Voo "prioritário" por explicar e possível "facilitação": o que aconteceu no acidente aéreo em Washington?

    O especialista em aviação civil Paulo Soares nota que o helicóptero militar que chocou com um avião civil estava a voar sob um sinal prioritário apesar de se tratar de um voo de treino e admite que o controlo de tráfego aéreo não terá agido como devia tendo em conta as informações de que dispunha.

    A colisão entre um helicóptero militar e um avião civil na madrugada desta quarta-feira em Washington DC levanta dúvidas ao especialista em aviação civil Paulo Soares pelo tipo de voo que a aeronave do Exército dos Estados Unidos da América estava a fazer.

    Em declarações a esta rádio, explica que o helicóptero em questão voava com um sinal do Exército que "por norma só faz voos prioritários", uma utilização "um pouco estranha" desse tipo de identificação por se tratar "de um voo de treino" ao longo do rio Potomac, onde o acidente se deu.

    "Não estou a dizer que está errado, é um pouco estranho. Porque os voos prioritários são prioritários, isto é, têm de ir à frente dos outros. É um pouco como as ambulâncias e a polícia quando levam os pirilampos ligados para tudo, porque eles têm prioridade", assinala o especialista.

    Paulo Soares assinala também que Washington DC, a cidade onde está localizado o Capitólio e que é a sede do poder norte-americano, é um local "altamente vigiado" por essas mesmas razões e, olhando ao tipo de informação disponível, o controlador de tráfego aéreo (ATC) não terá agido da melhor forma perante o que estava a observar.

    "O próprio radar do controlo de tráfego aéreo assinalou a possibilidade de haver uma colisão em voo e não foram tomadas as providências, ou pelo menos, supostamente não foram tomadas as providências mais corretas para se evitar. Concretamente, quando há um aviso no radar, não se pergunta se está a ver o outro avião, que é o que faz o controlo de tráfego aéreo para o helicóptero. É preciso primeiro desviar e depois perguntar-lhe se ele estava a ver. Não se pergunta se vais bater: evita-se o embate e só depois é que se vai ver o resto. E isso foi uma coisa que infelizmente aconteceu e essa é factual", nota.

    "Facilitação" no controlo aéreo

    Questionado sobre eventuais culpas neste acidente, Paulo Soares diz não haver, para já, bases que permitam atribuir responsabilidades, mas admite alguma "facilitação" por parte do ATC.

    "Facilitou a evidência que tinha no ecrã do radar. Se essa facilidade advém de alguém estar a fazer a coisa menos correta, isso é outra coisa que vai ser aferida mais tarde. Mas a primeira condição é: assim que eu tenho um alerta de colisão, evitar essa mesma colisão. Parece, no meu ponto de vista, que essa parte não foi feita", descreve sobre a atuação dos responsáveis do aeroporto Ronald Reagan.

    Já em relação ao helicóptero, ao tipo de voo que estava a ser feito e à identificação que o aparelho utilizava, Paulo Soares nota que este "não tem de cumprir as normas civis" precisamente por ser militar.

    "É um dos motivos de exclusão do cumprimento das normas da Convenção de Chicago", assinala, e por isso "tudo o que está dentro do helicóptero é aquilo que os militares quiseram pôr, ponto final".

    Numa explicação tão simples quanto possível, o especialista traça uma comparação direta: "Quando nós vemos uma ambulância com os pirilampos ligados e com a sirene ligada, o que é que nós fazemos? Desviamo-nos, não é? Fazemos o autocontrolo na estrada."

    No caso dos voos que estavam a acontecer em DC, "temos alguém que diz assim: desviem-se porque esse tem prioridade. É como se estivesse numa emergência. Numa emergência pára tudo para aquela aeronave que está em emergência poder fazer aquilo que se propõe fazer, que normalmente é vir para o chão e aterrar em segurança".

    Assim, remata, "esta situação também vai carecer de muita justificação por parte do exército dos Estados Unidos. Porque é que utiliza um código prioritário numa missão de treino? Não se percebe. Até pode haver justificação perfeitamente plausível, mas pelos dados que hoje temos, eu não consigo entender por enquanto".

    Situação "tem de ser aferida com pinças"

    A hipótese de uma utilização errónea deste sinal de voo de emergência é desde já colocada de parte "porque é a identificação daquele voo nas comunicações" e serve "para um controlador saber" do que se trata, "mas ao mesmo tempo ele também está nos radares".

    A isto junta-se a obrigatoriedade de, na zona de Washington, "voar-se com depósito de plano de voo", o que significa que este "estava perfeitamente identificado" no sistema de navegação aérea.

