Um mês de apagão: como o "contador" foi abaixo e levou com ele dois países

    António Eloy defende que Portugal precisa de instalar "barreiras" no sistema elétrico nacional que permitam isolar falhas como a que, a 28 de abril, deixou o país e Espanha sem luz durante várias horas.

    O coordenador do observatório ibérico de energia, António Eloy, defende que o apagão ibérico de 28 de abril mostrou que o sistema energético português está "sobredimensionado", centralizado e demasiado dependente das ligações a Espanha e defende que devem ser criados "nódulos" que permitam isolar falhas como a que originou o problema sem que todo o circuito seja afetado.

    Em entrevista a esta rádio, António Eloy faz o paralelismo entre o que aconteceu em Portugal e Espanha e o que aconteceria a um nível doméstico se os sistemas das casas nacionais funcionassem na mesma lógica.

    "Em nossa casa, temos um problema no sistema elétrico: funde-se uma lâmpada e o contador vai abaixo. Não vai abaixo a eletricidade do prédio todo. Porquê? Porque cada um tem o seu contador, tem o seu sistema. Ou seja, não termos eletricidade não quer dizer que o prédio vá ficar às escuras, o quarteirão vá ficar às escuras ou a cidade vá ficar às escuras. Tem de haver barreiras de ruturas que permitam que a eletricidade não funcione toda no mesmo ciclo", exemplifica, sublinhando a necessidade de garantir "balsas, nós", que permitam evitar quedas totais.

    António Eloy nota também que um dos principais problemas - a dependência de Espanha - está identificado há perto de 30 anos, desde quando era "assessor parlamentar do deputado independente eleito pelo PS Gonçalo Ribeiro Telles".

    Foi na década de 1980 que, recorda, "houve um apagão em Portugal ligado precisamente ao facto da ligação com Espanha em Miranda do Douro ter sido colapsada. Na altura, elaborei para o Gonçalo Ribeiro Telles um questionário que ele apresentou ao ministro da tutela e que foi respondido pela EDP, que dizia que iam resolver essa situação. Nós só tínhamos na altura uma ligação com Espanha, onde recebíamos a eletricidade, por Miranda do Douro", recorda.

    À época, a resposta da elétrica foi a de que iria ser criada uma "gestão na rede que permitisse não estarmos dependentes de um só ponto de interligação", mas em 2025, nota António Eloy, "continuamos dependentes de um só ponto de interligação, independentemente de haver pequenas ligações pontuais".

    Assim, nota que "não se cuidou, desde há mais de 30 anos, de resolver as ligações com Espanha e, sobretudo, criar condições de autonomia".

    Os dois nós

    Portugal é, hoje em dia, "capaz de suprir quase 90% da sua eletricidade com produção nacional e, portanto, ninguém racionalmente consegue compreender como é que haver uma ligação com Espanha - na altura [do apagão de abril] estávamos a importar 20 ou 30% de eletricidade - provoca um apagão em cadeia". Uma vez mais, sublinha, o problema foi não haver "balsas, nós que permitam romper esta lógica de sobredimensionamento".

    A recuperação nacional de energia aconteceu precisamente, sustenta, através de "dois nós": o da Tapada do Outeiro e o de Castelo de Bode, "porque o nó do Alqueva, infelizmente, foi o maior disparate feito neste país e não funciona sequer para distribuir eletricidade". Ainda assim, porque Portugal tem "um grande consumo de eletricidade no Norte do país e a central de Castelo de Bode serve outro grande ponto, Lisboa e Setúbal", António Eloy vê mérito na escolha dos dois pontos que permitiram o black start nacional. Mas não poupa o Alqueva: "Temos aquele deserto que foi amplificado pela megaestrutura que destruiu toda a agricultura do Alentejo."

    "Estamos a investir sempre em megaprojetos que sobredimensionam mais um sistema que devia optar por lógicas de descentralização e economia de escala", reforça.

    Andaluzia apagou a luz

    Ainda sem conclusões das investigações oficiais iniciadas no dia do apagão, António Eloy defende que as respostas "não andarão muito longe" de um cenário de "sobreprodução de energia solar" na região espanhola da Andaluzia.

    "Estávamos num dia particularmente quente, limpo e, portanto, havia uma grande produção de energia solar. Esta grande dimensão teve dificuldade em ser consumida, porque a eletricidade é produzida e tem de ser consumida. Quando a eletricidade é produzida e não tem escoamento, cria-se uma sobredimensão, ou seja, cria-se uma inadequação, e essa sobredimensão depois tem o retorno", nascendo aqui o problema que apagou Portugal e Espanha.

    "Houve uma produção excessiva, houve o retorno e o sistema teve ali as suas falhas, não estava preparado para essa sobredimensão e, sobretudo, não estava preparado também para o funcionamento de uma rede que está mal estruturada. Vamos esperar pela resposta final do inquérito, mas não andará muito longe disto: houve uma sobreprodução e essa sobreprodução não teve capacidade de escoamento", criando uma reação em cadeia.

    "Quando pomos, por exemplo, dois instrumentos na cozinha ao mesmo tempo, temos a hipótese de nos vir abaixo o quadro. E veio, só que o quadro, infelizmente, está articulado de uma forma inadequada, porque devia estar interligado com balizas, com nós, com balsas, que não ligassem todo o sistema, como aconteceu". Se o cenário fosse diferente, "haveria um problema local na Andaluzia e nós não estaríamos aqui a levar este choque brutal" a 28 de abril.