The Script na MEO Arena: guião para uma noite feliz

    A banda irlandesa regressou a Portugal com um álbum novo, confetti e muita gratidão.

    Os irlandeses The Script atuaram ontem à noite na ampla MEO Arena depois de em agosto terem surpreendido os fãs que têm em Portugal com uma atuação mais intimista e solarenga na esplanada de um bar irlandês em Viseu. 

    O mimo de verão antecipou mais um reencontro entre os Script e o público português que nos parece ser uma inevitabilidade. Por cá são recebidos de braços abertos e tamanho acolhimento é um conforto que não esquecem. 

    O grupo irlandês está então na estrada para promover "Satellites" - o álbum que lançou em 2024 e que foi editado depois da morte repentina do guitarrista Mark Sheehan, que morreu em 2023. 

    A tragédia abriu uma ferida no core da banda mas não a afastou da estrada, ainda que tal desfecho tenha passado pela cabeça de Danny O'Donoghue e de Glen Power. 

    Certo é que ainda não era a altura para escrever a palavra "fim" nesta história. Sem anular a dor profunda do luto, os irlandeses optaram por adicionar mais linhas à narrativa. Não se afastaram das edições nem do palco. A opção é continuar e a palpável conexão que têm com os fãs ajuda na cura. Como disse ontem Danny O'Donoghue, "somos família. Isto é amor". 

    A história dos Script tem sete capítulos discográficos. É uma história para continuar a ser cantada. O alinhamento do espetáculo foi, por isso, um roteiro pelos vários álbuns que assinam, desde o homónimo, com o qual se estrearam nos discos em 2008, ao mais recente. 

    A sala está completamente às escuras até que uma festa de percussão revitaliza a MEO Arena após o intervalo que sucedeu ao concerto, curto mas quente e intenso, de Tom Walker, que regressou a Portugal com o recente álbum "I Am" debaixo do braço.

    Por volta das nove da noite, o grupo vai assumindo, aos poucos, as posições no palco. Só falta Danny O'Donoghue que está algures na sala mas não no palco. Opta por outro caminho. O frontman chega como gosta, no meio do calor da plateia, com óculos de sol e um casaco preto salpicado com brilhantes. Antes de subir para junto dos colegas saúda e dá as mãos a quem está na linha da frente. Ouve-se 'You Won't Feel a Thing', do disco "Science & Faith".

    Os Script abrem o espetáculo com energia para dar, vender e emprestar. Logo ao primeiro tema, O’Donoghue já pede palmas. É, aliás, um hábito que o músico irlandês mantém ao longo de todo o concerto. A plateia não esmorece. Os braços ondulam no ar e as vozes multiplicam-se pela arena. Ouve-se 'Superheroes'. "Temos um grande espetáculo para vocês esta noite", diz o vocalista antes de se atirar a 'Rain'. 

    Danny O’Donoghue aponta para o público, orquestra quem tem aos pés e, a dada altura, desce para o meio da plateia (claramente o seu habitat natural) para dar o microfone a quem encontra pelo caminho. Vive-se uma comunhão feliz debaixo de uma chuva de papelinhos coloridos que, após a explosão, ficam a esvoaçar levemente no ar.

    Segue-se a mais recente 'Both Ways', de "Satellites", e a tradicional apresentação da banda. 'Six Degrees of Separation', do álbum 3# (2012), vem depois. 

    Breve compasso de espera até a arena lisboeta adivinhar que ia ouvir uma das mais esperadas. O êxito radiofónico 'The Man Who Can't Be Moved' foi recebido com gritos eufóricos e mereceu uma ovação prolongada no final. 

    A reação do público parece ter comovido Danny O’Donoghue que nesta altura já tinha trocado o casaco de brilhantes por um de cabedal. Sentado no palco, com o rosto suado, o frontman agradece e contempla o mar de gente que parecia querer aplaudir o momento até o sol raiar. "Esta é a razão pela qual voltamos sempre a Lisboa", exclama antes de entregar a voz a 'The Last Time'. 

    'If You Could See Me Now' é tocada para Mark Sheehan, avivando e homenageando aquela que será uma presença constante, embora agora fisicamente ausente. "Quero olhar-vos nos olhos e agradecer o apoio que nos têm dado nos últimos anos", confidenciou o músico. "Perdemos o nosso irmão. Fomos ao inferno e voltámos. Mas sei que ele olha por nós. Não só ele mas todas as pessoas que perdemos. Estão todas à nossa espera. Uma dia vamos poder vê-las outra vez", acrescentou antes de homenagear o amigo com uma canção que ambos compuseram há mais de dez anos.

    Escuta-se depois 'Inside Out', outra do novo disco e mais um pretexto para o frontman pedir palmas, agora com a guitarra nos braços.  

    Na hora de 'Never Seen Anything Quite Like You', Danny O’Donoghue chama uma fã para o palco para o “ajudar” ao piano. A escolhida foi uma menina chamada Camila que também era a dona de um cartaz que lembrava, mais uma vez, Mark Sheehan. "O Mark ficaria orgulhoso de vocês", lia-se na cartolina que Camila tinha nas mãos e que momentos antes tinha chamado a atenção de O’Donoghue.

    Mais um salto no tempo para o primeiro capítulo da história dos Script com 'Before The Worst', do álbum de estreia. "É uma das nossas primeiras canções. Nessa altura, vivíamos em Los Angeles e não tínhamos dinheiro", lembra a voz do quarteto que mal terminou o tema voltou a descer do palco para cantar 'Nothing' aconchegado pelo calor da plateia.   

    Ouve-se 'No Good in Goodbye' antes da festa irlandesa que ocupou a sala ao som de 'Paint the Town Green'. Danny O’Donoghue, coberto com um casaco/manto aos quadrados, avisa que está quase a chegar o Saint Patrick's Day, dia do padroeiro da Irlanda que se celebra na próxima segunda-feira, e aproveita o balanço festivo para fazer uma demonstração de riverdance, o típico sapateado irlandês.

    'For The First Time' começa com as vozes do público, praticamente a capella, a antecipar o refrão. Danny O’Donoghue começa ao piano mas não se demora sentado. No final agradece a "noite incrível" que viveram juntos. 

    'Home Is Where the Hurt Is' abriu o encore. 'Breakeven' e 'Hall of Fame', temas claramente aguardados pelo público, chegaram para o grande final. 

    "Vocês são as estrelas do espetáculo", disse o músico irlandês que adjetivou a noite como "épica". "A música é a magia que nos resta", continuou. "A vida é demasiado curta e é feita de momentos como este. Dedico esta ['Hall of Fame'] a quem está a passar por um mau momento", disse Danny O’Donoghue, confiante no poder da superação e crente num futuro melhor. 

    Esta noite, os The Script levam as canções e a história que continuam a escrever à Super Bock Arena, no Porto.