Teresa Ricou, entre o circo e a educação

    Tété foi uma das primeiras mulheres a atuar em Portugal enquanto palhaça. Há mais de cinquenta anos a cruzar a educação com as artes, a fundadora do Chapitô conta o caminho até ao circo.

    Teresa Ricou traz uma vida de histórias que cruzam continentes e dão origem a uma das mais reconhecidas escolas artísticas portuguesas, o Chapitô. 

    Foi na esplanada do emblemático espaço na Costa do Castelo que conversámos com Teté, a mulher palhaça sobre as histórias que marcaram o seu percurso e aquelas que guarda para o futuro. 

    Qual é que é a primeira memória de uma casa que tem? 
    Nós fomos para África, tinha dois anos... Eu e a minha família - somos muitos irmãos, somos sete -, não me lembro grande coisa daí assim. Íamos e vínhamos, parávamos na terra onde eu nasci, que era ali assim Espinho nas praias, naquelas praias do Norte.  Aquilo era maravilhoso...  Agora, para nós, por um lado, era maravilhoso, por outro lado, era um bocadinho assustador porque a gente vem das Áfricas com uma imensidão de pensamento, chega a Portugal e aquilo é um cochicho, uma coisinha ali pequena. Não se pode pôr o pé ali, não se pode fazer assim, quer dizer, tudo aquilo era muito estratificado e a gente vivíamos um bocadinho na liberdade, orientada. 
    A minha primeira imagem são as imagens do Norte, que são bonitas, maravilhosas. Hã, agora tem um senão ali, muita pobreza, muito frio, o pé descalço. E era preciso acabar com isso, eu continuo ainda nessa guerra. Acabar com os pobres, baixar os ricos e equilibrar tudo. É preciso que essas coisas avancem cada vez mais e revolucionariamente, as coisas estão a andar para trás. Eu não sei como é que vai ser. 

    Na África, estava rodada por animais selvagens... Tem memórias disso? 
    Tenho, isso total, porque fui crescendo lá. Estava já lá no interior das Áfricas, em Cazombo num meio muito interessante, no interior... No espaço mais profundo das Áfricas, porque eram os povos isolados do mundo, porque ainda era contagioso. 
    Vivíamos nessas terras mais isoladas e onde havia sempre a missão. A nossa casa era uma casa África, com colmos, barro, terra... Às seis da tarde, o pôr-do-sol era feito pelos leões, pelos tigres, pelas jiboias. Havia na terra os Moquiches, uma espécie de arautos que vinham todos vestidos à sua maneira avisar que era para ir para casa, porque os leões estavam a sair para o seu terreno, que era o fresquinho. Por isso, nós tínhamos de nos proteger em casa, encostávamos os sofás às portas para não abrirem, porque era tudo muito precário. Eram momentos assim, muita liberdade, mas condicionada por causa da lepra, por causa da miséria e por causa das Áfricas. 

    Deixa os estudos muito cedo para começar a trabalhar.
    Completamente, mas já era mais crescida. Tinha dezasseis anos e não queria estudar mais. Já tinha feito o quinto ano e o que eu queria era mesmo aprender com a vida. Então pus-me a caminho de trabalhar, ter meu dinheirinho e ter minha autonomia. O meu pai era médico em Luanda, aproveitei e fui pedir emprego a um cliente do meu pai que era da Pfizer. Fui bater à porta do Sr. Manel, perguntei: “Tem um trabalho pra mim?" Bom, ele ficou meio assustado, filha do doutor. Disse-lhe que precisava do meu dinheirinho e lá me deu trabalho. Fui para trás do balcão, colar as etiquetas nos remédios. 
    Os estudos é uma coisa que me implica na vida. Sou uma pessoa de me informar, de investigar, mas não sou pessoa de estudar aquilo que me estão a ensinar não é o que eu quero aprender. Estive nos colégios todos com as freiras, porque o meu pai tinha a ambição de que eu fosse uma rapariga fardada de freira, mas a coisa saiu ao contrário. Veja bem, fui parar ao circo, e pintar a cara. Elas pintam-se também, os fatos delas. 

    Quando volta para Portugal, no final da década se sessenta, cria o projeto Casa Criança. É a primeira vez que o trabalho passa pela educação.
    É uma pequena nota junto das crianças que andavam para aí, na altura ainda do fascismo. Antes do 25 de Abril, havia crianças que andavam para aí no meio da rua de pés descalços. Via muitos desses miúdos, os que eram ardinas na altura, no Cais do Sodré e no Parque Eduardo VII.
    Estava uma livraria perto do Parque, de um grupo que era o Fanhais, o Padre Felicidade, o Vilaça... Conquistava esses miúdos para irem comigo para um sítio que era num sótão nessa livraria, fazia pinturas com ele e escrevia histórias, já estava a fazer a minha parte da educação, começa por aí exatamente. É dos primeiros projetos. 

