Titãs: o Brasil alegre encheu a Altice Arena

    Espetáculo em Lisboa avivado por emoções muito fortes.

    Chico Buarque imaginou em Fado Tropical o rio Amazonas a correr em Trás-Os-Montes. Esta noite, os dois países também se cruzaram. Em geografia lisboeta, uma imensa pátria brasileira encheu a Altice Arena para assistir ao reencontro dos membros históricos dos Titãs. Houve um ou outro português mais a par do rock brasileiro que conseguiu persuadir um amigo ou dois a descobrirem a veterana banda de São Paulo. Mas mesmo esse portugueses eram observadores estrangeiros dentro de um universo sentimental brasileiro, carregado por décadas de memórias boas. A esmagadora maioria do público (arrisquemos uns 95%) era brasileira, numa agregação de felicidade comovente para uma ocasião única. Era difícil encontrar quem não cantasse as letras todas dos temas que os Titãs iam tocando. Ora juntavam-se em grupo para erguerem os braços coreograficamente, ou com telemóveis no ar a fazer brilhar a sala. Ora fechavam os olhos para momentos mais interiorizados das suas vidas a que os Titãs deram a banda sonora.

    O concerto dos Titãs teve muitos momentos simbólicos que o tornaram ainda mais especial, não foi só pelo facto da Altice Arena estar a ferver de calor humano para o tributo a uma das maiores bandas rock do Brasil de sempre. Arnaldo Antunes anunciou logo ao início que Branco Mello não poderia participar em pleno na atuação em Lisboa, devido a uma cirurgia recente de remoção a um tumor. A sua aparição para a parte acústica mereceu uma ovação do público que nunca irá esquecer. Outro momento tocante foi a presença da filha do malogrado guitarrista dos Titãs, Marcelo Fromer, Alice Fromer, para cantar as músicas Toda Cor e Não Me Vou Adaptar, com o enorme alento de Arnaldo Antunes. De repente, os Titãs eram muito mais do que um grupo de amigos, eram também uma família.

    Os Titãs em palco aparentam uma balbúrdia mas que nunca se desequilibra. A movimentação permanente de grande parte dos sete membros em permanência e a alternância entre quatro vocalistas, que se sobrepõem nos coros, dão uma vida colorida ao grupo em palco. A banda é uma amálgama de personalidades fortes, mas não de egos. O espírito coletivista é sempre mais forte nos Titãs, onde a amizade triunfa. Os vocalistas Sérgio Britto, Paulo Miklos e em especial Arnaldo Antunes são particularmente teatrais nas suas performances em palco. Nando Reis, o outro vocalista, apesar de estar mais comprometido com o seu instrumento (o baixo ou a viola) foi um dos mais efusivos com o público, com um carisma que não é inferior ao de Arnaldo Antunes.

    Na primeira parte do concerto, atravessa-se um punk tocado ao modo do rock clássico, onde não falta o lado reivindicativo e contestatário dos Titãs, como a declaração de cidadania mundial em Lugar Nenhum, a exigência por uma vida melhor em Comida, ou a expansão para a loucura de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas 

    Na segunda parte, dedicada às interpretações acústicas, os Titãs chegam a fazer lembrar os Resistência, com uma superbanda numerosa de guitarras acústicas alinhadas, com todos eles sentados lado a lado.

    A 3ª parte abre com Nando Reis a cantar Família e a comandar toda aquela alegria como um maestro da multidão. Segue-se pouco tempo depois uma versão curta do tema popularizado pelos Xutos, Casinha, com uma dedicatória a Ze Pedro, na voz de Paulo Miklos e com o entusiasmo do guitarrista Tony Bellotto, também ele uma figura. A partir do tema Televisão, o saxofone de Paulo Miklos começa a fazer das suas, num ânimo que seria retomado no encore. Mas antes desse encore, houve sova do rock mais agreste dos Titãs, numa inclinação vertiginosa, com Porrada, Polícia, AA UU e, já em apoteose absoluta, Bichos Escrotos. 

    No encore, ouve-se a engrenagem ska típica dos Titãs, ao longo dos temas Miséria, Marvin e Sonífera Ilha, “a primeiríssima canção que nos levou até vocês”. Após mais de duas horas de concerto, os cânticos de ordem pelo nome dos Titãs mantinham-se.