MEO Kalorama: Blur na encantadora ternura da meia-idade e o regresso poderoso dos Yeah Yeah Yeahs
A segunda edição do MEO Kalorama já começou. Esta sexta-feira e no sábado há mais!
A segunda edição do MEO Kalorama arrancou esta quinta-feira no Parque da Bela Vista, em Lisboa. Quatro palcos - um dos quais criado este ano e dedicado à música eletrónica - e uma série de pilares como a arte urbana, sustentabilidade, a inclusão, a representatividade ou a ideia de comunidade solidificam o festival que decorre até ao dia 2 de setembro.
Os Blur foram os cabeças de cartaz do primeiro dia da edição número dois do festival lisboeta, que contou ainda com a angolana Pongo, os australianos Amyl and the Sniffers, os retornados Yeah Yeah Yeahs e os energéticos Prodigy no palco principal.
"The Ballad of Darren" é o disco (algo inesperado) que trouxe os Blur a Portugal em 2023. O bem-aventurado regresso ao estúdio trouxe-os ao nosso país em dose dupla já que foram eles - os quatro comparsas a gozar de paz e de momentos de galhofa uns com os outros - a fechar o Primavera Sound Porto. Foi a poucas semanas do início do verão e esta noite voltaram a Lisboa para fechar a temporada da estação tipicamente festivaleira.
Eis que voltaram e ainda bem porque, a avaliar pela maré de gente que tinham aos pés, pela cantoria e pelos saltos eufóricos do público nos temas mais populares, são sempre bem-vindos. E, claro, pela amostra das novidades que saudámos com atenção.
Com a soma de 35 anos de estrada (ainda que interrompida) e um álbum a soar a rejuvenescimento interno, foi agora a vez de Lisboa acolher Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree - eles que dizem ter voltado ao estúdio com a "pica" criativa do início e com um sentido apurado de redescoberta uns dos outros.
Com descontração e entrega à fluidez pura dos momentos, o quarteto chegou ao Parque da Bela Vista com vontade de mostrar canções novas, é certo. Mas os quatro "rapazes" - agora gozar da ginga abençoada da meia-idade - subiram ao palco também para celebrar os temas que os cristalizaram no capítulo que a britpop ocupa na narrativa histórica musical. Hits da auspiciosa juventude dos muitos que foram à Bela Vista - canções que andaram a circular, vezes sem conta, em cassetes, walkmans ou leitores de CDs mas que sobrevivem, intactas e cheias de genica, em qualquer plataforma digital.
A primeira canção que se soltou do alinhamento ainda cheirava a novo: 'St. Charles Square', do novo álbum, abriu o concerto que, além dos temas novos que se calhar muitos ainda não teriam ouvido, teve uma catrefada de picos, gritos eufóricos e sing alongs de coração aberto ao peito, para memória futura. Ao disco novo, os Blur foram buscar cinco, com o bem acolhido 'The Narcissist' a antecipar o final cósmico do concerto. Final em estado de graça com o sing along do melódico 'The Universal', nesta altura com o palco metamorfoseado num belo céu estrelado e cintilante.
O bonacheirão Damon Albarn, que entrou em palco de fato e acabou com a típica e charmosa parte de cima do fato de treino, despediu-se do público com uma pianada final e um enorme sentido de gratidão. "É o último concerto do verão. Que sítio agradável para se estar", disse ao público entre músicas, evidenciando o que estava a sentir com repetidos "obrigados" pelo "público fantástico" que os Blur tinham à frente.
Os quatro estão no palco como querem, como lhes apetece. A experiência e a rodagem dá nisto e é coisa boa e se ver. Tocam para se divertirem e enfiam-se no estúdio para revitalizar a conexão humana e criativa. E isto resume o que se viveu esta quinta-feira no Parque da Bela Vista. Além disso, ainda aproveitam a digressão para fazer turismo nas cidades por onde passam. "Fui visitar o Museu da Marioneta", disse Albarn às tantas. É um museu fantástico. Obrigado por terem um museu como aquele", rematou o homem que "fugiu" uma série de vezes para os braços do público, a esticar o cabo do microfone até onde podia e a reforçar, com frequência, o quão contente estava por estarem a ser tão bem recebidos.