    Nesta altura, este projeto acaba por, de certa forma, estar conectado com a LUAR e isto leva a que esteja na mira da PIDE. 
    Simpatia. Exatamente, estava ligada. Estas movimentações sociais incomodam muita gente, não é? Incomodam até quem está de boa fé... Isso atrapalhou e, de repente, a PIDE começa a dar conta de que há ali uma movimentação social e vai atrás. Os meus colegas informam-me e eu acabo por desaparecer rapidamente para Paris, acabo por fugir à PIDE, que eepois vai ter a minha casa bem mais tarde, mas eu já não estava lá. 

    Na década de setenta, antes de ir, tenta pela primeira vez entrar neste mundo que é o circo e ser uma mulher palhaço. A resposta por cá não foi positiva. 
    Não foi, nem por cá, nem por lá. Eu fui-me instalando, fui-me impondo e desenvolvendo esta minha arte, a vontade de pintar a cara. 

    Como surge essa vontade?
    Eu gostava muito de fazer rir. Nos colégios estava sempre a animar, estava sempre de castigo, com orelhas de burro à porta. Ficava na entrada à porta, lá estava eu de orelhas de burro, mas sempre a fazer graça às pessoas que. Mas não fazia palhaçadas, palhaçadas é outra história. 
    Depois a cultura também se vai embrenhando aqui dentro e eu começo a perceber que há outras pessoas com vontade de fazer isso, não na área do circo, mas na área da mímica, do movimento. Em Paris encontro uma pessoa que me indicou um caminho, fui atrás e já nunca mais perdi o caminho. Para exatamente pintar a cara e estar em cena.

    Encontrou a pessoa certa para entrar no circo em Paris.
    Era uma mulher muito interessante, a Maria Cabral, que foi uma grande atriz, participou no filme O Recado, do Fonseca e Costa. Estava lá nessa altura, muito mais à frente de mim, já na escola de mímica, que era um upgrade. Eu ainda estava a chegar, por isso comecei pela rua a marcar o meu lugar, a ver como era e a aprender a estar. A escola era muito cara. Então tinha de trabalhar e arranjar dinheiro para pagar. 
    Mas foi pela mão da Maria Cabral. Ela é que me abriu portas. Depois eu fui para o circo e ela continuou como atriz. Uma mulher muito interessante. 

    Já havia esta vontade, mesmo antes de França. 
    Faltava a abertura. O Solnado, que era um grande amigo meu, disse: "Epá, Tété, aqui não dá, o melhor é procurar outro lado." E o Covões disse logo: "Não, minha senhora, ficava aqui a fazer uns contorcionismos e umas coisas.” 
    Era uma coisa fora da caixa... Mas foi engraçado, depois eu aprendi em França aquilo que vim fazer depois para aqui. Já havia mulheres, mas estavam sobre a égide do marido ou do filho, eram as terceiras, porque a mulher no circo é a partner, em part-time. Sempre um papel secundário.  
    As palhaças que havia, nem se sabia que eram mulheres ou eram homens, porque estavam sempre vestidas de homem. Quis afirmar-me, ao fim de um tempo, depois de trabalhar com o Luciano, que encontrei no sindicato. Ele ninguém o queria porque era muito velho. Bom, ninguém me queria porque eu era muito gira. Então eu lhe digo-lhe: “Ó Sr. Luciano, era bom se ficássemos os dois”. Ele até apanhou assim um susto. Foi fantástico. Foi um grande encontro. 

    Não se desanimou ao perceber que o caminho ia ser difícil e ia ter de batalhar?
    Eu não tinha percebido que ia ser tão difícil quanto foi. Aliás, tinha até uma certa ingenuidade, porque acredito que há espaço para toda a gente. Depois sou decidida: vou atrás, não peço licença. Às vezes tropeço, outras vezes não tropeço. Isso às vezes incomoda e as pessoas têm necessidade de ter o seu espaço de afirmação. 

    O primeiro circo onde esteve foi durante a passagem por França.
    O Circo Amar e depois fui parar a um outro circo, o Circo Bonjour, onde encontrei o Zé Mário Branco. Quando eu parto para Portugal e vinha pra fazer a revolução, com o Mário Soares, já havia ali uma confusão: Quem é que vai? Quem é que vai primeiro? Vai com quem? Percebi que havia ali uma procura de um certo protagonismo, um falso protagonismo. E eu decidi logo: "olha, vou-me embora sozinha", fiz a minha carrinha e vim por aí fora. 

