Vilar de Mouros: os veteranos Simple Minds e o rock n' roll a ferver dos Black Rebel Motorcycle Club
Hoje, último dia do festival, há Iggy Pop, Bauhaus, The Legendary Tigerman, Blind Zero e The Mirandas.
Segundo dia de Vilar de Mouros. O dia em que os escoceses Simple Minds assumiram o papel de cabeças de cartaz, depois do cancelamento dos endiabrados Limp Bizkit. Fizeram-no com um propósito: o de estender a celebração dos 40 anos desde a edição do disco de estreia - Life in a Day. Já o fizeram noutros pontos do país. No Alto Minho foi ontem, mas com Jim Kerr menos agitado e a festa um pouco mais morna.
A banda quarentona - que da formação original tem apenas Jim Kerr e Charlie Burchill - saltitou de disco em disco, esbarrando, naturalmente, em glórias radiofónicas, como Don't You (Forget About Me) ou Alive and Kicking - ambas deixadas para o final.
Ged Grimes, Sarah Brown, Gordy Goudie, Cherisse Osei e Berenice Scott completam o naipe de músicos que encheram o palco por volta das 23h30. Ontem Jim Kerr esteve mais acanhado nos movimentos, devido a uma lesão na perna. Não arriscou muito nas acrobacias e ponderou os limites. Preferiu jogar pelo seguro e não testar muito o corpo. Embora estivesse um pouco mais contemplativo, esteve constantemente preocupado com o bem-estar do público. "Vocês estão bem?", perguntou vezes sem conta ao longo do concerto. Foi a forma que arranjou para ir intercalando a missão natural de puxar pela multidão com a entrega mais limitada às canções. Custou-lhe não estar em boa forma e isso notou-se. Ainda assim, Kerr não ficou desamparado pelo público que "lhe deu a mão" e alinhou ora na cantoria ora no levantar e balançar de braços.
Act of Love foi a primeira e mereceu aclamação. A garra inaugural de Cherisse Osei na bateria segurou o olhar atento de quem estava no recinto, enquanto o resto da banda se ia posicionando nos respetivos postos de trabalho no palco. O afável Jim Kerr foi saudando quem tinha à frente, evidenciado logo o charmoso sotaque escocês. Começar o concerto com Act of Love não é um ato aleatório. O tema, que foi resgatado pelos Simple Minds em 2021, simboliza a casa da partida, a génese, o início de tudo. Foi a primeira canção que se soltou do alinhamento do primeiro concerto do grupo em janeiro de 1978 em Satellite City, Glasgow, e era o primeiro tema da demo que originou o primeiro disco. Foi lançado mais de quarenta anos depois e serve a honra de abertura dos espetáculos - tal e qual como "naquele tempo".
O vocalista, que costuma ser mais conversador, chegou de óculos escuros, casaco e uma écharpe. Atacou o primeiro tema com a genica possível mas com a intenção convicta de não desapontar o público. Ainda o vimos a subir para a plataforma da bateria sempre que podia, a ajoelhar-se no palco, a rodopiar o microfone ou a abrir os braços, como aconteceu em Love Song, a canção que veio depois. A jornada do alinhamento, que revisitou as quatro décadas da discografia do coletivo, fez paragens em temas como Glittering Prize, Book of Brilliant Things (com destaque para o poder assombroso que saiu da voz de Sarah Brown), Vision Thing, Mandela Day (Street Fighting Years) ou Let There Be Love.
Ouviu-se também Belfast Child - canção mais interventiva que foi inspirada na explosão provocada pelo IRA, a 8 de novembro de 1987, em Enniskillen, na Irlanda do Norte, Someone Somewhere in Summertime, See the Lights e o instrumental Theme For Great Cities que fez a transição para o solo da saltitante e aguerrida Cherisse Osei no posto da bateria.
Don't You Forget About Me e Alive and Kicking foram trauteados por praticamente toda a gente que estava no recinto. À medida que as canções iam crescendo, a multidão ia acompanhando Kerr na cantoria. As vozes ouviram-se em uníssono, mais sincronizadas no refrão. Também em uníssono balançavam os telemóveis que estavam no ar para captar o que acontecia no palco. O agradecimento coletivo fechou o concerto e fez as despedidas. Estamos a falar dos Simple Minds por isso será com certeza um "até já".