'Popscene', 'Beetlebum', 'Trimm Trabb', 'Villa Rosie', 'Coffee & TV', 'Country House', 'Parklife', 'To the End', 'Sing', 'Barbaric', 'Girls & Boys', 'Advert', 'Song 2', 'The Heights', 'This Is a Low' e 'Tender' fizeram parte do alinhamento de mais uma passagem de reencontro entre os britânicos e Portugal. São sempre muito bem-vindos, Blur.
E são muito bem-vindos também os Yeah Yeah Yeahs!
Antes do espírito de confraternização dos Blur, o público da Bela Vista assistiu ao regresso entusiasmado e energético dos Yeah Yeah Yeahs, eles que em 2020 assinalaram 20 anos desde que se formaram e que este ano celebram 20 anos do lançamento do disco de estreia, "Fever To Tell".
O trio celebrou as efemérides com os muitos nostálgicos que tinha aos pés mas também ofereceu temas, a palpitar de novidade, de Cool It Down, o álbum que a banda editou em 2022 e que chegou após um hiato de nove anos em matéria de material discográfico. A Portugal já não vinham há uns bons aninhos. E Karen O expressou, a plenos pulmões, a alegria de estarem de volta.
A espera de ambas as partes compensou. O chão à frente do palco principal estava bem composto quando os Yeah Yeah Yeahs estavam quase a chegar. As linhas da frente reagiram com euforia à entrada em palco dos nova-iorquinos que tiveram o público na mão ao longo de todo o concerto. Karon O cintila, geme, atira o microfone ao chão, salta e sorri com a alma aberta. Expande-se com o corpo, quinta-feira envolvida num manto colorido que despiu mais à frente para exibir um fato (também cheio de cores) pincelado com brilhantes.
A química permanece e respira entre eles tanto em palco como no estúdio. "Temos feito isto juntos durante tanto tempo, e há momentos em que uma canção surge de um lugar que só Deus sabe. Quando acontece parece que a qualidade do ar muda na atmosfera, tal como acontece quando há trovoada", disse Karen O, em comunicado, sobre a criação das novas canções.
A vocalista, que continua aguerrida, saltitante, gigante no palco e que também transforma a atmosfera, conta que a vontade de voltar à estrada foi avolumada em sonhos que ia tendo durante o período de isolamento provocado pela pandemia. Abençoados sonhos que esta quinta-feira manifestaram um grande concerto.
A abertura foi com 'Spitting Of The Edge Of The World', do novo disco. O mais popular 'Cheated Hearts' veio a seguir para Karen O despir o manto e entregar-se ao tema que meteu o público aos pulos. Karen O sorri, rodopia, bate palmas e convoca a maré de gente para os saltos.
A acelerada e frenética Pin, a que veio a seguir no alinhamento, manteve o público em altas, igualmente frenético e aos pulos.
"Já não atuávamos em Lisboa desde 2006. É muito tempo, mas estamos muito felizes por estarmos aqui agora", disse a vocalista. "Há amor em Lisboa, esta noite há amor no público. Amor e ternura", acrescentou Karen O, antes de tocarem 'Lovebomb'. Seguiram-se 'Gold Lion', 'Y Control' e 'Maps', a grande declaração de amor do trio norte-americano. "Quero dedicar esta canção a todas as pessoas que amaram e que perderam quem amaram. A quem amam mais do que a vida. Quero dedicar esta canção a todos os amantes em Lisboa", disse sobre 'Maps'.
'Heads Will Roll' ouviu-se com o chão da Bela Vista a estremecer com os saltos, ao mesmo tempo que anoitecia, com a lua ainda gigante a alumiar a primeira noite do fesival.
Êxtase em 'Day With The Night', com Karen O a atirar o microfone ao chão e depois a entregá-lo, com gentileza, a uma pessoa que estava na fila da frente. "Obrigada", Lisboa, disse, no final, e claramente feliz por ter os Yeah Yeah Yeahs a celebrar com o público português.




































