    Como foi a chegada?
    Começa a minha outra vida já no circo, por via do sindicato e da classe circense. Quis saber exatamente como é que ela funcionava, e foi uma grande desilusão. Uma miséria. Estive com eles durante muitos anos, andei a fazer vida com os circos e a perceber como é que era na minha carrinha com o Sr. Luciano. É uma grande desilusão, porque Portugal não se ocupou, culturalmente ou socialmente, dessa classe. O sindicato desmoronou. Os artistas de circo também desacreditaram, são chamados o lumpemproletariado. Esta sociedade que está criada, estão sujeitos a uma vulnerabilidade do mundo.
    Quando voltei, pus ao serviço a minha arte, para transformar Portugal. O meu contributo estava aí. Estive em Miranda do Douro, com o MFA. Eles eram os revolucionários, foi muito importante. Nesta simbiose com a sociedade civil, foi muito interessante. Participei na parte das animações, da alfabetização. Entre o Norte, Miranda, e o Alentejo, Odemira. A inaugurar as estradas que eles faziam pra chegar ao outro lado da serra, porque não se chegava lá. As pessoas no rio ficavam do lado de lá à espera que baixasse. Um Portugal absolutamente profundo. 

    Sentiu-se acolhida? 
    Completamente. No entanto, em Miranda do Douro tive grande dificuldade com os padres. Para entrar dentro de uma escola ou de um centro, tinha primeiro de conquistar o padre. Se o padre não alinhasse, as coisas não corriam bem. Então a demorávamos algum tempo. Depois de muito diálogo fazíamos espetáculos para os miúdos nas escolas. Fazíamos as fotografias e depois íamos apresentar à noite para a população em geral. Umas cordas com as molas, coisas assim extraordinárias. 

    Quando começa a fazer os primeiros solos?
    Sozinha quando o Luciano morre. Até porque ele era bravo, não gostava muito que as pessoas se rissem quando eu fazia alguma coisa. Dava-me cada vassourada, quando as pessoas aplaudiam um bocadinho mais, ficava enervado. Morreu, foi muito difícil. 
    Estive ainda com a Elsa Galvão, uma temporada, ela a fazer o palhaço rico e eu fazia o pobre. Daí comecei a assumir, realmente trabalhar de saia.

    Só caíram as calças? 
    O buço mantinha sempre. As calças é que caíram e eu acabei por agarrar as saias. Era inspirado nas mulheres do Alentejo, a solidariedade delas. As galinhas, a vassoura, comecei a dar forma a essa personagem e correu bem. 
    Tive um grande apoio do Nuno Carinhas e do Ricardo Pais. Gente boa e do espetáculo que percebia o que era e que até apreciavam aquilo que eu fazia. Faço “Uma partícula de circo”, uma coisa tão simples, tão banal. Um fotografo e jornalista alemão apanham-me aqui no Alentejo. Ficou tão espantado, aproxima-se e eu vou parar ao Festival Internacional de Berlim, com o tema “O Circo”. Cheguei ao aeroporto, com o meu violino todo arrumado e o meu cestinho, com a galinha lá dentro. A passar de uma fronteira para a outra, que fazia espetáculos no Berlim Este e no Berlim Oeste. Andava com a galinha, dizia "Está calada" para ver se ela passava despercebida. Tinha o passaporte e tudo. Uma galinha pequenina, uma coco, dentro do meu casaco.
    O Festival em si era uma coisa brutal, Cathy Berberian a cantar ópera à entrada. Ganhei um prêmio no festival, porque era uma coisa tão fora de tudo. Quando eles viram a galinha voar da minha casaca, eu percebi “está ganho”.  Relaxei e tal, fiz o resto da palhaçada toda. 
    Depois fiz espetáculos em muitos sítios, corri o mundo. Fui à China, à Hungria, andei pra aí. Com a minha galinha e atrás. Eu e ela, ela e eu.

    A galinha foi sempre a mesma? 
    Não, mas elas vivem ainda cerca de seis anos e as galinhas são muito espertas. Têm um problema, que a dada altura a gente quer entrar em cena e ela não anda. Não lhe apetece, põem ovos e tem de se guardar o ovo.  Só depois é que saltava para cima da cabeça. Mas era uma galinha, não era um pássaro. 
    Foi uma grande história e uma grande companhia. Das coisas pequenas se fazem grandes.