Antes dos Simple Minds, o palco de Vilar de Mouros foi chão para californianos Black Rebel Motorcycle Club. E o chão ferveu. O trio de São Francisco teve de concentrar o concerto numa hora que, embora com muita pena nossa não tenha sido esticada (nem podia), puxou pelos instintos rockeiros, puros e profundos, dos festivaleiros e manteve-os à superfície. Os suecos Clawfinger que vieram antes tinham posto o público a levantar o pó. Os norte-americanos deram-lhe a viagem sónica pelo rock n' roll - e suas nuances - em estado puro.
Peter Hayes, Robert Levon Been e Leah Shapiro, que no palco formam um triângulo sóbrio, mantiveram-se nas posições à medida que iam picando os temas, exibindo, em contraluz, o virtuosismo no domínio dos instrumentos. Não são banda para grande espalhafato. Dedicam-se ao público ao dedicarem-se à música e a todas as suas possibilidades no universo rockeiro. Quando Peter Hayes falou, foi para agradecer e para gabar as belezas naturais de Vilar de Mouros. E gabou o sítio duas vezes, mostrando ter ficado claramente impressionado com a magia bucólica do Alto Minho. O concerto abriu com Beat the Devil's Tattoo, que emergiu de um fundo avermelhado e meteu-nos, de olhos fechados, a contemplar pensamentos. Do alinhamento soltaram-se ainda canções como Awake, Red Eyes and Tears, Shuffle Your Feet ou Six Barrel Shotgun. Spread Your Love e Whatever Happened to My Rock n' Roll (Punk Song) selaram o pacto de rock entre a banda e o público.
Os Clawfinger começaram a tocar ainda com o sol a descer e enquanto as pessoas se iam arrumando em frente ao palco. A banda sueca veio para desarrumar. E desarrumou. Alguém viu se ficou pó no chão? A boa energia parece afetar todos os elementos do grupo sueco. Deve funcionar por contágio ou assim. Logo no início do concerto, o vocalista Zak Tell chamou toda a gente para a frente. Sim, o clássico "chegue-se à frente" neste caso para o rebuliço. Tell foi eficaz no pedido. As pessoas foram indo para a frente até haver pouco espaço para um headbanging decente. "Rap metal since 1993/rap metal desde 1993", dizia a frase que ocupava o fundo do palco.
World Domination e Out to Get Me irromperam do alinhamento e Nothing Going On provocou o primeiro remoinho humano da noite, remoinhos esses, vulgo mosh pit, que se foram multiplicando, como os pães, ao longo do concerto. Tell estava imparável. Estavam todos, mas Tell rodopiou no ar, mostrou o que a passagem do tempo fez à barriga (aumentou-a), saltou para o meio do público e frequentemente ia à frente do palco para, com os olhos bem arregalados, cantar - cara a cara - com quem ali estava.
"Conhecemo-nos há 33 anos num hospital onde tratávamos de idosos. O lugar onde nos conhecemos tem tanto de fixe como de estranho", relembrou antes de Rosegrove e mais uma série de temas mais antigos. Environmental Patients foi a novidade que a banda trazia para mostrar. Do What I Say provocou o maior remoinho humano e fechou o concerto com o público envolvido numa nuvem de pó. Tudo certo, portanto.
Os portugueses Tara Perdida voltaram a levantar o pó do recinto com a celebração dos 25 anos de carreira. O punk rock nacional esteve representado por quem de direito e fechou a segunda noite do festival mais antigo da Península Ibérica. Siga para o terceiro dia. Há um Iggy Pop para ver. O cartaz conta ainda com os Bauhaus, The Legendary Tigerman, Blind Zero e The Mirandas.


































































