Sam Smith: romântico e diabrete

    Na primeira noite do Meo Kalorama, Loyle Carner deixou também a sua impressão digital e pouco digitalizada.

    Tal como esperado, Sam Smith apresentou esta noite no festival MEO Kalorama o espetáculo Gloria em moldes praticamente idênticos aos do concerto do ano passado no NOS Alive, com pouquíssimas diferenças e uma ligeira moderação no “choque” visual. O concerto tem uma primeira parte de pinga-amores, em canções de recorte mais clássico e baladeiro, e uma segunda parte mais corporal e profana.

    A atuação de Sam Smith no Parque da Bela Vista, em Lisboa, começa com um grupo de seis pessoas a erguerem, tochas, até irromper naquele cenário rochoso, como uma aparição, o figurão Sam Smith, de roupas escuras, chapéu, muitos sorrisos e uma barba com um bigode pontiagudo daqueles que se usam muito agora. A canção inicial é Stay with Me, com Sam Smith a cair orgulhosamente na armadilha do sentimentalismo

    Em I'm Not The Only One, numa soul de coração destroçado, as estrelas são cada um dos espectadores que são exibidos com grandes e demorados planos nos ecrãs laterais. Like I Can é uma pop mais empolgada que a própria letra - “There may be lovers who hold out their hands/But they'll never love you like I can”, na qual Sam Smith acena para os vários locais da arena e puxa pelo público que se esforça para não o desapontar.

    “Sempre que venho a Lisboa, vocês são sempre o público mais extraordinário”, diz com muita simpatia Sam Smith, que volta a lembrar que “este espetáculo é sobre liberdade”, tal como afirmara no concerto no Alive de 2023. Na música Too Good at Goodbyes, os coros fazem-se ouvir um pouco mais, mas sempre com alguma dificuldade. Em Diamonds, Sam Smith muda um pouco a roupa e aparece de sapatos de grandes tacões, cantando como quem se sente usurpado na joalharia amorosa, embriagado naquele ócio musical da pista de dança - “Take all the money you want from me/Hope you become what you want to be/Show me how little you care”.

    Sam Smith apresenta How Do You Sleep? como uma das suas “canções favoritas”, em que tenta ser o fantasma da consciência da pessoa amada. O tema inspira Sam Smith e as cantoras dos coros a fazerem a mímica do gesto universal da dormida e é rematado por um solo de guitarra mais estridente. Dancing With A Stranger é a personagem de Sam Smith a aliciar-se com a infidelidade como forma de vingança. Mas uma coisa é a letra e outra é a performance, e nessa performance Sam Smith só mostra sorrisos e mais sorrisos.

    Nova muda de roupa. Na fase do alinhamento em Good Thing, Sam Smith regressa a palco de vestido insuflado e brincos que chegam ao peito - “Lisboa, gostam do meu vestido?”, pergunta ele. O cantor aproveita para lembrar os 10 anos que passam sobre o álbum de estreia, In the Lonely Hour.

    Na intro de Gimme, a banda, a tocar em cima da colina que é aquele cenário, conquista o primeiro plano, no arranque da II parte profana, com danças mais sexualiizadas e mais físicas, com um dos dançarinos a roçar-se em Sam Smith, agora de colete desportivo e boné. Segue-se Lose You, no fundo da fossa amorosa - “I'm begging you/I'm not ready to lose you” - em que pares de dançarinos se beijam e se repelem, empurrando-se.

    I'm Not Here To Make Friends é já Sam Smith no pragmatismo sexual, na madrugada, quando a música da discoteca sobe o volume. O simpático cantor está enfiado num vestido de folhos com as cores LGBT do arco-íris. 'Desire' é um passo ainda mais adiante, na transfiguração para a loucura, em que o corpo de dançarinos é a estrela, com movimentos frenéticos, a que se junta Sam Smith numa coreografia difícil mas curta. 

    As temperaturas na discoteca de Sam Smith não param de aumentar, como na versão gravada de I Feel Love de Donna Summer, em que o protagonismo volta a ser delegado aos excelsos dançarinos.

    Gloria é uma cantata encaminhada para o gospel, como um hino à alegria individual, que serve de intro a Unholy, o espiritual que se avermelha no mundo do pecado. Sam Smith termina de varão e de chapéu de cartola de cornos satânicos.

    Antes, na outra ponta do recinto, no Palco San Miguel, o londrino Loyle Carner provocou um pequeno acontecimento pelos melhores e mais musicais motivos. O rapper contemplou por mais do que uma vez a vista panorâmica do palco, impressionado com a imensidão de público e com a sua reação entusiastica aos temas de Carner. A sua banda teve que tocar de forma mais analógica, depois de terem perdido o equipamento electrónico de programações no transporte aéreo para Lisboa. Loyle Carner rappa, o baterista faz-lhe as batidas nos próprios tambores ao ritmo do hip hop, enquanto o resto da banda toca um contraste perfumado de soul que enriquece a paleta charmosa da música de Loyle Carner, que abriu a atuação com um dos seus temas mais célebres, Hate, numa enumeração típica de tudo o que está errado, e fecha com Ottolenghi, numa introspeção autobiográfica bem ao estilo de Carner.

    Num recanto escuro do recinto, o Palco Lisboa parecia uma estação temporal do ano de 1973, em que brilhava Jalen Ngonda com a sua soul clássica e os seus falsetes permanentes. À guitarra, comandava uma banda composta por um baterista, um percussionista nas contas e na pandeireta, um ótimo baixista e uma serenidade musical muito notívaga.