    Quando se estabiliza em Portugal, como arranja este espaço na encosta do castelo para o Chapitô?
    O meu trabalho depois de tempo, pela rua e alfabetização. Continuei pelos bairros mais pobres. Fui ter ali à escola Francisca Arruda, aonde estava exatamente o Calvet de Magalhães. Pertencia a um núcleo de intelectuais e cinema. Eu apercebi-me nessas atividades de alfabetização que podia juntar as artes do circo à educação.

    Colaborou com a Gulbenkian e criou a Escola Circo Mariano Franco. Foram um conjunto de iniciativas que serviram de sementes para chegar até ao Chapitô? 
    Foi sem dúvida. Os jornalistas daquela altura - Alice Vieira, Mário Castrinho - acompanhavam aquilo que se fazia e ajudavam-nos muito. Começavam a sair muitas coisas nos jornais e a dada altura começou a chamar à atenção.
    A dada altura, a Gulbenkian chamou-me para lá ir falar da minha história. Estavam lá dois juízes, que vieram falar comigo para trabalhar com “jovens complicados” - era um dos centros educativos onde eu estou ainda. Queriam que eu ficasse lá pela justiça, ofereceram-me prémios, mas eu queria era que a coisa fosse reconhecida. Expliquei que estava à procura de um espaço pra ensaiar, porque estávamos sempre a trabalhar nos cafés. Fui ver os sítios que estavam livres e encontrei este. Por acaso era o Tribunal de Menores. 
    Começa aí um outro romance. Para fazer o projeto escrito com amigos, na altura Paulo Freire e Sérgio Niza, já estava a lidar na educação alternativa. Juntar as artes com a parte de educação oficial. Procurei entre amigos alguém para me ajudar com o projeto de arquitetura. Depois de algumas recusas, liguei de uma cabine telefónica ao Taveira. Disse-me para ir ter com ele e aceitou fazer o projeto, pôs logo a assistente ao meu serviço e a acompanhar. Fez-me o projeto e a maquete.
    A construção foi toda em material reciclado. Tudo isto é das casas em demolição, estava o Abecassis na Câmara de Lisboa. Às sete horas da manhã estava à porta da Câmara para dar entrada e poder ir buscar coisas aos armazéns. Arranjei um apoio grande, o Taveira abriu-me as portas e trouxe-me os Soares da Costa, uma empresa de construção civil. Foram oitenta mil contos na altura, cinco anos de trabalho. Entrei com o meu primeiro dinheiro, depois veio a Soares da Costa e depois, já com o projeto em andamento, vem o Fundo Social Europeu. Tem estes três componentes.

    Era mestre de obras da casa.
    É um facto, foi construído e houve muitas histórias pelo meio também. As pessoas não acreditavam e não percebiam a importância. Eu, sem me distrair, andava aqui todos os dias. Na vida temos de fazer a manutenção. Às vezes é chato, porque é repetitivo, mas se tivermos a capacidade de criar, enquanto repetimos, criamos outras coisas. São quarenta e tal anos. 

    Mais de quarenta anos de história do Chapitô, é muito tempo. 
    Foram muitas fases, não só fases do país, como fases do mundo, da cultura, da sociedade, das tecnologias. Houve uma altura em que as tecnologias apareceram e sugaram-nos um bocadinho. O Chapitô já passou por tanta mudanças...

    Vai gostar de ser lembrada sempre como a obreira desta instituição? 
    Não me interessa nada, nem medalhas, não me interessa ser matriarca, nada disso... Interessa-me o que está a fazer e o que é que é. Isto depois tem de andar tudo. O meu lugar como artista dei aos outros e estou muito bem. 
    Por outro lado, este tipo de espaços é uma coisa que tem de ser serviço público total. Isto devia acontecer em cada bairro. Só tem de haver pessoas que invistam nisso e que façam.

    O que é que ainda lhe falta fazer? 
    Nada. Agora quero descansar, criar, voltar a tocar trompete, arrumar as minhas coisas -o meu camarim, que tá à minha espera-, coser meias, estar sentada um bocadinho, ver o mar, estar com meus amigos... Eu perdi os meus amigos todos, porque perdi  o meu tempo a estar aqui, a tomar conta disto. Foi um tempo que eu não estou a conseguir recuperar. Agora, não estou a reclamar, mas é uma realidade que as pessoas têm de ter noção, porque isto depois vira uma instituição. Costumo dizer: "Eu não sou uma instituição, eu sou projeto em construção". 
    Não vale a pena insistir, porque uma instituição, para mim, instalou. Chegou e instalou. As pessoas têm de estar em movimento. 

    Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.