    "Não foi uma coisa que surgiu. Estava lá, está registado, foi acompanhado pelo radar sempre e acompanhado pelo ATC o voo todo. Não houve aqui uma coisa que apareceu, está lá porque era um voo perfeitamente normal, apesar de ser de treino, mas os voos de treino também são normais. Planeiam-se, planificam-se e executam-se", reforça. 

    A resposta a estas questões, diz, não deve ser demorada porque, "infelizmente para todos os que morreram", as rotas de radar "tanto do avião como do helicóptero" e as "comunicações que foram feitas com as duas aeronaves" já estão disponíveis - "obviamente não a toda a gente" -, o que significa que "o material que vai servir de investigação já existe".

    Paulo Soares admite que possa faltar olhar para as caixas negras do avião, que já foram recuperadas, mas acredita que não contribuam de forma especialmente significativa porque o aparelho "estava a fazer a aproximação final e não reportou coisíssima nenhuma".

    Já o helicóptero "poderá ter outro tipo de gravadores internos", mas que admite desconhecer não só por ser assunto militar, mas também porque os militares "não são obrigados a ter" estes aparelhos.

    "Como tal", realça, "tem de ser aferida com pinças toda esta situação trágica, porque morreram pessoas, e isso é que é o mais grave, e tentar melhorar e corrigir o sistema para que não volte a acontecer, independentemente da causa".

    Autoridades rejeitam precipitações

    Esta sexta-feira, um relatório da Agência Federal de Aviação dos EUA (FAA) divulgado pela agência Associated Press (AP), refere que o pessoal na torre de controlo de tráfego aéreo “não era o normal” no momento da colisão aérea que matou 67 pessoas perto de Washington e que um controlador de tráfego aéreo estava a trabalhar em duas posições no momento do acidente.

    “A configuração da posição não era normal para a hora do dia e o volume de tráfego”, pode ler-se.

    Nick Daniels, presidente da Associação Nacional de Controladores de Tráfego Aéreo, realçou numa declaração que “seria prematuro especular sobre a causa raiz deste acidente”.

    “Aguardaremos as conclusões [das autoridades] e utilizaremos esta informação para ajudar a orientar decisões e mudanças para melhorar e melhorar a segurança da aviação”, disse.

    Os investigadores do acidente aéreo adiantaram que esperam ter conclusões preliminares dentro de 30 dias sobre as causas do acidente, no qual um avião de passageiros colidiu com um helicóptero.

    "A nossa intenção é ter um relatório preliminar dentro de 30 dias. O relatório final será emitido assim que tivermos concluído toda a nossa investigação e apuramento de factos", explicou Todd Inman, membro da equipa de investigação, numa conferência de imprensa no Aeroporto Ronald Reagan, na capital dos EUA.

    Os investigadores vão permanecer na zona "o tempo que for necessário", acrescentou Inman, que salientou que a sua "missão é perceber não só o que aconteceu, mas o porquê e recomendar mudanças para evitar que volte a acontecer”.

    Por sua vez, Jennifer Homendy, diretora do National Transportation Safety Board (NTSB), uma agência independente encarregada de investigar acidentes de transporte civil, disse que os investigadores devem verificar as informações, mas pediu para não especular sobre as causas do acidente.

    Esta posição contrastou com a postura do Presidente norte-americano Donald Trump, que numa conferência de imprensa anterior na Casa Branca disse não saber os motivos, mas deu a entender que o piloto do helicóptero era o culpado.

    Apontou ainda o dedo, sem provas, aos governos democratas de Barack Obama (2009-2017) e Joe Biden (2021-2025) por terem contratado controladores de tráfego aéreo que, na sua opinião, eram pouco qualificados, seguindo políticas de diversidade e inclusão.

    O acidente ocorreu quando um helicóptero militar, com três pessoas a bordo, e um avião comercial Bombardier CRJ700 da American Eagle (subsidiária regional da American Airlines), com 60 passageiros e quatro tripulantes, colidiram na quarta-feira por volta das 20h48 de quarta-feira (01h48 de quinta-feira em Lisboa), quando este último se aproximava do Aeroporto Ronald Reagan, em Washington.

    As autoridades estão a afastar a possibilidade de haver sobreviventes do acidente aéreo, o mais mortífero nos Estados Unidos desde 2001.

    O acidente ocorreu num dos espaços aéreos mais controlados e monitorizados do mundo, a pouco mais de cinco quilómetros a sul da Casa Branca e do Congresso norte-americano.