O Rapaz da Montanha” é um disco de casa, mas de uma casa de campo.

    “O Rapaz da Montanha” pode ser visto como um álbum conceitual?
    Eu acho que sim, mas não foi pensado como conceptual. Estou de seis meses a um ano a compor ideias muito diferentes umas das outras de forma a sentir ali alguma unidade. A verdade é que eu neste sabia de antemão o percurso que queria tentar seguir.  Primeiro, sabia que é um disco exclusivamente cantado em português. É o meu disco mais português. As pessoas estão habituadas a que nos meus discos apareçam aquelas influências que eu acho que estão presentes na minha música desde sempre, que vão do tango à música pop britânica, à música brasileira e à música clássica. Este disco acaba por ser muito marcado pela influência que o universo musical dos anos 70 teve na minha adolescência e por isso a utilização destes coros em alguns temas, algumas percussões tradicionais, adufes, bombos... E uma vez mais, é um disco que ficou com unidade nesse sentido, poderá ser um disco conceptual. Mas a verdade é que foi feito também com a cumplicidade que eu penso que costuma existir nos meus trabalhos, com os meus filhos, a minha mulher, os amigos que estão mais perto de mim, os músicos Pedro Oliveira, o João Eleutério, que produzem há muitos anos os meus trabalhos. O Pedro Oliveira também faz arranjos e acabou por cantar também em muitos destes temas. Eu não queria propriamente um corpo profissional, mas sim envolver as pessoas que estão mais perto de mim.  E portanto, este disco, nesse sentido, tem outra vez um ambiente muito familiar,  que no fundo é o ambiente onde eu me sinto mais à vontade.  

    Rodrigo Leão
    Rodrigo Leão

    Demorou mais ou menos quanto tempo todo este processo do álbum?
    É curioso porque este disco nasceu a partir de uma música que eu fiz com a minha mulher, a Ana Carolina, há uns 3 anos atrás e que ficou com um título que era ‘Cadeira Preta’, que não era para ser esse título, obviamente,  mas que nos habituámos e acabou por ficar. E pela primeira vez, no dia seguinte a termos feito esta composição, a Carolina escreveu, mas também me ajudou na melodia da voz. Tive assim uma visão muito nítida de um disco que poderia fazer a partir daquele tema. Na altura ainda estava a trabalhar no projeto do “Piano para Piano”. Eu sabia que só dois anos depois é que poderia pegar neste disco, que foi essencialmente trabalhado neste último ano.  Foi o disco que nos deu mais trabalho, ao ter tantos músicos, tantas vozes e tantas músicas cantadas. Tive uma pausa entre maio e julho, que acabou por me fazer bem, porque eu estava com muitas dúvidas em relação a alguns temas. 

    As letras da Ana Carolina vêm antes das músicas? 
    Não, é o contrário. Com exceção de uma música que não é da Ana Carolina, que é do Gito Lima, que se chama Estranho Imperfeito, a música surge primeiro. Eu tive a preocupação neste disco em cantar com a minha voz quase todos os temas com palavras que não faziam assim muito sentido mas para mim tinham de bater certas métricas. Só depois, experimentava as segundas e terceiras vozes e comecei a ganhar também o gosto por cantar obviamente nas partes que têm coro. Mas houve outras em que cantei sozinho mas com a ideia de que fosse sempre outra pessoa a cantar como, por exemplo, o Francisco Palma, um dos filhos do Jorge Palma – na canção ‘Andava eu…’. O Francisco caiu-nos do céu uma semana antes do disco estar terminado, portanto a minha voz não dava. A Ana Vieira encaixava bem, cantava muito bem o tema, mas estávamos habituados a uma voz masculina e por isso o Francisco cantou e ficámos muito contentes com esta colaboração.

    Este disco tem a marca do campo onde tu vives agora?
    Tem, tem sem dúvida.  Passo metade do tempo em Lisboa e metade em Avis, a uma hora e meia de Lisboa e é um sossego extraordinário ali no meio, sem vizinhos, no meio das oliveiras, com aquele céu extraordinário no verão. A única coisa que falta é o mar, que eu gosto muito, como o mar da Ericeira. Mas se Avis tivesse mar, teria 500 mil pessoas e 500 hotéis e portanto já não interessava.  Muitos dos temas foram compostos no Alentejo, nessa nossa casa.  E foram compostos também ao longo do ano em que comemorávamos os 50 anos de liberdade em Portugal. 

