“Um dia de choque.” Dez anos depois, cartoonista português relembra ataque a Charlie Hebdo

    André Carrilho considera que o dia 7 de janeiro de 2015 foi chocante para a comunidade de cartoonistas e jornalistas. O ilustrador acredita que a profissão não vai desaparecer, apesar das ameaças.

    Foi há 10 anos que o mundo voltou a falar de extremismo islâmico, com o ataque à redação do Charlie Hebdo, em Paris. Na manhã de 7 de janeiro de 2015, dois homens entraram na redação do jornal satírico francês e mataram 12 pessoas, oito pertenciam à publicação.

    O atentado, reivindicado pelo grupo terrorista Al-Qaeda, foi cometido na sequência da publicação de caricaturas do profeta Maomé.

    Desafiado a recuar uma década, o ilustrador português André Carrilho diz que percebeu logo no dia do ataque o real impacto que um cartoon pode ter: “Foi um dia de choque. Acho que o foi para a comunidade de cartoonistas e de jornalistas. Foi um abrir de olhos. (…) [Os atacantes] provaram que o cartoon tem uma potencialidade de espalhar uma mensagem que às vezes o texto não tem”.

    Conversa com o cartoonista André Carrilho sobre os 10 anos do ataque

    André Carrilho afirma que a pressão religiosa não está tão presente no trabalho de um cartoonista, pelo menos em Portugal. As ameaças são hoje outras.

    “O cartoonista é o elo mais fraco na corrente da liberdade de imprensa. Quando um meio de comunicação social, principalmente impresso, se sente em dificuldades, o primeiro instinto é o de cortar na imagem, no cartoon, na ilustração. A imprensa está em dificuldades por causa das gigantes tecnológicas, das redes sociais, que retira rendimentos e publicidade aos media tradicionais. Isso está a criar alguns condicionalismos que está a afetar a liberdade dos cartoonistas”, lamenta o ilustrador.

    André Carrilho aponta para possíveis soluções: “Pode passar por um esquema de subscrições de páginas dos próprios criadores, compilações de livros ou cartoons que evoluam para a forma animada na televisão, por exemplo”.

    As pressões que os cartoonistas sentem chegam também do setor político, nomeadamente da “extrema-direita”, mas apesar de todas estas dificuldades acredita que a profissão não vai acabar.

    “Os cartoonistas continuam a fazer cartoons. Os caricaturistas continuam a fazer caricaturas. O público quer cartoon. O perigo do cartoon é exatamente esse, ou seja, a sua viralidade é imprevisível, porque as pessoas o compreendem mais facilmente, digerem as notícias de uma maneira mais imediata e é usado para veicular a opinião de milhares de pessoas”, atira.

    Nem mesmo o surgimento da inteligência artificial abala a crença de André Carrilho: “Acho que a IA é mais eficaz a produzir desinformação do que a produzir humor. Isso é uma coisa mais especificamente humana, mas eu não sei até que ponto, não digo que não, posso estar enganado, a inteligência artificial pode fazer cartoon. Pode, eventualmente, ajudar os criadores, ser uma ferramenta de assistência à feitura do cartoon, mas daí a fazer cartoons sozinha, tenho as minhas dúvidas.”

    Uma edição especial e cerimónias para assinalar o fatídico dia

    Para marcar os 10 anos do ataque ao Charlie Hebdo, publicou uma edição com cerca de 40 caricaturas.

    Para esta terça-feira estão previstas várias cerimónias em Paris. Vão participar vários chefes de Estado, entre os quais o presidente francês Emmanuel Macron.

    Tem surgido nas últimas horas várias mensagens políticas. A Presidente da Comissão Europeia considera que “os homens e mulheres do Charlie Hebdo foram assassinados pelo que representavam. Os valores da França e da Europa. Liberdade de Expressão. Democracia. Pluralismo”. Na rede social X, Ursula Von Der Leyen pedem que se honre em memória deles e que se luta "incansavelmente contra o terrorismo e o fundamentalismo religioso”

    A Presidente do Parlamento Europeu já se juntou às homenagens. Também na rede social X, Roberta Metsola lembra que há 10 anos “um ataque contra a liberdade de expressão uniu o mundo numa onda de solidariedade e resiliência. É o espírito que nos deve guiar contra o ódio e o terrorismo. Pela liberdade. Prestamos homenagem aos jornalistas e cartoonistas assassinados do Charlie Hebdo”