The Waterboys em noite brilhante no Coliseu de Lisboa
Voz de Mike Scott continua charmosa, a perfumar qualquer canção.
Falar de Waterboys é falar de Mike Scott, o único membro histórico que resiste na banda de folk-rock britânica. Quando surgiu no palco do Coliseu dos Recreios, nesta noite, o olhar de todos é para ele, aquela figura esguia, de cabelo grisalho comprido e óculos, com chapéu de cowboy mas com a voz igualzinha e reconhecível dos bons velhos tempos. A charmosa voz de Mike Scott tudo perfuma. Mal ela se ouve, cada canção ruma às alturas.
A seu lado, estava uma banda em formato de quinteto, com queda para o pingue-pongue entre as harmonias do organista e as melodias do pianista.
Com a sala a ir enchendo aos poucos, percebeu-se logo à primeira música que o concerto seria de revisionismo histórico. 'Strange Boat' é o tema de abertura, uma passagem de testemunho entre as deixas do pai musical Bob Dylan e o caminho que os Waterboys abriram para outros, nomeadamente os War on Drugs.
A dupla identidade de rock e folk torna-se numa só, rockeira, nas canções seguintes, 'Where The Action Is' e 'Glastonbury Song', com muito barulho e até espaço para um brilharete de Mike Scott como solista da guitarra elétrica.
À quarta música do alinhamento, a banda levanta uma das preciosidades do seu banco de canções, 'How Long Will I Love You?', transformada numa versão bem mais elétrica que a gravação de estúdio.
Como os Waterboys não estavam para poupanças no alinhamento, não demorou muito a ouvir-se 'A Girl Called Johnny', uma das melhores canções históricas da banda e uma das interpretações mais aveludadas de Mike Scott, que a cantou sentado aos teclados.
Mike Scott tentou não falar muito mas não conseguiu esconder a sua alegria de estar em Lisboa, soltando um elogio à beleza do Coliseu dos Recreios, antes de cantar 'This Is The Sea', ou o rock a querer descansar em terras da folk e a inspirar uma melodiosa travessia pelas teclas do piano.
"My soul is in Memphis but my ass is in Tennessee", canta Mike Scott em 'Nashville, Tennessee', tema dedicado e inspirado no organista norte-americano da banda, Paul Brown, a levar os Waterboys a viajarem até ao coração da música norte-americana, mais concretamente ao country.
'Blackberry Girl' é dedicado ao género feminino, assinalando o Dia Internacional da Mulher. A canção desagua num alongamento instrumental em que o órgão simula uns efeitos electrónicos. Mas um dos momentos mais altos viria a seguir, com os Waterboys a entrelaçarem o tema de Bruce Springsteen cantado por Patti Smith, 'Because The Night', com 'The Pan Within'. As almas inflamam-se, a vibração é tal, com a canção a misturar-se com uma jam, que ninguém da sala quer que acabe, muito menos os músicos.
Quando se começa a pressentir um encore para breve, Mike Scott afeiçoa-se à guitarra acústica e o som torna-se mais calmo, para cantar vários temas, como 'When Ye Go Away' ou o popular 'Fisherman's Blues', sem o violino a afiar a sua identidade mas com a vibração, com muita gente do público a cantar, num ambiente de festa ébria mesmo que sem álcool e sem um bar ali na arena. Mike Scott ainda tem ginástica musical para colocar algum gelo na fervura quando entra em modo falado, pouco minutos antes de cantar mais uma balada folk da felicidade, 'And a Bang on the Ear'. Contagiado pela sua própria canção, Mike esperneia no ar a sua bota de vaqueiro e gagueja repetidamente os versos finais, com uma felicidade tamanha que não cabe nos padrões comedidos e pede extravasamento para a loucura saudável.
"É um prazer tocar em Lisboa. Obrigado por todas as noites que vivemos", desabafa Mike Scott, que iria ligar o modo de Bob Dylan jovial e hipersónico, no rock vertiginoso de 'Medicine Bow' e de 'Be My Enemy', num blues-rock a ameaçar o blues-punk.
Se a noite lá fora era chuvosa, lá dentro no Coliseu, passa-se a imaginar uma noite de lua cheia desanuviada de nuvens, mal se toca o tema de encore 'The Whole of the Moon', a canção mais reconhecível dos Waterboys, grandiosa e imune à passagem do tempo. Mike Scott canta-a sentado junto aos teclados, enquanto os coros femininos ecoam só na memória coletiva, em mais uma magia virtual de 'The Whole of the Moon'. O bilhete estava mais do que pago. Todos iriam regressar a casa de alma cheia, depois de mais de duas horas de atuação bem acima das expetativas.


























