Susana liga a "outro mundo" num Grão de Pimenta: há luz depois de Kristin
Habitantes de aldeias próximas onde "está tudo devastado" têm ido a Leiria tentar recuperar um pouco de normalidade. Aos bombeiros chegam sobretudo pedidos de ajuda para reparar telhados.
Susana Silva é, por estes dias, a guardiã de "outro mundo". Não porque tenha mudado de planeta, mas porque é no café Grão de Pimenta que muitos procuram um refúgio para ter acesso a energia elétrica e ao mundo moderno, já que a depressão Kristin os pôs a viver há alguns séculos atrás.
"Tem sido difícil, não só para nós mas para toda a região. Tentamos sobreviver com aquilo que temos e o melhor que podemos", conta à reportagem desta rádio no local. O negócio tem-se mantido, mas a "intenção", garante, é ajudar os outros.
E a ajuda depois da Kristin tem a forma de uma tomada. "São várias" as pessoas que chegam ao café à procura de uma e "pedem para carregar tudo o que é aparelhos eletrónicos".
"Eu acho engraçado", comenta Susana, "dizem que parece que estão a viver noutro mundo". E o mundo é outro porque "nas aldeias de onde vêm não existe nada, está tudo devastado".
Do outro lado da estrada da rua de Tomar está o quartel dos Sapadores de Leiria. Ali perto está também o hospital de Santo André e Susana reconhece que, por isso, o Grão de Pimenta está numa "zona primária para repor a energia".
Tornou-se numa espécie de oásis energético desde cedo: se a depressão Kristin desligou muitos locais da rede na noite de terça para quarta-feira, no café já havia eletricidade "perto das 18h00" de quinta-feira.
Cenário diferente - e incomum - em relação ao resto do distrito de Leiria, onde de acordo com o mais recente balanço da E-REDES ainda há 110 mil clientes sem energia. E mesmo assim, o café de Susana não escapa às falhas de energia que "não são constantes, mas em picos". A água também tem faltado, mas pensa que "já está reposta".
"Não garantimos que fazemos, vamos tentar fazer"
Ricardo Aparício, chefe de 2.ª classe, também está numa porta que dá acesso a um mundo um pouco mais normal. Ou que tenta dar, já que esta segunda-feira é "o primeiro dia mais calmo" no quartel dos sapadores de Leiria.
"Aos poucos as pessoas vão conseguindo, pelos próprios meios, pessoas que façam trabalhos" em casa, ou recorrem à ajuda de "amigos e vizinhos para resolver as coisas mais fáceis".
A que mais lhe é pedida é a ajuda para reparar telhados, já que as telhas voaram e atualmente muitas são "as chamadas telhas-sanduíche, que são autênticas velas quando apanham vento. Voam e causam danos". Outro problema têm sido "as árvores caídas para cima das casas e afetam paredes e telhados".
Não consegue fazer contas à quantidade de pedidos de ajuda, mas aponta para "entre 1200 e 1500" só entre quem vai diretamente ao quartel pedir ajuda.
"Tentamos explicar que as nossas capacidades são finitas e não conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo. Em muitas das situações que aceitamos, chegamos ao local e deparamo-nos com uma situação ainda mais complicada do que a que prevíamos", o que atrasa quaisquer ajudas que estivessem prometidas como seguintes.
Um desses casos, vivido por Ricardo, foi o do corte de uma "árvore de grande porte" na última quinta-feira: devia ter demorado "três a quatro horas, mas ao fim de seis" ainda estavam no local.
"Há sempre estes pequenos imprevistos e é isto que tentamos transmitir às pessoas que aqui vêm: não garantimos que fazemos, vamos tentar fazer. Mas não damos prazos", vinca.
Dentro do quartel funciona um centro de apoio que reúne sob o mesmo teto a PSP, a GNR, os bombeiros, os presidentes das juntas de freguesia, a E-REDES e a Cruz Vermelha.
Entre quem pede ajuda há pessoas mais velhas que não têm materiais nem capacidade para recuperar as casas e por isso vão à procura de alguém com a experiência necessária para as obras de emergência.
Nove pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois três óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.