    Já que falas em 50 anos de liberdade, o tema ‘Guarda-te’ pode ser visto como de intervenção?
    É uma das letras que a Catarina fez e se pensarmos bem os direitos da liberdade das mulheres que graças a Deus mudaram ao longo destes últimos 50 anos, mas ainda há muitos sítios que parece que não, há coisas que não mudam e que continuam quase na mesma. Eu acho que esse tema fala um pouco sobre isso. 

    Também se fala neste disco de envelhecimento.
    O ‘Madrugada’. “Chegas a velho e os amigos foram andando”. É curioso que essa música realmente tenha uma letra pesada, forte, mas contrasta um bocadinho com a música, que não é propriamente triste.  No fundo, é como ‘O Rapaz da Montanha’, acho que todos nós temos algo com que não nos conformamos com esta realidade que vivemos no dia-a-dia. Simbolicamente, às vezes, vamos para o alto de uma montanha e olhamos cá para baixo e pensamos que há tanto por fazer ainda. 

    A tua música ao longo deste século tem sido caracterizada por uma certa leveza. Serias capaz de voltar àquele espírito mais pesado e austero, que caracterizou os teus primeiros discos, como o “Theatrum”. 
    Eu acho que seria capaz de tudo. O “Theatrum” foi um disco complicado, é um disco um pouco diferente de todos os outros. Mas tem muitas coisas que eu ainda continuo a gostar muito e seria possível voltar a fazer um disco outra vez mais duro, como tu dizes, ou mais sinfónico, mais pesado.  Há alguns temas mais leves também nesse trabalho, lembro-me do coro que gravámos na Namouche, que eram 60 pessoas.  

    Era uma altura em que eras mais influenciado por compositores como o Górecki ou o Michael Nyman.
    Eu fiquei muito impressionado e influenciado pela música minimalista do início dos anos 90, quando eu tomei conhecimento com a música do Michael Nyman, do Philip Glass, do Sakamoto.  E isso marcou bastante os primeiros discos. Essa influência e esse grande entusiasmo que eu tinha por esses compositores, continuo a ter.  

    Como é que vais transpor para palco este disco?  
    Nós tivemos a oportunidade já de ter feito três apresentações deste disco, onde tocámos praticamente todo o disco. Tocámos 12 músicas das 16 do disco, em finais de janeiro no CCB, e depois o meio março na Casa da Música. Eu fiquei muito contente com o resultado,  penso que conseguimos criar ali uma unidade com este disco, mas também com alguns temas antigos que ligam bem com este trabalho. A formação são 8 músicos. Claro que para estas apresentações convidámos o José Peixoto para tocar guitarra, o Gabriel Gomes, que tocou também acordeão além da Celina da Piedade e convidámos o Francisco Palma e a nossa filha mais nova, a Sofia, que canta também o tema que fecha este trabalho, o Vento Sem Fim.  Aliás, temos já marcados os coliseus em Lisboa no dia 19 de dezembro e depois em janeiro no Coliseu do Porto. Mas, antes, com certeza que haverá mais concertos para apresentar este trabalho. 

    O espetáculo vai ter também imagens, com um ecrã montado?  
    Este concerto não está pensado para ter imagem. Ao contrário dos últimos trabalhos que tinham sempre uma componente de vídeo, este não vai ter. 

    Os Sétima Legião têm uma vida em palco. Será que podem voltar a ter uma vida de estúdio? 
    Isso ninguém sabe ao certo. É evidente que nós temos falado nisso ultimamente. Não será este ano com certeza, mas se calhar para o ano que vem. Celebrámos os 40 anos em dois concertos na Culturgest, que era uma espécie de homenagem também ao nosso querido Ricardo Camacho [o falecido teclista dos Sétima Legião]. Este ano também fazemos seis ou sete concertos, o ano passado fizemos sete ou oito. Enquanto nos der gozo, sem dúvida que vamos continuar. Agora, é evidente que temos todas as ideias para fazer músicas novas e apesar de ser complexa a vida de todos os músicos, que têm muitos projetos paralelos, eu acho que isso não está posto de parte de todo.